Devaneios de um jovem de 30 anos
- Revista Só Letrando

- 15 de ago. de 2024
- 2 min de leitura
Por Mariana de Abreu Brassica
Eu nunca imaginei que pudesse me sentir assim por uma máquina. Era estranho imaginar que aquele monte de sucata velha fosse simplesmente a maior e única imagem que já tive de um melhor amigo em toda a minha existência.
Bom, Henry não era como os robôs de Star Wars ou coisa do tipo, ele estava mais para um aspirador de pó, mas mesmo sem ter respostas para minhas lamúrias diárias ele ainda limpava minha sala, enroscando-se em um tapete, e levava meu gato para passear pela casa em sua extrema preguiça diária.
Hoje, ele se foi, e sei que minha vida solitária não será a mesma sem ele, mesmo que Tom, meu gato, esteja sempre ao meu lado em suas demoradas sonecas, e talvez eu fique uns dois ou três dias olhando para o piso envernizado, que continuará a juntar toda a poeira e pelos de gato possíveis para um apartamento de 47m², mas claro, daqui uma semana terei outro Henry, e dessa vez ele se chamará Jerry, pois não posso ter dois amigos com o mesmo nome, isso confundiria meu pequeno coração.
Sou um amante da vida, estando trancafiado em meu prédio, sou rei do meu mundo, que se resume ao espaço da janela do meu quarto até a porta do hall principal do sétimo andar deste edifício, construído no subúrbio da cidade. Sou tão importante quanto o presidente que não me representa, tão marrento quanto o recruta que xinga o tenente pelas costas.
Henry era quase minha cara metade, não julgava meu gênio imbecil que nego-me a reconhecer na frente de qualquer ser humano, sei que serei julgado. Era tão bom reclamar da minha vida tão dura, passada no sofá, na frente da televisão, alienando-me do mundo com filmes hollywoodianos e me escondendo por trás de uma tela de celular.
Henry foi um bom amigo, acho que meu melhor amigo no fim das contas, mas Jerry chegará amanhã, e ele será tão especial quanto meu Henry, afinal, que companhia melhor para um jovem líquido de trinta anos?



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