Você não está sozinho
- Revista Só Letrando

- 17 de dez. de 2022
- 3 min de leitura
Por Carolina Armada Ciuccie
Eu não compreendo, depois de tudo o que eu fiz, do que eu sacrifiquei, como ele pode, como ele pode ser tão frio comigo! Na hora em que tudo acabou seus olhos me fitavam, mas não com aquela suavidade e carinho que um dia carregaram por mim, eles eram apáticos, sem um pingo de remorso. Ao vê-lo partir, perguntei-me se eu era o problema, se a culpa era toda minha. Agora, após refletir um pouco, eu sei que não é bem assim, mas, naquele momento, acabei deixando os meus sentimentos, a minha melancolia, o desespero e a frustração tomarem conta de mim; desabei em lágrimas e gritei até minha voz sumir, pois, além de partir o meu coração, aquele homem tirou tudo de mim, minha casa, meu emprego, minha família e meus amigos, mas de uma coisa eu tinha certeza, eu não iria deixar aquele desgraçado me destruir por completo, não, eu iria me reerguer mais forte e determinada, de um jeito que ninguém jamais vira antes.
O problema seria chegar nesse patamar que eu tanto almejava, tinha ainda muito chão pela frente e eu tinha poucos recursos. É por isso que acabei aceitando o primeiro emprego que vi pela frente, o salário não era um dos melhores, mas era um começo. Por conta disso eu acabei indo morar numa kitnet, numa área digamos que bem perigosa da cidade, o que não era lá tão animador, mas ainda melhor do que a rua.
Os dias foram passando e eu fui me acostumando cada vez mais com a minha rotina, acordar, me arrumar, sair correndo para o trabalho, voltar para casa tarde da noite, dormir e repetir. Lembro-me que, em alguns desses ciclos, eu percebia que algo estava me seguindo de volta para casa, como se estivessem me olhando fixamente, nem de tão perto e nem de tão longe, estava a me acompanhar bem devagar, rastejando. Toda vez que percebia essa presença, começava a suar frio, a ter calafrios e a apertar o passo, mas não importava o que eu fizesse a sensação não ia embora. Às vezes, quando eu me sentia mais corajosa, eu virava para trás e era recebida pelo nada, algumas vezes, até jurava que tinha visto um vulto. Mas no fim, para me acalmar, concluía que era tudo coisa da minha cabeça devido ao estresse e às poucas horas de sono, mesmo que a minha intuição me dissesse o contrário.
Comecei a fazer novas amigas, a solidão insuportável e a tristeza constante deixaram de ser tão presentes, estava começando a me reerguer, sentia isso. Aos finais de semana saía com o meu grupo para beber e me divertia horrores, começava a me sentir normal outra vez. Até aquela sensação de estar sendo seguida constantemente amenizou, aquilo parecia longe... eu sabia que não deveria ter baixado a guarda, eu sabia que por mais que as coisas estivessem calmas, aquilo ainda estava lá, estava esperando o momento oportuno para atacar. Como eu pude ser tão ingênua e esquecer que tudo o que é bom uma hora tem que acabar.
E foi exatamente isso que aconteceu, as minhas duas únicas amigas acabaram sendo envolvidas num acidente de carro fatal enquanto voltavam para seus apartamentos. Agora estou aqui chorando, sufocada, desesperada, sem esperança. Admiro que ainda esteja conseguindo escrever esta carta. Não sei o que vai acontecer, mas sinto que aquilo está chegando, mais rápido que nunca, tenho pouco tempo, não posso suportar novamente a solidão e a tristeza avassaladoras crescendo dentro de mim.
As luzes se apagaram.
Está aqui.
Que frio.




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