Alucinações de uma sereia
- Revista Só Letrando

- 8 de ago. de 2023
- 2 min de leitura
Por Bruna Angelis
Distante, os olhos dela dançavam em sua mente.
Na íris, o carmim pulsava forte, refletindo em seu brilho todo o bombardeio que daquele peito tanto tentou arrancar.
O vermelho dos olhos da sereia já não mais enfeitiça; as alucinações escorrem por entre seus dedos até se misturarem à areia da praia - agora tão mais bonita ao ser vista vazia.
A maresia, depois de tantas tentativas persistentes, finalmente arriscava preencher os espaços vazios de seus pulmões, permitindo a eles a vida recuperada por cada forte respiro daqueles ares.
Foi difícil, mas hoje todas as peças do navio que ansiava partir em alto mar estavam prontas - montadas pelas lembranças antigas da época em que o fundo das águas era a única coisa que embalava o corpo, em apertos tão firmes que tornava o ar cada vez mais escasso.
Devota, a âncora ligada ao coração há muito tempo havia sido entregue à dona das barbatanas que com um simples gesto trazia a tempestade à terra firme.
Mas a chuva era apenas um acaso. Os raios e trovoadas, uma eventualidade.
Diante de todos os sinais, os olhos capturavam apenas o vermelho vivo que encantava e arrastava os pés para sempre mais fundo - pois o brilho era sempre tão bonito, que toda a queimação que se estendia pelas veias chegava a ser insignificante.
De que adiantaria vê-la, afinal, se tudo que lhe importava estava contido bem ali em sua salvação escarlate? Senti-la, quando o mais cômodo se abrigava ali, no colo escamoso daquela sereia?
Sem a menos saber voar, foram os novos ventos que trouxeram a âncora de volta à superfície, mais uma vez. Dentro do peito, era como se sentisse a dor de ter sido abruptamente arrancada de onde pensava pertencer.
Mas foi ali, acima das águas, que se descobriu pirata.
Longe da tirania de um coração que não era seu, percebeu que tudo que queria era nadar para além do mar, descobrir novas terras, sentir no toque tudo que à vista é novo.
Incendiar, pular de braços abertos, navegar - livre.
Pela primeira vez, as estrelas eram as guias sobre o céu que testemunhava com intenso brilho a curvatura que se delineava nos lábios quando a vista do mastro indicava na vela a última memória trazida dos ventos.
Os olhos vermelhos agora se fechavam, apagados.
Vencidos.
— Essa história foi pensada e desenvolvida a partir das músicas do álbum “Pirata”, de João Vitor Romania, o Jão. Em especial, a partir da música “Olhos Vermelhos”.



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