Três minutos
- Revista Só Letrando

- 1 de jul. de 2022
- 3 min de leitura
Por Fernanda Antônia Bernardes
Faltavam 10 minutos para a aula começar.
A Avenida Paulista testemunhava as buzinas dos carros, pessoas se esbarrando enquanto andavam apressadas e eu previa meu atraso. Outra vez. Eu dava passos largos e rápidos e sentia o coração acelerado sob o sol quente do início de tarde.
Estava correndo na tentativa de chegar à faculdade na hora certa, quando precisei diminuir o ritmo por causa de um casal de idosos que caminhava em passos curtos e vagarosos. A senhora baixinha de pele fina e muito enrugada andava com a ajuda de uma bengala e tinha o braço fino entrelaçado no do senhor mais alto e mais curvado também.
Olhei o relógio do celular de novo. Eu sequer estava perto da faculdade. Mesmo assim, desviar do casal não era uma opção, pois a rua estava muito movimentada e eu sabia que se eu tentasse ultrapassar naquele momento, iria bater de frente com outra pessoa que corria na direção contrária.
Eles pareciam estar no mesmo ritmo. Um não conduzia o outro, os dois iam juntos. Passos custosos de acontecer. Acanhados pelas pernas fracas ou pelas dores eminentes, os pés mal descolavam do chão, já se apoiavam novamente e os impulsionavam poucos centímetros por vez para frente. Respirei fundo, não queria me atrasar mais, mas também não queria perder a paciência com dois velhinhos.
Minha mente, como sempre tumultuada por diversos pensamentos simultâneos, aproveitou para imaginar quantas histórias do passado percorriam pelos caminhos que as rugas faziam em suas peles. Quantas histórias vividas em união estavam representadas por aqueles sulcos no braço de um que encostavam nos sulcos do braço do outro. Quantas vezes eles já correram e quando perceberam que o corpo pedia por passos menos nervosos?
A idade lhes tirou a pressa. Ou talvez fora a própria vida e a sabedoria adquirida ao longo dela. Talvez eles nunca nem tiveram tanta pressa assim. Não há porque correr, nem porque parar, caminhar no próprio ritmo é suficiente. Nesse instante, percebi que estava presa na atmosfera leve que eles carregavam e que adequei o meu ritmo ao deles. E minha mente, por incrível que pareça, só pensava nisso.
Entre a multidão frenética na Avenida Paulista, três pessoas ousavam caminhar em um ritmo diferente. Duas delas teriam muito tempo naquele dia, a outra teria muito tempo de vida, mas nenhum deles teriam os dois ao mesmo tempo.
Parecia que só nós três existíamos, livres por algum espaço indeterminado de tempo, flutuando sobre nosso kairós. O resto das pessoas que ali passavam misturavam-se uns entre os outros, enclausurados pelos seus cronos.
Se um pássaro voasse por cima de nós naquele momento, seríamos os únicos visíveis. O resto se apresentaria como vultos coloridos que correm em mão dupla, borrados pela pressa com que vivem a vida.
Ali havia os carros, as buzinas, as conversas, os passos, os gritos de vendedores ambulantes, mas eu só ouvia o barulho da bengala daquela senhorinha miúda marcando seus passos. Passos dados em tempos espaçados, um por um, de forma tão sutil que eu sentia que ela não apenas os dava, ela os vivia.
Toc.
Toc.
Toc.
O tempo pareceu parar.
Por instantes, eu tinha controle de volta sobre minha respiração e me atrasar não pareceu tão ruim.
Respirei fundo outra vez.
Então, um espaço na multidão abriu do lado do senhor. Sem pensar duas vezes, eu desviei dele e voltei a correr.
Olhei para o relógio do celular.
Faltavam 7 minutos para a aula começar.




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