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Resquícios de um sentimento despercebido

  • Foto do escritor: Revista Só Letrando
    Revista Só Letrando
  • 19 de fev. de 2024
  • 6 min de leitura

Por Vinicius


Há certas coisas que somente percebemos quando não mais as temos. A maior parte delas é assim se pararmos para pensar. Então não sei se tenho sorte de dar por conta antes que seja tarde demais ou se ele tem mais paciência que deveria. Afinal, vê-lo apenas em períodos incertos, por durações irregulares, me permitiu enxergar como sua presença era algo que havia tomado por certo, o quanto eu havia me acomodado a ela e o quanto isso escondeu os pormenores que eu sentia. 


Eu poderia dizer que, em algum momento, misturei as coisas, mas isso daria a entender que esses sentimentos não podem coexistir entre si. Contudo, a verdade é que uma coisa levou à outra. A amizade gradualmente se transformou em um amor platônico sem que eu percebesse. 


Noites e dias sob a mesma luz, sob o mesmo teto - mesmo que furado ou rachado -, ficaram para trás já tem algum tempo, mais tempo do que eu gostaria, para ser sincera. Piadas, cutucadas e risadas compartilhadas foram abandonadas sem que pudéssemos fazer nada. Abraços quentes em noites frias, o toque de sua mão na minha ao fugirmos - por qualquer que fosse o motivo - ou o simples ato de estar perto, de tentar deixar as coisas menos sérias e de me fazer querer afundar a cara dele na porrada, se tornaram lentamente mais escassos até deixarem de ser parte de meu cotidiano. 


Porém, quando estou com ele, parece que foi ontem a última vez em que nos vimos. Ou, ao menos, parecia. E isso me deixa preocupada. Sinto-o cada vez mais distante, cada vez menos "ele" - por assim dizer -, como se estivéssemos perdendo algo, como se eu estivesse perdendo os detalhes... Detalhes ínfimos, que sequer aparecem em primeiro plano em meu consciente, que arrancam meus mais sutis e sinceros sorrisos, aqueles que mal sinto adornar meu rosto e que mais ditam meus sentimentos sobre o dia.


E... ainda que seja previsível e clichê dizer isso, ouvir meu nome ser dito por ele, pela voz dele, sempre me fez me sentir estranha, sem saber o que realmente estava sentindo.  


Então, às vezes, me encontro desejando nunca ter sido trazida para este palácio, ainda que saiba que não há como mudar o passado - que saiba que as coisas eram muito mais difíceis do que me lembro. E, em segredo, sempre peço por mais tempo, por uma surpresa; que venha mais rápido e que vá mais tarde... ou que - sendo honesta comigo mesma ao menos uma vez na vida - não vá. Contudo, nunca permiti que nenhuma dessas palavras saísse da minha boca.


Ainda podemos nos ver, embora eu não tenha certeza de até quando isso irá durar. Convencer meus pais tem se tornado uma empreitada cada vez mais cansativa e infrutífera. E, por mais que eu entenda que estou atraindo mais atenção que o necessário, eu sinceramente quero que se foda. 


"Princesa Anith avistada novamente com filho de magnata da indústria farmacêutica", dizem as capas das revistas de fofocas das últimas três semanas, mudando uma palavra ou outra em busca de atrair a atenção do público e criando novas narrativas a fim de espremer até a última gota de engajamento que essa notícia pode render. 


Há tantas coisas mais importantes acontecendo no país, tantos problemas mais latentes e urgentes. 


Mas, não! Vamos noticiar que a princesa tem um mínimo de vida social fora do palácio! E, em vez de supor que são amigos, vamos criar e implicar um relacionamento mais profundo entre os dois! 


Porra... Eu sei que sou meio lerda, tá bom!? 


Eu realmente quero estar com ele. 


Eu realmente quero esse relacionamento mais profundo... 


Só demorei para perceber... 


Quero dizer, não é que demorei para perceber; eu percebi... só não pensei muito a respeito. 


Provavelmente, deveria estar me preocupando se ele sente o mesmo e, caso não sinta, o que faria caso ele se afastasse ainda mais agora, se achasse estranho eu dizer que…


Tá, isso é um problema ainda maior agora que parei para pensar. Talvez eu tenha interpretado errado a maneira que ele me trata, ele pode não gostar de mim dessa forma. 

Nem estou massageando minhas mãos para tentar aliviar um pouco meu nervosismo, imagina...


Bom, o não eu já tenho; e piorar as coisas já vão. 


Não é como se eu tivesse muito a perder. 


Eu só tenho quase tudo a perder, nada demais. 


