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2026.1 | A Queda de Milanor

  • Foto do escritor: Revista Só Letrando
    Revista Só Letrando
  • 22 de fev.
  • 5 min de leitura

Por Luana Walczak

Era uma tarde cortante de 2025, os noticiários anunciavam que aquela seria a semana mais fria do ano. Carolina Milanor, exausta de passar o dia inteiro diante da televisão, sentia o peso dos anos em cada músculo quando depositou seu chimarrão na bancada ao lado do sofá. Já doente, levantou-se com esforço quase ritualístico e andou lentamente em direção ao banheiro, cada passo ressoava em seu corpo velho, reverberando pelos corredores silenciosos da casa como se seu cansaço tivesse se transformado em um eco ritmado, que marcava o tempo de sua solidão. 

Com setenta anos marcados nas mãos e cabelos grisalhos que caíam em fios rebeldes, ela se encostou à pia, prestes a arrumá-los. Quando, imprevistamente, algo mudou no ar: um silêncio ensurdecedor se instaurou no ambiente, como se uma sombra viva tivesse descido para pairar sobre ela. Cada respiração de Carolina cortava-lhe a garganta como lâminas ocultas, deixando evidente que algo estava ali, aguardando-a pacientemente. 

No lugar do próprio reflexo, o espelho começou a se dobrar sobre si mesmo, alongando a forma feminina que ali surgia, inconfundivelmente familiar. Era Stela Milanor, tal como na noite em que fora assassinada, com a aparência de seus 42 anos, preservada como uma ferida aberta no tempo. Estava pálida, cabelos loiros, em um vestido branco que flutuava sobre um chão inexistente. Preenchia o espelho com uma presença que não permitia desviar os olhos, que prendia Carolina de forma abrupta. 

Ela esfregou os olhos com força, jogou água gelada no rosto e deu leves tapas em suas bochechas, desesperada para romper o transe, mas o espelho não cedia, e a imagem permanecia, acusadora e silenciosa, como se cada memória do horror que Carolina tentava enterrar estivesse gravada naquela superfície. 


— O que você quer, mãe? — sua voz saiu trêmula, carregada de medo — Você está morta, então fique onde deveria ficar. 

Stela permaneceu imóvel, olhos fulminantes atravessando a alma da filha, carregados de desaprovação e desgosto, e mesmo quando Carolina tentou desviar o olhar, algo invisível a puxava para mais perto, mais perto, mais perto… até que o frio do vidro parecia entrar em sua própria carne. 


— Você vai ver exatamente como eu morri — sussurrou a mãe, sem ternura, e o aviso não era promessa, era sentença. 


De forma lenta, tudo ao redor de Carolina começou a dissolver-se, derretendo a realidade ao seu redor. Ela foi transportada para 49 anos antes, sob o manto silencioso de um crepúsculo comum, mas manchado pelas sombras de um crime que jamais seria esquecido.

Era uma noite cortante de 1976, os jornais anunciavam que aquela seria a semana mais fria do ano, e o vento parecia confirmar cada palavra da imprensa. As ruas de Serra das Cruzes no interior do Paraná, antes acolhedoras, agora estavam quase desertas. Naquelas calçadas de paralelepípedo, o único som que rompia o silêncio era o estalo de uma janela mal fechada. 

Stela Milanor caminhava pelo centro da cidade com as sacolas de compras penduradas nos braços, com os dedos enrijecidos pelo frio. Passou o dia inteiro cuidando de tarefas que uma mãe fazia sem reclamar: pagar contas, buscar mantimentos, checar se na padaria já vendia o pão do café, garantir que não faltasse nada para os filhos. Pensava nos pierogies poloneses que faria para sua filha mais nova, podia até mesmo sentir o cheiro da massa estendida sobre a mesa, do recheio de batata e queijo que sempre lembrava casa de avó, esse cheiro imaginário parecia guiá-la contra o vento que cortava o rosto. 

Foi então que notou passos atrás de si. Primeiro, leves e hesitantes, depois, marcados e urgentes, como quem a alcançava por rancor. O som estalava na calçada úmida, ecoando entre postes de luzes apagadas. Stela olhou por cima do ombro e viu apenas uma silhueta masculina recortada pela névoa e pela luz amarela de um poste. Um novo frio dentro do corpo a atravessou. 

