2026.1 | Sienna e Maria
- Revista Só Letrando

- 23 de fev.
- 5 min de leitura
Por AR. Iwanaga

Sento-me na cadeira e seguro a caneta com firmeza entre os dedos. Meus olhos tremem, e um arrepio percorre todo o meu corpo. Mais uma carta está sendo escrita — uma carta que nunca será envelopada, selada, muito menos enviada.
Percebo que só escrevo para você. Engraçado… eu jamais me imaginaria nessa situação depois do fim. Meus pais perceberam minha mudança: saio mais, volto tarde, e meu rosto carrega um semblante neutro. Mas basta olhar nos meus olhos para ver a confusão que tomou conta da minha mente nos últimos três anos.
Ouço três batidas na porta.
— Já vou — respondo. Era minha mãe.
— Venha jantar, minha filha — disse ela, com uma voz suave e levemente preocupada. — Seu pai está me perguntando onde você estava.
— Estava com meus amigos na universidade. Depois fomos a uma cafeteria, relaxar — respondi, ainda com os olhos vidrados no papel, tentando cobrir com os braços minha caligrafia redonda e grande, como se o que eu escrevia fosse um segredo. — Marília e Alberto, os de sempre.
— Não demore a voltar amanhã. — Ela fechou a porta, e pude ouvir uma bufada cansada e frustrada.
Isso seria uma dor de cabeça para outro momento. Eu precisava escrever para você. De todos os amores e paixões que tive, você foi o único que me cativou e me deixou completamente bagunçada. Como você fez isso? Ou melhor - como ainda faz?
No último fim de semana, pude sentir o seu cheiro depois de tanto tempo. Sua barba malfeita, os cabelos endurecidos de gel, o perfume de verão misturado ao desodorante barato… tudo atravessou minhas narinas como antes, me trazendo uma dor de cabeça familiar e, ainda assim, nostálgica.
Você me olhava esperançoso, como quem busca um final feliz - e, por ora, eu não posso te dar isso. Entenda: o que vivemos não foi em vão. Foi você. É você. E, talvez, sempre será.
As dúvidas martelam minha mente: quando nos veremos novamente? Quando poderei sentir o calor do seu abraço, o hálito quente em minha nuca?
Será que precisamos reviver o passado, ou começar um novo futuro? Você me disse que esperaria por nós, e eu… ainda espero também.
Fiz planos com Joseph e Alberto para as férias do ano que vem, mas penso em cancelar.
Por você.
Só que não posso cancelar aquilo que nunca existiu.
Aquilo que demora a acontecer.
Aquilo que, um dia, perdeu o sentido - e a emoção.
Honestamente, não me sinto eu mesma há muito tempo.
Não consigo me imaginar fora do escritório; adoro a adrenalina de me arrumar todos os dias para te ver, para ter a tua presença por perto. Você também sente isso? Sente que estamos mais próximos do que nunca?
A câimbra percorre minha mão direita, o coração bate mais fraco que o normal e meus olhos ardem, implorando por algum resquício de hidratação.
Olho o relógio em cima dos meus livros, apoiados na escrivaninha: dez e meia da noite.
Eu deveria estar descansando - não escrevendo cartas para você. Escuto meus pais me chamando e decido jantar, finalmente.
Infelizmente, quando estou em momentos que não pertencem à minha realidade, coloco os fones de ouvido e me fecho por completo. Abro o Prime Video e escolho um dos meus filmes favoritos do momento: Questão de Tempo.
Rachel McAdams está deslumbrante no filme - seus olhos radiantes, os cabelos ruivos como fogo, o sorriso leve e as risadas bobas que me cativam. Termino o jantar, escovo os dentes e me deito.
Mas meus pensamentos não me deixam dormir.
Fecho os olhos e vejo você.
Penso em outra música, mas só a nossa toca na minha cabeça. Abraço meu corpo, aquecido pelo moletom azul-índigo que era seu, e esfrego os pés nas meias que também foram suas.
Levanto subitamente da cama e encaro o guarda-roupa.
