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O mirante

  • Foto do escritor: Revista Só Letrando
    Revista Só Letrando
  • 14 de ago. de 2024
  • 6 min de leitura

Por Alex Sandro de Lima Silva



Ele já estava lá há trinta minutos. Parado. Olhando o horizonte. Desconectado de todos e de tudo.

        

“Até que horas ele ficará ali?” perguntou-se Júlia, que se encontrava em uma mesinha redonda, de cinco cadeiras, logo abaixo do mirante. Desde o momento que chegou, para tomar seu café matinal e ler um de seus livros, ela notou o rapaz, parado, atrapalhando os outros, ocupando o lugar de outro turista.

      

Julia trabalhava por ali, em uma agência bancária situada a duas quadras daquele restaurante. Todas as manhãs, durante os cinco dias da semana, ela fazia aquele mesmo itinerário. Amava estar ali. Ver o sol se levantar naquela grande cidade, notar os rostos alegres dos turistas, e dos trabalhadores que também gostavam de passar suas horas de café ou de almoço por ali, amava os cheiros diversos que se misturavam com a cacofonia das vozes e das buzinas dos carros que vinham da rua, aquele festival de sensações.


     Nunca andava acompanhada. Gostava da solidão, de ficar horas pensando sobre tudo, refletindo sobre a vida enquanto tomava um cappuccino ou comia algum prato à moda da casa. Às vezes, ela também se direcionava para o mirante - aquele onde estava o estranho, - e com os olhos fechados, gostava de sentir o vento bater em sua pele e acariciar seus cabelos encaracolados, volumosos como as ondas, e sentir a vida da cidade que ela tanto amava. A cidade de Andrade, da revolução constitucionalista, da semana de 22, a cidade dela.


        Mas agora, como uma nuvem negra em um dia de sol, aquele rapaz se encontrava ali, ocupando o mirante, feito uma estátua, roubando a sua atenção. “Por que eu me incomodo?”, pensou, enquanto continuava a observar o sujeito. De repente ele desceu. Passou por ela, mas não a notou, indo direto para rua. Desapareceu.


       Julia viu a sua expressão, parecia triste, meio perdido. Ou seria apenas coisas da sua cabeça? Notou também que era um homem muito bonito, com cabelos negros e bagunçados. Seria apenas mais um rosto entre muitos outros que se perderia na névoa da memória? Júlia pensava que sim, então pegou suas coisas, pediu a conta e logo se despediu daquele ambiente, sabendo que retornaria ali mais tarde.


       A avenida era um organismo vivo. O trânsito congestionado, as lojas cheias de clientes que vinham de outros lugares, os vendedores ambulantes gritando as suas mercadorias ou abordando os seus possíveis clientes, os transeuntes apressados, indo para os seus trabalhos, os moradores de ruas, jogados nas calçadas. Tudo estava muito vivo. Muito intenso.


Quando chegou na agência, que estava igualmente cheia, se direcionou diretamente para a sua mesa, onde passaria o restante do dia, atendendo clientes dos mais diversos tipos. As horas foram passando. Pessoas entravam e saíam. Aquela linda manhã agora se tornava uma tarde monótona, abafada e preguiçosa. A moça já começava a sentir o desejo de se levantar daquela mesa, de tomar um pouco de ar, de respirar e recuperar as forças, quando então percebeu, na mesa ao lado, aquele rosto.


      O estranho parecia perdido, enquanto ouvia a atendente do banco lhe explicar alguma coisa. “Que coincidência” pensou Julia. Sabendo que era raro encontrar a mesma pessoa duas vezes em um mesmo dia. Ela encarava-o. Agora a curiosidade parecia obrigá-la a observá-lo demoradamente. Ele se virou. Os olhos se encontraram. O estranho, que até então parecia perdido, tinha uma expressão de surpresa, porém, não desviou dos olhos de Julia, mas, pelo contrário, sustentou-os tempo suficiente para causar estranheza na garota, que agora tentava se ajeitar em sua cadeira e fixar sua atenção no computador. Sentindo, todavia, os olhos do rapaz agora sobre si. Não teve mais coragem de encará-lo. Na verdade, só voltou a notá-lo quando este já se encaminhava para a porta de saída, desaparecendo naquela avenida tumultuosa.


        Chegou a hora do almoço. O mirante estava lotado. Tinha-se de tudo: casais tentando uma foto perfeita, grupos de amigos esperando encontrar algum espaço, mães com crianças de colo, homens de terno, entretidos em alguma conversa no celular. Julia sentou-se afastada, na área interna. Deixou-se relaxar por uns instantes, fechando os olhos, querendo saborear o momento. Minutos depois, lá estava ela, sentindo novamente o vento sobre seus cabelos, contemplando aquelas estruturas arquitetônicas modernistas que infestavam a cidade, edifícios construídos para tocar o céu.


“Moça? Me permite fazer um desenho seu?” perguntou uma voz grave. Virando-se imediatamente, viu aqueles cabelos bagunçados novamente. O coração acelerou. Estava surpresa? Que coincidência estranha!


    “Depende…vou ter que pagar por ele?”


O rapaz, segurando um caderno, logo se colocou em atividade, sabendo que tinha pouco tempo, passou a rabiscar sofregamente. Julia notava sua concentração, que ora olhava para ela, ora olhava para a página. Ficou assim por uns cinco minutos. Então, com um novo sorriso, olhou novamente para Julia, parecendo satisfeito com a obra que acabava de criar.