Tomo um momento para respirar fundo e organizar a miríade de pensamentos indo e vindo em minha mente. Giro lentamente minha cabeça para a direita até perder a conta e, então, faço o mesmo para esquerda, tentando aliviar um pouco a dor e a tensão. Acabo, no fim das contas, ficando tonta. 


Não era para eu estar tão ansiosa. É normal acabar sentindo esse tipo de coisa por alguém tão próximo, não é? Eu não sou estranha por isso, não é?


...


Enfim, nem sei o porquê de estar pensando tanto nisso. Afinal, ele é só um palhaço, um cabeçudo e…


O celular toca e vibra várias vezes; mensagens, várias mensagens. Eu quero ver, talvez seja ele. Não, não quero! Tenho que terminar minha linha de…


O aparelho já está em minha mão, a tela ligada, a luz repentina rasga a escuridão do meu quarto e incinera minhas córneas. Deslizo a barra de controle do brilho da esquerda para a direita até a luminosidade se tornar aceitável - provavelmente deveria deixar no automático, mas sempre fica claro demais, então não o faço. E... 


É ele. 


— Okay, meus instintos não falharam! — meus pensamentos escapam em voz alta. — Dessa vez ao menos... 


Desbloqueio o aparelho, abro o aplicativo de mensagens e, em seguida, nossa conversa. 


//

Arthur: "A gente precisa conversar" 

"A situação não tá muito boa e tem algo que preciso te contar" 


Minhas mãos apertam o telefone com mais força do que deveriam, meus dedos tamborilando em sua lateral. Não consigo tirar meus olhos das palavras que acabo de ler, vendo e revendo, lendo e relendo. 


Arthur: "Imagino que ainda esteja acordada" 


"Preciso te encontrar hoje à tarde; meio-dia para ser mais exato" 


"Espero que não acabe sendo a última vez..." 


"Sei que Daniel disse que só poderia te ver de novo só daqui dois meses, mas não tenho certeza de que haverá outra chance."


"Então, preciso que diga que as orquídeas serão arrancadas do jardim." 


"Ele, provavelmente, irá querer vir com você. Se ele quiser, não discuta."


"Desculpe por isso." 


Eu: "Arthur..." 


Arthur: "Pode me bater depois se quiser :P" 


Eu: "O que você fez!?" 


Arthur: "Nada..." 


"Ainda." 


Eu: "Ah, pronto, me diz logo o que que tu tá inventado." 


Arthur: "Você vai descobrir." 


Ah, mas eu vou afundar minha mão na cara dele.


Arthur: "Te vejo às 12h00; mesmo lugar." 


Eu: "Qual 'mesmo lugar'?" 


Arthur: "O da última vez." 


Eu: "Certo." 


 "Também tem uma coisa que eu queria te dizer." 


Arthur: "Okay, a gente vai ter muito o que conversar então." 


Eu: "Eu tô falando sério."


Arthur: "Não sei se fico animado ou ansioso." 


"Só..." 

"Eu tenho que ir, provavelmente não vou conseguir responder por algum tempo." 


Eu: "Se cuida, Arthur." 


Arthur: "Vou tentar." 


"Até mais, An." 


//


O Canto da Lua. Um restaurante chique no centro da cidade, não muito distante do Palácio. Ele disse que havia sugerido o lugar para causar uma boa impressão no rei. Acabou o deixando mais irritado, isso sim; as especulações daquele cabeçudo ser meu par romântico só se acalentaram com a notícia que fomos vistos naquele lugar. 


Não quero ficar reiterando tanto o quão fui lerda, mas caralho... 


Bom, tenho uma outra chance agora. 


Só... 


Com que cara eu vou lá falar com Daniel, informando que a "dor de cabeça ambulante" dele me chamou pra sair antes dos dois meses se passarem? E no mesmo lugar ainda? 

Embora, não vá ser um encontro "encontro"... 


Arthur disse que precisava falar algo. 


Eu disse que precisava falar algo. 


E se... for um encontro "encontro"? 


Sinto meu rosto se aquecer e uma sensação estranha se formando em meu peito, como se um emaranhado de fios se desenrolasse de maneira incessante, movendo-se de um lado para o outro, indo e vindo. 


"Algo" pode significar muitas coisas, pode ser ruim, pode ser bom. Duvido que seja algo bom, ainda que anseie por isso. 


Não posso botar esperanças demais. 


Mas, se ele acabar não dizendo nada a respeito, será que terei outra chance se eu não fizer nada a respeito? 


Ou, mais importante, será que tenho alguma chance?

 
 
 

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