2026.1 | A carta como resistência da desaceleração
- Revista Só Letrando

- 23 de fev.
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Por Renata Flores Serra Lima

Instituí um pequeno rito de delicadeza para mim, no ano que findou: a espera mensal de uma carta. Quando ela chega, não a abro imediatamente. O envelope permanece fechado sobre a mesa por dias — às vezes cinco, às vezes duas semanas. Eu o vejo ali, intacto, e não toco. Espero. Espero um momento na minha vida frenética em que eu possa estar inteira para ler. A carta exige presença antes mesmo de ser aberta.
Foi pela prática da espera que Gabriela Barenco passou a habitar minha rotina. Ao participar de seu projeto Cartas de uma pintora, divido com ela, um modo de estar no tempo — lento, atento, deliberadamente presente. Gabi é pintora formada pela Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro, e sua pesquisa atravessa, desde o início, uma atenção rigorosa ao tempo e à presença: interessa-lhe menos o acontecimento extraordinário do que as pequenas coreografias do cotidiano, aquelas que só se revelam quando o olhar desacelera.
Cartas de uma pintora opera com gestos mínimos — e é aí que reside sua força. Gabriela envia mensalmente uma carta, para as pessoas inscritas no projeto, acompanhada de uma impressão fine art, realizada em pigmento mineral, em papel algodão, de suas pinturas: retratos de mulheres artistas que a acompanham em seu processo criativo: — pintoras, escritoras, musicistas. Cada envio compartilha um fragmento da história dessas mulheres, mas também do momento de vida da própria artista. Não se trata apenas de correspondência, nem somente de obra... reflito se não seriam as cartas de Gabriela, antes, um espaço de encontro entre pintura, memória feminina e escrita íntima?
Houve uma carta, entre algumas, que permaneceu em mim; foi a dedicada à pintora britânica Celia Paul, que Gabriela conheceu por meio de seus diários. Ali, ela escreve que Celia dizia “só conseguir pintar as pessoas que amava”. Gabriela, então, desloca essa afirmação para o seu próprio presente: conta que naquele mês havia pintado muitas imagens de sua mãe — talvez por isso tivesse escolhido Celia para aquele envio. Passara semanas na casa materna, observando gestos cotidianos: o modo de sua mãe fazer café pela manhã, de arrumar — ou não — a cama, de trabalhar sem nunca parecer que está trabalhando. A carta de setembro de 2025 apresenta uma artista, Celia Paul, e cria um espelhamento delicado entre vidas e processos de criação. Gabriela, na carta de setembro, diz: “minha casa é repleta de desenhos dos meus amigos, da minha família, dos meus amores que passaram. Tento incessantemente guardar resquícios da presença de cada um”.
É nesse movimento discreto que o projeto revela sua espessura. A carta não funciona como explicação da pintura, nem a pintura como ilustração do texto. Elas se atravessam. A correspondência se torna espaço de partilha de um tempo vivido, de uma atenção dirigida ao outro, seja a artista homenageada, seja a mãe observada, seja quem recebe a carta do outro lado do envelope. Há ali uma ética da desaceleração consciente, uma escolha por narrar o mundo a partir do detalhe, do afeto e da espera.
Em entrevista, Gabriela formula com precisão o que o projeto já ensaia em prática: “Eu quero ver o outro, mas não diante de mim. Quero vê-lo através da carta.” Ver o outro pela carta é aceitar que a relação se constrói pela mediação, não pela transparência imediata. “Quero imaginá-lo, moldado pela escrita que me oferece”, afirma ela. A carta permite esse desvio: o outro não se apresenta inteiro, mas como presença projetada, ou seja, com o cenário que escolheu montar, com o detalhe que decidiu revelar, com marcas que talvez nem soubesse estar deixando na superfície do papel. Ao ouvir Gabriela, lembrei-me de uma frase da jornalista norte-americana Elizabeth Forsythe Hailey: “sempre tive um enorme respeito pela palavra escrita e invariavelmente acho uma carta mais reveladora do que uma conversa cara a cara”. Ambas parecem reconhecer na escrita epistolar um território privilegiado de elaboração da experiência.
Foi por essa promessa de desaceleração que me deixei conduzir a Cartas de uma pintora. O gesto de escrever e o gesto de receber se encontram nesse ponto suspenso, em que os sentidos são convocados: o tato do papel, a textura da impressão e, o cuidado com o objeto. Como revela a própria artista, enviar uma carta é “parar um pouco o tempo”. Penso sobre o tempo de quem escreve, ao compartilhar vivências, e penso sobre o tempo de quem recebe, quando “chega um carinho na porta da casa”.
Longe de ser um suporte arcaico, a carta se revela aqui como uma tecnologia consciente de reorganização do tempo. Em diálogo com Byung-Chul Han, em “A crise da narração” (2023), pode-se dizer que a carta opera como resistência à lógica da aceleração e do cansaço; ela reinstaura a espera como valor. Entre o envio e a resposta, instala-se um intervalo fértil, um tempo de elaboração no qual pensamentos se deslocam e a percepção se refina. Diferentemente da comunicação instantânea, a epistolografia faz da espera parte constitutiva do vínculo.
Para Gabriela, a carta não diminui a distância; ela a potencializa. “A distância se teatraliza”, afirma a artista. Dois sujeitos que não se tocam passam a conviver em um espaço relacional, secreto, sustentado pelo pacto da escrita. Nesse sentido, a carta funciona como uma mise-en-scène íntima, como lembra Geneviève Haroche-Bouzinac (Escritas epistolares, 2016): um teatro silencioso em que o remetente se mostra e, ao mesmo tempo, se inventa.
Essa teatralidade se intensifica na materialidade. Se a distância é encenada, é a caligrafia que a performa. Cada curva de letra, cada borrão, cada mancha de café funciona como vestígio do corpo presente no ato de escrever. Em oposição ao “texto limpo” do digital, a carta preserva marcas involuntárias: humor, cansaço, desejo. Mas quando foi a última vez que nos detivemos na letra de alguém, no ritmo da escrita, na pressão da caneta sobre o papel, na escolha do instrumento, na sujeira ou na beleza do suporte entregue? Quem recebe uma carta constrói um personagem a partir do remetente, constrói um cenário para ele - a mesa, a luz, o ritmo da respiração, e a leitura torna-se, assim, uma experiência sensorial e afetiva -, ou deveria se tornar.
Talvez seja isso o que as mensagens instantâneas já não conseguem sustentar, nessa década do século XXI: a capacidade de instaurar a espera — e de deixar vestígios concretos. Escrever cartas hoje é um gesto de resistência de desaceleração. Não contra a tecnologia, mas contra a pressa. Um lembrete de que a palavra precisa de duração para amadurecer e de silêncio para criar sentido. E, mês após mês, ao esperar a carta de Gabriela, percebo que esse tempo lento não é nostalgia, ao contrário, é escolha.
Leio esse projeto, Cartas de uma pintora, como a construção de um pequeno arquivo de memórias de mulheres artistas; a carta torna-se obra, performance e questionamento: posso pausar, preparar um café, colocar uma música, olhar com tempo? Continuo me permitindo esse presente em 2026, o de repetir o rito, sustentar a espera e escolher, mês após mês, um tempo que não se apressa.
Equipe e produção editorial
Professoras orientadoras Profa. Dra. Valéria Bússola Martins e Profa. Dra. Elaine Prado
Editora Isabelle Callegari Lopes
Revisão Camila Ribeiro Sales e Ana Luiza de Oliveira Machado



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