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Pesadelo de uma noite de verão

  • Foto do escritor: Revista Só Letrando
    Revista Só Letrando
  • 17 de dez. de 2022
  • 4 min de leitura

Por Augusto Melchior

Naquela noite quente de verão, Anna teve um pesadelo. No pesadelo, seu quarto era invadido por insetos: lagartas de jardim em sua maioria; criaturinhas verdes, pequenas e gosmentas, que comiam tudo o que viam pela frente – grama, folhas de árvores, papel, carpetes, o cachorro da casa, corpos decompostos e corpos sadios – e que planejavam atacá-la e devorá-la, imobilizando-a durante o sono.


Só que o sonho naquela noite fora vívido demais, quase como um delírio, mas mais como uma lembrança: nele, enquanto os insetos gosmentos escalavam a cama da frágil mulher, prendendo-a delicadamente contra o seu gasto colchão e violentamente se banqueteando com seu corpo, a pobre coitada, em pânico, tentava em vão gritar e pedir por ajuda. Mas aqueles seres roliços haviam dilacerado sua laringe antes que ela notasse sua presença, esculpindo túneis da morte por todo o seu sistema respiratório logo no princípio do tormento, arrastando-se ligeiramente pela lateral de seu pescoço esguio, adentrando sua carne e atravessando todo o percurso rumo à parte inferior do diafragma, onde fizeram seu acampamento sombrio, seu ninho concentrado de martírio noturno.


As lagartas, em poucos dias, já passeavam sorrateiramente por seus músculos, dançando sua dança fria por debaixo da pele, sentindo enquanto o coração fraco de Anna bombeava filetes de sangue quente pelo que restava de seu ser e o debilitado sistema imune da mulher enfrentava, em vão, a infecção dos vermes malditos. Todo esse sofrimento durara vários dias, pois sua crueldade faminta não podia ser saciada com o fim da vida humana; os insetos planejavam devorá-la lentamente, fazendo-a amar o calor latente da dor, odiar o frio constante da morte e idolatrar o arrastar agonizante dos odiosos corpos que faziam dela sua morada.


Com o passar do tempo, Anna já era quase um cadáver: seus pulmões mal funcionavam, seu coração lutava para se manter batendo e cada um dos músculos de seu corpo tremia com os movimentos odiosos dos seres infernais: o jantar fora o mais proveitoso possível para os demoníacos insetos, e também o mais digno de pena para toda a humanidade. Aquele corpo sem vontade, sem sinal de beleza e sem qualquer força vital não era nada além de um item esquecido pelo mundo, um dejeto humano abandonado por qualquer divindade, um resto de nada sem chances de misericórdia.


Língua-lábios-nariz-orelhas, tudo em sequência e ao mesmo tempo, tudo engolido em um passeio por sua face, fazendo dela uma máscara irreconhecível, um câncer da existência fúnebre de seu lar: a laringe, dilacerada desde os primórdios da agonia, sequer se esforçava para gritar enquanto a dor insuportável era sentida sob o silêncio imortal que precede os velórios.


Ao chegarem às janelas da alma, os monstros se detiveram e tomaram mais tempo para apreciar aquela suculenta iguaria. O som molhado de sua degustação intensamente percebido por Anna em seu suposto sonho, como em uma verdadeira lembrança de um futuro-passado esquecido quando difusos órgãos da visão entregaram resquícios de sua alma a seres inomináveis; sua mente encarando a podridão doentia da lama tragá-la a mundos verminosos sem chance de retorno.


No sonho, Anna viu as órbitas de seu rosto enfim ocas; viu o nariz substituído por buracos onde moravam monstros que se escondiam da luz. Viu sua boca desaparecida e, em seu lugar, havia montes e montes de larvas dançando em ritmo obsceno a melodia de desesperados gritos silenciosos nascidos de uma mente devorada; vermes que engoliam sua carne já sem vida, podre, desleixada, e moviam-se umidamente, seus corpos asquerosos remexendo-se para cima e para baixo, para cima e para baixo, felizes e satisfeitos: “mas que jantar maravilhoso!”.


Ao acordar, questionava sua identidade. Estou viva? Onde estão os vermes? Como eu posso ver? Quase ainda sentia os demônios atravessando sua caixa torácica, seu ninho alojado no abdômen, lentamente em busca de seu coração e sua força vital, o medo e a impossibilidade de ajuda e o terror da morte rastejante ainda a deformar seu rosto e no buraco oco de sua alma vazia, nas trevas, ainda ressoando os primitivos tambores do apocalipse. Anna demorou a abrir os olhos, e não podia determinar se seria capaz de ver ou não, até que, enfim, tomou coragem e os escancarou, relutantemente aceitando que encarava o teto do quarto e que, sim, estava viva! Fora tão somente um sonho e a vida estava lá! Branca e sorridente, aguardando-a na manhã ensolarada de um verão de domingo azul.


Anna, então, se preparou para uma caminhada dominical com a filha, pois, veja bem, aquilo não passava de um pesadelo estranho e demente, um resquício de assombro para ser, enfim, guardado em uma gaveta aos fundos de sua mente, rapidamente esquecido após uma caminhada ao ar livre, no parque, a pouca distância da casa onde vivia. O sonho, com suas famintas larvas malditas, logo se tornaria um elemento inóspito que atacaria sua consciência tão somente em banais delírios febris.


Anna saíra de casa, naquela manhã, com os braços dados à filha. No caminho até o parque, conversaram sobre os devaneios da noite:

"Nossa, filha, eu tive um sonho tão estranho..."

"Como foi, mãe?"


Ela contou que havia sido devorada por insetos carnívoros e, dez metros distante de casa, Anna enrijeceu, estupefata, e encarou o chão: Uma pequena criaturinha verde, pequena e gosmenta, cruzava seu caminho, rumo à casa próxima, parecendo acenar gentilmente suas muitas mãozinhas à mulher e à filha em um gesto obsceno, ritmado, medonho e faminto.


Ao constatar para onde o pequeno ser se dirigia, Anna caiu de costas, semiconsciente, um grito entalado na garganta, sentindo a lagarta esmeralda aproximando-se da lateral de seu pescoço enquanto a filha buscava ajuda. Após, apenas flashes: era levada para casa, carregada até o quarto, onde a posicionavam deitada na cama. Uma coceira leve talvez fosse sentida onde o grito se alojara, sua consciência se afastando da claridade matutina.


Naquela noite quente de verão, Anna teve um pesadelo...


 
 
 

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