Começo a revirar o móvel em busca dos seus pertences.
Encontro camisetas que já não te serviam, moletons antigos da adolescência - e uma caixa.
Ah… a caixa.
Uma caixa de madeira simples, com o seu nome escrito em vermelho - sua cor favorita - na tampa.
Abro.
Dentro, estão nossas fotos, ingressos de cinema e de museus que visitamos pela Europa, passagens da nossa última viagem juntos… e um chaveiro de coelho da Páscoa.
Um coelho velho - tão velho que já nem tem enchimento. Lembro-me de quando o vi pela primeira vez: achei tão fofo, e você disse, — Tenho ele desde pequeno… quer ficar com ele? Eu costumava dormir abraçado com ele.
Meu coração acelerou. A visão ficou turva. Um arrepio subiu pela nuca. As memórias vieram em enxurrada - cada momento simplório, cada gesto íntimo.
Escuto o barulho dos carros lá fora.
A chuva cai forte.
Quando começou a chover?
E… por que minhas roupas estão molhadas?
De repente, me vejo em frente à sua casa, segurando a mesma caixa. Meus cabelos encharcados, lágrimas descendo pelo rosto, embaralhando minha visão.
Você segura minha mão, pede que eu não desista de nós.
As pessoas nos olham, curiosas, tentando entender o que deu errado. Você chama meu nome - não em desespero, mas com a mesma voz calma de quando me acordava.
Minha mente para.
Não estou mais na rua.
Agora estou deitada, de pijama branco, em uma cama de hospital. Você segura minhas mãos, repete “Eu te amo” enquanto faz carinho no meu cabelo.
Sua voz treme, implorando que eu acorde.
Abro os olhos lentamente e aperto sua mão.
Você se levanta, corre para chamar a enfermeira, grita com o pulmão em chamas:
— Ela acordou! Alguém chama o médico! Enfermeira, chame o médico! Ela está de volta!
De volta?
De volta de onde?
Um instante atrás eu estava na escrivaninha… e agora estou em um hospital?
Olho ao redor: balões, fotos nossas e da minha família, sua antiga mala de treino, e uma caixa pequena, aberta, brilhando.
— Antônio? O que está acontecendo? — pergunto com a voz fraca.
— Shhh… fique tranquila. Vai ficar tudo bem, meu amor. — Você segura minha mão, beija-a incansavelmente. — Você está segura.
— Segura do quê? O que aconteceu?
— Você não se lembra? Brigamos em frente ao meu apartamento há três anos. Ao atravessar a rua… um carro quase te levou embora. Mas você está aqui! Viva! — sua voz mistura alívio e perplexidade.
— O quê…?
Antes que eu consiga terminar a frase, tudo escurece.
Acordo em outro lugar.
Dessa vez, ao seu lado.
Estou suando, o corpo febril.
Você dorme tranquilamente, o peito subindo e descendo. Ouço risadas vindas de outro cômodo.
Fotos de crianças sobre o criado-mudo: duas meninas, seus olhos, o meu nariz. Tivemos filhas? Quando?
Estou perdida.
Tudo o que reconheço é você.
— Amor? Volta pra cama, por favor. — Sua voz soa cansada. — Está conseguindo lembrar de alguma coisa?
Lembrar do quê, exatamente?
— Sim — minto, sem convicção.
— Ok. — Você se levanta, se espreguiça e me abraça por trás. — Tá vendo aquelas duas meninas? São nossas filhas, Sienna e Maria. Fizeram seis anos semana passada. São a sua cara.
— Certo… e quem é aquela? — aponto para uma mulher de cabelos brancos em uma moldura. — Ela é linda.
— Sua mãe.
Esqueci da minha própria mãe?
— Você tem se esquecido das coisas… começou há dois anos. Mas tudo bem. — Seus braços me apertam com força, sua cabeça encosta no meu ombro, trazendo aquele calor familiar à minha nuca. — Eu sempre estarei aqui. É você, Maria. Sempre foi.
Equipe e produção editorial
Professoras orientadoras Profa. Dra. Valéria Bússola Martins e Profa. Dra. Elaine Prado
Editora Isabelle Callegari Lopes
Revisão Pietra Tonti Topfstedt e Ana Luiza de Oliveira Machado



Comentários