Transformando celas em salas
- Revista Só Letrando

- 14 de ago. de 2024
- 2 min de leitura
Por Sarah Lyns de Assis Nicolau
— É bem assim mesm….Priiiiiiiiiiiiiiiiimmmm......
Todos escutaram a infernal sirene. As conversas sobrepostas se encerram de uma vez. Era hora de sair do pátio. Os intervalos pareciam cada vez menores. Aquela oportunidade única de sentir o sol na pele era arruinada pelo ruído que todos sabíamos que a qualquer minuto soaria.
Terminando finalmente o barulho comprido, a grande maioria se preparava para voltar cada um ao seu devido local.
As pessoas que detém o poder nesse ambiente nos guiam para aqueles cubículos em que estaríamos nas seguintes horas, dias, semanas, anos. A depender do grau em que cada um estivesse.
Para mim, ainda faltam muitos dias, os quais risco em uma folha de papel para não perder a conta.
O barulho de várias chaves batendo umas contra as outras invade nossos ouvidos, juntamente com o ruído da porta sendo empurrada, como correntes em filmes de terror, parecendo ser pesada demais, assim como este lugar.
Entro, sento e ouço a pequena janela emperrada tentar ser aberta em gretas que nos permitem tentar ver lá fora. Mas, a única coisa que vejo são aqueles enormes muros cinzas de concreto. O mundo parece tão pequeno daqui de dentro…
As horas passam lentamente aqui. Meus companheiros estão emburrados esperando que dê a hora da comida.
— Ae, Pedro, se demorar mais 5 minutos, juro que pulo essa janela.
Ele sempre diz isso, mas sabemos que ele não quer levar novamente uma ocorrência de comportamento indevido, o que poderia estender seu tempo aqui ou...
Um som interessante adentra nossos ouvidos. Havia muito tempo eu não escutava uma melodia qualquer.
Meus dedos começam inconscientemente a bater ritmicamente na parede. Ao olhar para meu colega, vejo que está balançando o pé, balançando e balançando conforme a música que toca.
Ao girar minha cabeça, vejo que todos estão embaçados...
Eu sentia falta de ouvir sons tão agradáveis que pareciam me abraçar. Uma lágrima escorre de um lado em que eu rapidamente limpo com a palma da mão.
A música abandona nossas orelhas quando deixa de tocar lentamente, como se o som estivesse se despedindo de todos, suavemente. Ou até mesmo como se quem estivesse controlando quisesse terminar de ouvir a sua continuação inexistente…
Todos se levantam, ainda confusos, e começam a sair daquela sala que passara a ser mais suportável.
O som externo que deixou todos atônitos se encerra de vez, embora ainda estivesse tocando no interior de cada um.
Os restantes que estavam como eu finalmente se levantam, seguindo a professora. Quando finalmente o murmurinho começa:
A música liberta.




Comentários