A intuição pesou mais do que a vontade de seguir em frente. Acelerar o passo parecia óbvio, mas algo a prendeu. Quando se virou, tudo aconteceu num sopro: o tiro, o susto, a dor, o grito e então, o silêncio de novo. O vento uivou, a sacola rasgou, um golpe covarde que a fez perder o equilíbrio. Um suspiro de dor. O grito que ecoou e foi cortado rispidamente. Por um segundo eterno, a rua se concentrou apenas no rosto triste dela, na incredulidade que precedeu a queda. 

E então Stela viu e reconheceu o rosto que tantas vezes vira ao lado da filha: era o marido de Carolina. 

Serra das Cruzes já murmurava há meses sobre o marido de Carolina, o homem havia ganhado a reputação de bandido nas rodas de conversa e nos balcões dos botecos. Boatos sobre crimes antigos e violência geravam caras emburradas que o seguiam como uma sombra. Stela não era de ignorar o que a cidade dizia, mas conhecia a filha, sabia que o amor de Carolina por aquele ser a cegara. Por isso, por proteção, por puro instinto maternal, Stela vinha tentando o manter distante de sua família, tentando salvar a filha daquela vida de rumores e perigo. 


— Por quê? — Stela Milanor perguntou, as lágrimas já escorrendo, a voz grossa de dor e surpresa. 


— Você é um atraso para Carolina. Eu vou fazer você nos deixar em paz de uma vez por todas.


  O cheiro do passado se dissipou, e o quarto familiar voltou a se revelar diante de Carolina. Ela estava pálida, não de tristeza, mas de raiva. Raiva daquela figura ter voltado para assombrá-la. Stela permanecia parada, refletida no espelho, com um sorriso sombrio e vingativo.

O casamento de Carolina nunca fora aprovado por sua mãe. Durante todo o relacionamento, a pacata cidade de Serra das Cruzes espalhava boatos sobre os crimes que o marido de Carolina já havia cometido, mas ela nunca se importou. 


— Seu marido morreu há dois anos. Acamado, doente — sussurrou a mãe de Carolina através do espelho. — Todo o mal que aquele ser causou, ele pagou com dor e sofrimento. — Como sabe disso, mãe? — perguntou Carolina, com os olhos cheios de lágrimas, agora, de arrependimento. 


— Eu estava lá... do mesmo jeito que estou aqui por você. E não me chame de mãe. A figura loira e pálida foi se esvaindo aos poucos — e com ela, toda a ternura que um dia nutrira pela filha. 


Carolina Milanor abriu a torneira e jogou sobre o rosto a água mais gelada de sua vida. Secou-se com as mãos trêmulas, temendo abrir os olhos e se deparar novamente com a mãe. Caminhou lentamente até a porta, segurou a maçaneta com força, e, ao sair do cômodo, sentiu uma pontada aguda no peito e um formigamento no braço esquerdo. 

E assim, caiu sem vida. Sozinha. Doente. Exatamente do mesmo modo que seu marido. O silêncio que se seguiu foi pesado, quase palpável, como se as paredes respirassem um luto necessário. O relógio da sala parou, marcando para sempre a hora da morte. 

Stela ainda estava lá, imóvel, com o mesmo vestido que usava na noite em que foi levada. Seus olhos vazios refletiam um alívio perverso, a promessa finalmente cumprida. Um sorriso lento se formou em seu rosto, não de vingança, mas de espera. 

Ela se aproximou do corpo estendido, ajoelhou-se e tocou-lhe o rosto com uma ternura antiga, quase humana. O toque foi frio, mas trouxe um estranho alívio. 

Então, o espelho do banheiro tremeu, refletindo duas figuras que se afastavam de mãos dadas, dissolvendo-se em uma névoa densa, semelhante à daquela noite de 1976. E, dessa vez, Stela não iria sozinha.


Equipe e produção editorial

Professoras orientadoras Profa. Dra. Valéria Bússola Martins e Profa. Dra. Elaine Prado

Editora Isabelle Callegari Lopes

Revisão Juliana da Costa Cardia


 
 
 

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