Um passo de cada vez
- Revista Só Letrando

- 8 de ago. de 2023
- 4 min de leitura
Por Alex Silva
Foram três anos da mesma maneira. Lembro-me como se houvesse sido ontem. Ele entrava na cozinha, pegava seu prato de comida, num silêncio quase mórbido e logo voltava para seu quarto, ignorando todos ao seu redor. Era sempre da mesma maneira, de manhã, de tarde e de noite, sempre naquele quarto, deitado, isolado, muitas das vezes até agressivo conosco.
Mas nem sempre foi assim. Mas como iríamos perceber?! Queríamos acreditar que sua transformação havia sido de uma hora para outra, mas a verdade é que nossa negligência, talvez até o medo, impedia-nos de admitir que algo estava errado, que ele estava mudando.
"Você é o homem da casa." Certa vez ouvi um amigo meu me dizer. Senti-me tão desconfortável que comecei a pensar que minha vida talvez estivesse fadada para sempre a ser o auxílio de minha mãe e irmãs, enquanto meu irmão, sempre seria o problema. A cruz pesada! Mas será que eu não poderia casar? Minha mãe nunca teria paz? Minhas irmãs sempre estariam à mercê da crise financeira que nos abalava e dos maus tratos dele?
Por que ele simplesmente não se levantava daquela droga de cama e ia procurar um emprego? O que ele tinha? Por que me odiava tanto, se eu nunca havia feito nada contra ele? Sim! Ele me odiava.
Certa vez, senti seu olhar furioso me fulminar quando ameacei expulsá-lo de casa caso não fosse procurar um emprego, seus palavrões encheram toda a casa. Temi tanto nesse dia! E se ele me matasse enquanto eu estivesse dormindo? Será que meus temores eram coisas da minha cabeça? Será que todo o problema que eu enxergava, na verdade era uma distorção que minha mente causava da realidade?
Mas por que temia tanto? E por que me importava assim com ele e com as mulheres da minha casa? A verdade é que quanto mais eu buscava respostas, mais me sentia sozinho, sem saída. O dinheiro era tão pouco naqueles dias... Afinal, eu era o único da casa com um emprego.
Três anos em que me senti sozinho. Meus amigos não entendiam. Mas como iriam entender meus temores? Para eles era uma situação tão fácil de resolver. "Coloque-o contra a parede", "ameaça expulsá-lo de casa", "deixe-o fazer o que quiser, afinal é ele quem colherá lá no futuro". Ouvia tudo, desesperançado, com meu coração ainda aflito, sabendo que eles não compreendiam.
Minha mãe estava definhando com tanta agressão verbal. Lúcia, já não conservava o brilho que toda criança tem em seus olhos, vivia amuada, cabisbaixa. Fernanda, a mais velha, evitava permanecer no mesmo ambiente que ele. Seu semblante era sempre de rancor, parecia culpá-lo por todas as coisas ruins que aconteciam.
Minha família estava sendo destruída por um inimigo que eu não conseguia identificar. E eu assistia tudo sem conseguir fazer nada.
Mas quem poderia me ajudar?! Com quem iria desabafar?! Eu dizia a mim mesmo "estou maximizando o problema". Então meu coração acelerava quando descobria que enquanto eu estava trabalhando em casa, em seu maldito quarto, ele lá permanecia, sempre isolado, sempre odiando a todos, e quando enfim aparecia era apenas para colocar defeito em algo que minha mãe fazia e depois insultá-la, fazê-la sentir-se inútil!
Muitas vezes recebi mensagens desesperadas de minha mãe, dizendo que ele havia enlouquecido. Passei noites em claro, sentado na porta, do lado de fora, desejando uma saída para tudo aquilo.
Às vezes me pegava pensando "seria tão bom se um carro passasse por cima de mim!", a morte parecia ser a única saída, parecia ser o único meio de trazer descanso. Eu estava tão exausto. Queria tanto ter uma família normal.
Por que eu me sentia tão inútil? Por que assumia uma responsabilidade que deveria ser do meu pai? Sim, às vezes colocava a culpa em meu pai. Por que ele foi nos abandonar?
Confesso a você, caro leitor, que o medo me dominou muitas vezes, principalmente quando olhava para o futuro e não conseguia enxergar dias melhores, não conseguia encontrar alegria, parecia que tudo em minha vida se resumiria naqueles momentos angustiantes que eu estava passando.
Foi apenas depois de um tempo, em meio a muitas lágrimas, que percebi que deveria buscar ajuda, talvez de algum médico. Pois enfim havia chegado a uma conclusão: eu, irmão, não estava bem, e todos estavam sendo levados a um estado parecido.
Como cai a ficha? Foi em uma manhã de segunda-feira, quando estava prestes a ir para a empresa que minha mãe me confidenciou o que eu já temia, "seu irmão disse para mim que sempre quando está sozinho pensa em se matar". Foi ali que enxerguei o quanto aquilo era real, ou eu tomava alguma providência ou o pior poderia acontecer.
Foram três anos de intenso sofrimento, mas enfim, encontrei ajuda médica. Começamos a frequentar semanalmente o psicólogo e meu irmão passou a tomar medicamentos. Aos poucos deixou de se isolar e conseguiu um emprego. Aos poucos ele foi se tornando o rapaz que há muito tempo havia sumido.
Meu querido leitor, talvez você veja esse meu relato como um problema que talvez fosse fácil de resolver - afinal, dentro da minha casa, o álcool e as drogas nunca haviam entrado - porém, tenho que confessar, para mim a situação era algo que parecia não ter solução. Não era frescura, mas sim um terror que me tirava toda a vontade de viver!
Parecia que eu nunca poderia namorar nem ter uma vida normal. Para meu irmão, acredito que os conflitos eram ainda mais intensos. Ainda não somos uma família perfeita, mas aos poucos estamos caminhando. O futuro já não é um terror para mim, nem para meus irmãos ou minha mãe. Como costumo às vezes dizer: Um passo de cada vez.




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