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2026.1 | Coração mecânico

  • Foto do escritor: Revista Só Letrando
    Revista Só Letrando
  • 22 de fev.
  • 5 min de leitura

Por Gabriela Uemura Matsumoto

1. INT. ESTUFA AUTOMATIZADA – DIA 

O cenário é uma estufa silenciosa e organizada. Nesta estufa,  plantas crescem em fileiras simétricas, banhadas por luz  artificial. Máquinas e braços robóticos cuidam das regas e da  poda. O ambiente é estéril, funcional, e sem vida além das  plantas. 


Um robô de aparência esguia e funcional, ZED, desliza pelo  ambiente, suspenso no ar. Ele inspeciona as plantas com  precisão, analisando e catalogando cada uma. Sua voz é calma,  artificial, mas com um toque de curiosidade escondido. 


ZED 

Flor da variedade 33-B. Estado  

saudável. Pronta para transplante. 

De repente, ZED trava ao encontrar uma pequena flor  desconhecida, crescendo entre duas plantas catalogadas. Ele  para. 


ZED 

Flor não registrada. Anomalia  

detectada. 

Ele escaneia a flor, inclinando a cabeça. 


2. INT. LABORATÓRIO – MAIS TARDE/DIA 

Em um laboratório minimalista cheio de computadores, Grace,  uma jovem programadora, recebe a transmissão de ZED no  monitor. Ela é prática e cética, alguém que perdeu a conexão  com coisas simples como a natureza. Com um suspiro, ela  responde à chamada do robô. 


GRACE 

ZED, como isso aconteceu? 


ZED 

Ela estava lá. 

Grace franze a testa e vê a imagem da pequena flor no  monitor. Ela parece simples, mas tem um charme peculiar. 


GRACE 

Provavelmente um erro no banco de  

dados. Vou investigar depois  

continue suas tarefas. 


ZED 

Ela é... Diferente. 

Grace levanta uma sobrancelha, surpresa por ouvir o tom  curioso do robô. 


DIAS DEPOIS

 

3. INT. ESTUFA - NOITE 

ZED retorna à flor, incapaz de esquecê-la. Ele a observa com  algo que parece mais do que análise – quase como admiração,  tentando entendê-la. Ele começa a falar sozinho, como se  estivesse conversando com a flor. 


ZED 

A cor das pétalas... muda  

ligeiramente ao longo do dia.  

Fascinante. Você é especial, não é?  

Não se encaixa aqui... assim como  

eu. 

ZED inclina-se levemente, como se quisesse proteger a flor  das outras máquinas que cuidam da estufa. 


4. INT. LABORATÓRIO-NOITE 

Grace continua monitorando ZED e percebe que ele está  passando tempo demais observando a flor. Grace fala pelo  microfone com ZED. 


GRACE 

ZED, por que você está se desviando  

da rotina? 


ZED 

Eu... gosto da flor. 

Grace franze o rosto. 


GRACE 

"Gostar"? Robôs não gostam de nada, ZED. 


ZED 

Mas eu gosto. 


GRACE 

Isso é uma falha. Precisamos  

corrigir isso. 


DIAS DEPOIS 


5. INT. ESTUFA - DIA 

Grace visita a estufa dias depois para descobrir a “falha” de  ZED. Ela se aproxima de ZED e da flor. A flor parece ainda  mais bonita à luz natural, olhando para ZED. Grace ainda sem  entender o que poderia estar acontecendo com ZED. 


GRACE 

Você foi programado para cuidar de  

plantas, não para... gostar delas. 

ZED permanece em silêncio por um momento, como se estivesse  escolhendo suas palavras. 


ZED 

Talvez seja o mesmo. Cuidar é  

gostar. 

Grace fica desconcertada por um instante. Algo na  simplicidade do que ZED disse a faz questionar suas próprias  crenças. 


6. INT. ESTUFA - NOITE 

A luz artificial ilumina a estufa de forma suave, refletindo  nas folhas e flores ao redor. A pequena flor desconhecida  está no centro da cena, como uma jóia viva no meio da estufa  fria e ordenada. ZED está sozinho, seus movimentos mais  lentos, quase reflexivos. 


ZED estende sua mão metálica e, com uma precisão quase  cuidadosa, toca na flor. Há uma leve oscilação nas pétalas ao  contato. ZED permanece imóvel por alguns segundos, como se  aquele toque tivesse ativado algo novo dentro dele. 


Grace, que estava ao fundo, observa tudo sem ser notada. Ela  cruza os braços e se aproxima, intrigada por ver o  comportamento inesperado do robô. 


GRACE 

O que está fazendo, ZED? 

ZED se vira lentamente para encará-la. Há uma pausa enquanto  ele parece procurar uma forma de expressar o que aconteceu. 


ZED 

Ela é... Leve. Como se não tivesse  

peso. 

