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2025.2 | Anátema

  • Foto do escritor: Revista Só Letrando
    Revista Só Letrando
  • 11 de ago. de 2025
  • 3 min de leitura

Atualizado: 11 de ago. de 2025

Por Marina Laplaca

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Eu lembro da senhora. Você estava de costas lavando a louça e eu não via o seu rosto, você ali de costas poderia ser a avó de qualquer um, só uma silhueta iluminada na parte que eu não podia ver. Não era um dos seus dias bons, mas de todos que você evitou naquele dia, você me permitiu ficar ali. Foi um longo tempo até que você falasse algo para além de você.

— Cuidado com o amor.

Não era para mim. Nem para você, mas para alguém que só você conhece no seu passado. Eu me levantei para te ver melhor. Estava cansada de ficar ali, te vendo de costas como se você e o que estivesse além da janela estivessem em um debate próprio. Me coloquei ao seu lado, e comecei a secar a louça. Havia um choro seco na sua bochecha. Você já tinha me visto assim, e não era a primeira vez que eu a via assim também. Mas entre tantos meios que tínhamos de falar, era no não falar que nos entendíamos. Mas aquele momento pedia a fala.

— O que foi, vovó?

Você me olhou e eu sei que não era a mim que estava encarando, mas alguém que pertence ao seu passado e você não conseguiu manter até o seu presente. Nos últimos tempos você me olhava muito assim, como se estivesse voltando para um tempo que não te pertencia mais, mas que ainda vivia em você. Me olhando como se soubesse que o que você havia começado no seu passado iria nos seguir até o meu futuro. Estamos unidas não só pelo sangue, mas pela maldição de sentir da mesma forma. O que você sentiu não acabou e não terminou com você, e você sempre soube, mas eu finjo que não percebia os seus avisos.

— Cuidado com o amor.

Eu era apenas um espelho nesse diálogo, mas ainda assim aceitei o conselho como se fosse uma sentença.

— Cuidado com o amor.

Eu tinha oito anos mas já não tinha muita coisa. Mas eu tive você. E você sabe que me teve também. Até você virar algo maior, algo que não cabe em um corpo, mas pertence ao eterno. Cuidado com o amor. Foi a primeira vez que eu segui seu conselho. Eu esperava que o tempo me ajudasse a materializar esse ser que você sempre me pediu tanto cuidado. Mas a questão é que nunca é um objeto ali parado esperando que você colida com ele. Não. Não existe poder suficiente para tocá-lo. O amor nunca está à frente. Ele está entre as coisas. Está entre o que vi e olhou de volta. Está entre o quase. Raramente está no certo. Esse ser independe de nós, ainda que viva de nós.

Mas eu o descobri quando percebi que era o que me atraia até você e você a mim. Seus filhos nunca entenderam, assim como minhas primas também não. Mas o amor era de um jeito até ser outra coisa também. Até virar o cheiro do mar com a fumaça da balsa que me levava para a minha casa ou para a casa dele. E daí virou outra coisa, o sabor de castanhas glaceadas com marrom glacé. Que mais tarde virou o remendo em uma roupa. Cuidado com o amor, eu fui avisada. Mas eu não queria evitá-lo, queria só saber quando estivesse chegando, afinal tomar cuidado tem a ver com ser precavido. Mas seja como for, esse ser não fala só comigo, assim como não falava só com você. Talvez o real cuidado é quando ele fala de você para outra pessoa. É quando ele te manipula até um outro manipulado também.

Acho que agora eu entendi que não basta conhecer o próprio amor se existe o amor desconhecido do outro. Era esse que você estava me avisando? Me avisando para tomar cuidado quando dois se encontram?

Eu estou assim agora, parece que fui roubada e você sabia que isso aconteceria. É um fardo que somente nós conhecemos. Mas eu sei que você já roubou algo de alguém. Isso você não me ensinou. Eu estou assim, algo que não é meu habita em mim e em troca levou algo meu que vive em outro alguém. Não sou mais pura e agora sei que é por isso que você sempre orava. Não é possível amar sem pedir perdão, nem que seja a si mesmo. Eu não me perdoo, pois eu fui avisada. Você me avisou. Você só não me falou "eu te amo".



Equipe e produção editorial

Professoras orientadoras Profa. Dra. Valéria Bússola Martins e Profa. Dra. Elaine Prado

Editora Isabelle Callegari Lopes

Revisão Camila Biancardi Faraldo e Ana Paula Silva dos Santos

 
 
 

1 comentário


Valéria Martins
Valéria Martins
22 de nov. de 2025

Preciso repetir um trecho desse lindo texto: "algo que não é meu habita em mim e em troca levou algo meu que vive em outro alguém". Que sensibilidade!

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