“Esse com certeza é o meu melhor retrato!” O homem então virou o caderno, mostrando a ela a arte. Era a sua própria imagem, perfeita em grafite, rabiscada rapidamente. “Muito obrigado, moça!”. Disse e então deu as costas e seguiu o seu destino.


A noite chegou. A avenida continuava tumultuosa. As luzes dos prédios e dos postes ofuscavam o brilho das estrelas. O calor agora tinha dado lugar ao vento suave. Julia se encontrava no metrô. Não sabia o que esperar do futuro, mas um sentimento, pequeno e inócuo, parecia desabrochar dentro de si. Uma estranha sensação de que algo lhe faltava.


Chegou em seu apartamento. Um silêncio tomava conta de todos os cômodos. Ligou a TV. Deixou o som romper pela sala, enquanto se encaminhava para o sofá. Faltava algo, mas o que seria? Foi até a sacada, as luzes dos outros apartamentos e os sons distantes de conversas, buzinas, pratos, músicas vinham misturados até seus ouvidos, sons distantes de vidas sendo vividas. O peito parecia apertar. Nunca tinha sentido algo assim… O que seria essa sensação tão estranha? Aquela não era a sua rotina? Não era isso que ela mais gostava de fazer? Não costumava se sentar naquela mesma poltrona e deixar as horas passarem, enquanto bebericava um vinho, ouvia uma boa música e lia algum de seus livros? Lembrou-se do homem. 


Ele era um estranho. Poucos minutos de conversa não o tornaria alguém importante. “Sim! Ele era um estranho qualquer!” concluiu, voltando-se para dentro de seu apartamento e indo se deitar para um novo dia, esperando que aquela estranha sensação passasse.


Mas não passou. Então, levantou-se da cama decidida a aproveitar cada minuto. Desde a água morna do chuveiro até o pão esquentado no micro-ondas, tentaria saborear cada detalhe. Não quis ir ao Mirante. Decidiu ir direto para o trabalho. O dia parecia como qualquer outro. Não se lembrou mais do estranho. Trabalhou. Permaneceu assim focada até a hora do almoço. Decidiu comer em um restaurante mais próximo. Tentou aproveitar o silêncio do ambiente novo. Ao voltar para a agência, concentrou-se em suas atividades. E então a noite chegou. E um novo dia. E uma nova semana. Tudo parecia voltar ao normal, aquela estranha sensação de vazio tinha enfim desaparecido.


O tempo passou. Suas férias chegaram. E o estranho tornou-se névoa em suas memórias. Decidiu então aproveitar o período de gozo indo novamente ao Mirante, o melhor lugar do mundo. Quando chegou, respirou profundamente o ar, deixando os pulmões se encherem com aquele oxigênio novo, prestes a aproveitar aquela manhã... Então o viu.

    

Não poderia ser… Sentando em uma das mesas, o sujeito pintava um retrato de um casal que posicionava-se bem a sua frente, fazendo uma pose apaixonada. De repente aquela sensação parecia voltar, aquele sentimento de solidão...Aquele maldito sentimento… Julia não sabia o que deveria fazer, seria melhor voltar para casa?

     

Por que a solidão que ela tanto amava, agora, naquele exato momento, parecia ser a coisa mais cruel de sua vida? Sentiu-se a mulher mais triste do mundo, mas não conseguia entender o porquê. Aproximou-se do rapaz e deixou-se ser cativada por ele. Estranhamente, o carisma daquele indivíduo parecia completar aquela parte que tanto a incomodava. Quando o dia então findou e a alegria da companhia logo foi tomada novamente pela sensação de solidão, ele partiu, mas prometeu que estaria ali no dia seguinte. Ela então chegou mais cedo, esperou-o. Quando o viu, foi como se estivesse experimentando uma coisa nova, algo que ainda não sabia descrever, mas que era muito agradável.


Durante todas as suas férias, e depois delas, sempre na hora do seu café ou almoço, esperava-o chegar, para conversar, para vê-lo fazendo os seus retratos dos clientes, para sentir a sua presença, sorver aquele momento, e compartilhar os seus problemas.


Assim, numa terça-feira, quando ela se encontrava em uma daquelas mesas redondas, com seu livro e seu café, sentiu que algo estava diferente. Ele ainda não tinha chegado. “Será que se atrasaria?”. Esperou. Clientes foram deixando o estabelecimento e outros foram chegando. Mas ele não aparecia. “O que tinha acontecido?”. Esperou mais um pouco. A manhã então tornou-se tarde. Para não ser expulsa daquele local, pediu um almoço, na esperança de que ele viria logo. Sua mente girava, sua alegria se transformou em preocupação. Algo tinha acontecido. Fazia algumas semanas que eles não se falavam. Por que pensar então que aquele dia seria diferente? “Como sou idiota!” “Será que ele tinha sofrido um acidente?” Já sem expectativas, desanimada e irritada, levanta-se, e se direciona ao mirante, numa vã esperança de contemplar a avenida e enxergá-lo.


De repente, gritou, assustada. Percebendo uma coisa que há muito não havia notado: ela não sabia o seu nome. Durante todo aquele tempo juntos, jamais perguntou o seu nome. Compreendeu então que ele não voltaria. Que aquele homem seria apenas mais um rosto entre todos os outros rostos, pessoas que cumprimentamos hoje e que amanhã desaparecem de nossas memórias. Então chorou, sentindo o vazio que outrora não conhecia.


 
 
 

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