Grace fala cética, mas curiosa 


GRACE 

Isso é só uma impressão tátil. Você  

não pode sentir nada de verdade. 

ZED olha novamente para a flor, sua voz permanece calma, mas  carrega um tom quase filosófico. 


ZED 

Mas... Talvez o toque não seja só  

sobre peso ou textura. Há algo  

mais... Como se ela estivesse viva  

de um jeito que eu nunca havia  

percebido. 

Grace fica quieta e surpresa. 


GRACE 

Então... Como foi tocá-la? 

ZED pensa por um momento, depois responde com simplicidade. 


ZED 

Como se... Se eu estivesse cuidando  

de algo mais do que uma planta. 

Grace encara a flor por um instante, como se tentasse  entender o que ZED experimentou. Lentamente, ela estende a  própria mão e rodeando, com delicadeza, os dedos pela flor,  quase a tocando, os dedos quase encontrando a mão metálica do  robô.  


GRACE 

Talvez seja isso que significa...  

Cuidar. 

ZED não responde, mas a presença dele ao lado dela é  silenciosa e reconfortante. Ambos ficam assim por um momento  – Grace, ZED, e a flor – conectados de uma forma que  transcende lógica e programação. 


A última imagem é das duas mãos – a de Grace e a de ZED – repousando ao lado da flor, quase encostando nela, metálica e  humana, ambas diferentes, mas unidas pela mesma sensação de  pertencimento. 


7. INT. LABORATÓRIO - NOITE 

Grace retorna ao laboratório, pensando no comportamento de  ZED. No monitor, ela vê que o sistema central está  recomendando que ZED seja redefinido, pois sua programação  está "corrompida". 

Ela hesita. Com um toque, ela pode apagar ZED e seus  sentimentos emergentes pela flor, ou deixá-lo continuar com  seu aprendizado inesperado. 


GRACE 

Você é só uma máquina... não  

deveria ser tão difícil. 

Ela coloca a mão sobre o botão de redefinição. A tela mostra  ZED cuidando gentilmente da flor, como se estivesse embalando  um segredo frágil. Grace para. 


8. INT. ESTUFA - DIA 

Grace entra na estufa, desta vez com passos lentos. Seus  olhos vagueiam pelas plantas organizadas em fileiras  perfeitas, mas nada disso parece importar. O olhar dela logo  se fixa na flor desconhecida – frágil, mas com uma aura  peculiar, como se pertencesse a um mundo que ela havia  esquecido. 


Grace se aproxima de ZED, que, em silêncio, observa Grace com  uma quietude quase humana. 


GRACE 

Por que você está aqui? Como você  

sobreviveu? 

Ela se ajoelha lentamente, hesitando, e toca a pétala da  flor. Ao encostar-se na flor, algo nela desperta. É como se a  textura suave das pétalas rompesse uma barreira interna que  Grace nem sabia que tinha. 

(Flashbacks rápidos  

atravessam a mente dela – 

memórias esquecidas de sua  

infância: um jardim na  

casa dos avós, sua mãe  

cuidando das flores, o  

cheiro da terra úmida após  

a chuva. Ela vê a versão  

mais jovem de si mesma  

colhendo uma flor e a  

segurando como se fosse o  

tesouro mais precioso).

 

A lembrança traz lágrimas inesperadas aos seus olhos. Faz  muito tempo desde que ela se permitiu sentir algo tão simples  e tão real. 


GRACE 

Eu... adorava flores. 

Ela fica imóvel por alguns segundos, perdida na memória, como  se estivesse reconectando pedaços de si que ficaram  enterrados sob anos de lógica e pragmatismo. 


ZED, ao perceber a mudança em Grace, inclina-se suavemente ao  lado dela, sua presença silenciosa e acolhedora. 


ZED 

Algumas coisas não se esquecem.  

Elas apenas esperam para serem  

lembradas. 

Grace sorri de leve, enxugando as lágrimas, mas sem pressa.  Ela passa a mão pela pétala mais uma vez, dessa vez com  carinho, como se estivesse pedindo desculpas a uma parte de  si que havia negligenciado. 


GRACE 

Eu achava que tudo isso... não  

importava mais. 


ZED 

Importa. Sempre importou. 

Grace respira fundo e olha para ZED, que parece tão sereno ao  lado da flor, como se não fosse apenas um robô, mas um  companheiro capaz de compreender mais do que comandos. 


GRACE 

Talvez você tenha mais alma do que  

muita gente por aí, ZED. 

A cena termina com Grace e ZED sentados lado a lado, ambos  olhando para a flor com a mesma sensação de calma e  pertencimento. Não há necessidade de palavras – naquele  momento, a conexão foi feita.


Equipe e produção editorial

Professoras orientadoras Profa. Dra. Valéria Bússola Martins e Profa. Dra. Elaine Prado

Editora Isabelle Callegari Lopes

Revisão Sofia Lustosa de Oliveira da Silva


 
 
 

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