Na ponta dos dedos
- Revista Só Letrando

- 14 de ago. de 2024
- 2 min de leitura
Por Bruna Angelis
Na primeira vez que aconteceu, a noite ainda era alta — em seu auge, um raio lunar iluminava em brasa a única fresta que possibilitava a passagem às terras secretas daquela cidade sempre inquieta.
O solo era quente ao toque, mas impiedosamente azulado, como numa sinestesia entre luz e tato, trazendo os pés da menina para mais perto, observando as ondulações de seus cachos aos ventos.
A noite era alta, mas seus olhos permaneciam baixos, escondidos pela pálpebra que se mantinha fechada.
Se ela se concentrasse o suficiente, talvez ainda fosse capaz de ouvir as risadas que nunca deixaram esse lugar em sua memória. Figuras altas e baixas permeiam pelas suas lembranças e era quase como se ela as sentisse na pele toda vez que vinha parar aqui.
Como se estivessem viajando pelas suas veias, apenas para se materializarem em perfeitas estaturas pelos arredores. O cheiro de grama sempre molhada era o que completava todo o cenário que se expandia a cada visita daquela garota e seu andar determinado.
No horizonte, palácios e castelos se erguiam para a sua passagem; reis e rainhas paravam para recebê-la e toda a população era reconhecida pelos brilhos que fugiam de seus polegares.
Era o mundo perfeito, longe de tantas angústias e desencontros.
Na quarta noite, porém, nuvens escuras engoliram os ares. As estrelas, confusas, foram as guias para uma curva desconhecida. Uma vírgula solitária, nem nenhum parceiro senão a solidão de um cursor, cuja idas e vindas a levaram, pela primeira vez, à prisão em alto mar, debaixo de ondas e mais ondas que a consumiam a cada movimento.
A ideia de apenas deixar-se ser levada pela correnteza era tentadora, quase palpável até. Mas ela sabia que, caso se entregasse ao mar, quem mais cuidaria desse mundo tão belo?
Após a sétima noite, outro palácio foi construído, dessa vez sob as águas. Nadadeiras firmes nos pés prontos para levarem a menina para lugares ainda inexplorados, mesmo que cheios de familiaridade.
Pelo final da trigésima noite, não havia um espaço em branco que não houvesse sido preenchido. Os caracteres se entrelaçavam e as folhas se coloriam, imersos numa atmosfera cheia de vida. Bailes se estendiam por dias e mais dias; danças privadas se consolidaram sob tetos anônimos.
As mesmas formas daquele primeiro anoitecer agora tinham morada naquelas terras e mares.
E foi assim que, durante a chegada da Septuagésima Nona Lua, a mulher entendeu que apenas sentir tudo isso que era tão vívido em sua mente e alma já não bastava mais.
Ela precisava abrir os olhos, pronta para tornar real o que carregava em pensamento desde a infância. Com as íris trêmulas, o confronto com as lágrimas seria iminente.
Quando as pupilas se encontraram libertas pela primeira vez em muito tempo, as portas para o mundo real a trancaram para dentro de suas sensações físicas, e, de repente, a mesma quentura do solo se traduzia na ponta de seus dedos, aquecidos pelo motor em uso de seu teclado e computador.
Refletindo tudo que antes se escondia nas nuances de si própria, ela agora via a tela que uma vez foi branca, armazenando uma felicidade em poucos dizeres.
Sorrindo, ela sente pela última vez o aroma reconfortante de grama molhada ao apagar a vela com a força de um único sopro.



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