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2026.1 | Artigo de opinião: O fim da saudade

  • Foto do escritor: Revista Só Letrando
    Revista Só Letrando
  • 23 de fev.
  • 2 min de leitura

Por Carla Patrícia Felix da Silva

“Choras, sem compreenderes que a saudade

É um bem maior do que a felicidade,

Porque é a felicidade que ficou!”

Manuel Bandeira 

(“À Maneira de Olegário Mariano”- do Livro Mafuá do Malungo)



Há alguns dias tive a oportunidade de estar em uma roda de conversa, na qual eu ouvi algo como “o fim da saudade” da boca de um senhor idoso. Essa frase me intrigou muito e fez-me pensar no quanto de significado e sentido que ela carrega, principalmente em nossos dias.

Bom, o assunto de que tratávamos na ocasião era a intensidade e rapidez, em nosso tempo, das informações e das relações humanas, — como chegam e logo se dissipam estas e aquelas. Hoje, se sentimos falta de uma pessoa, simplesmente pegamos nosso aparelho celular e, em questão de segundos, sabemos como aquela pessoa se sente, onde está, o que faz. 

Será que realmente sabemos?

Penso que não. A frieza das telas tem roubado muitos abraços calorosos. A gama intensa de informações tem têm inibido muitas conversas profundas e os silêncios necessários. O olhar para as telas tem defraudado o “olho no olho” de momentos importantes. Temos sempre a sensação de estarmos perdendo algo, como se, inevitavelmente, nos fosse imposto saber. Quando, na realidade, estamos nos perdendo uns aos outros. 

Voltemos à questão da saudade. Sentir saudades nos conecta ao passado, às pessoas, às experiências e às memórias. No entanto, hoje, parece-nos um direito roubado. Somos informados a todo instante sobre o outro, de uma maneira tão avassaladora que os encontros, por vezes, perdem-se de seus reais significados, dando lugar às telas e às notícias de desconhecidos. Os conhecidos já parecem não nos interessar mais. “O rosto exige distância. Ele é um Tu, e não um Isso disponível. Podemos, assim, tocar a imagem de uma pessoa com o dedo ou até mesmo apagá-la, porque ela já perdeu seu olhar, seu rosto” (Han, 2024, p.96). Como pode? 

O filósofo coreano Byung-Chul Han, em um de seus livros, A crise da narração, afirma algo interessante. Segundo ele: “Se tudo o que foi vivenciado estiver presente sem distância, ou seja, estiver disponível, a recordação desaparece” (Han, 2024, p. 56). Ou seja, precisamos de distância, desse espaço que parece ser tão amedrontador em nossos dias, para que as histórias brotem e tornem-se memórias que façam fluir a saudade.

Precisamos voltar a sentir saudades, escutar com atenção, criar e compartilhar memórias com real sentido, com presença e não apenas cliques e likes. É urgente a necessidade de retomada da autenticidade das identidades, do contato com as pessoas reais, com a vida real, com o sentido real, com o outro, que está para além de nós mesmos. Essa “proteção” da vida real que a tela nos impõe é a exclusão do olhar do outro e do outro por completo. Entre o eu e a tela, o outro desaparece. 




Referência:

HAN, Byung-Chul. A crise da narração. Tradução Daniel Guilhermino. Vozes: Rio de Janeiro, 2024.


Equipe e produção editorial

Professoras orientadoras Profa. Dra. Valéria Bússola Martins e Profa. Dra. Elaine Prado

Editora Isabelle Callegari Lopes

Revisão Ana Paula Silva dos Santos e Camila Ribeiro Sales



 
 
 

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