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O Toque de Midas

  • Foto do escritor: Revista Só Letrando
    Revista Só Letrando
  • 19 de fev. de 2024
  • 2 min de leitura

Por Bruna Angelis


Preso em um punho fechado, o anel de brilhantes chegava a pesar ainda mais do que as mochilas em seus ombros.


O ouro branco, banhado pelo toque mais sutil daquele Sol da Meia-Noite¹, nunca ao menos chegou perto de tomar seu lugar ao redor dos dedos pálidos da bela moça. A dança de mais cedo ainda a rodeava como sopros fantasmagóricos do futuro que quase a encontrou.


Quase - pois no momento que o rapaz se pôs de joelhos, numa promessa sussurrada daquilo que seria o paraíso, tudo ficou em câmera lenta. Teria sido a falta de uma poção do amor? Ou o excesso do Dom Pérignon?


O recuo foi lento, tão silencioso quanto a quietude de todos os presentes que as palmas já haviam preparado. Em seus lábios, apenas os murmúrios escapavam ao lado do assombro.

Nos ouvidos, apenas o estilhaçar de um coração de vidro.


De volta às janelas do trem, era como se ela pudesse ver através de um portal a vida que deixou para trás - os dias ensolarados ao lado de reis e rainhas do baile, as fotografias amareladas no fundo, de uma carteira, uma família perfeita.


A mão estendida após o término de uma valsa, intocada pela fluidez da chuva que sobre ela caía. Essa não era a sua vida


Não poderia ser.

“Oh, pobrezinha! Seria uma noiva tão linda!”


Quando fechava os olhos, sentia as palavras tão perto que pensava poder prová-las na língua. Borbulhantes, fervendo em sua boca como um potencial veneno. 


Forçou-os, então, à mochila que descansava em seu colo, subindo e descendo com o movimento constante sobre os trilhos. Algumas linhas pendiam soltas em seu interior, revelando um pequeno compartimento em sua lateral - consequência de uma costura desfeita às pressas.


Pela segunda vez naquela noite, o anel pesou em seu punho.


Dizem por aí que o arrependimento chega para assombrar as noites tranquilas de sono apenas após a perda de um conforto constante. 


Mas o conforto nunca foi suficiente em seu coração.


Ela saberia lidar com algumas sombras de seu passado - as transformaria em arte, se assim ousar dizer. E o mero pensamento de despejar tudo que sempre a transbordou a deixava radiante, como nenhuma gota de sol jamais a deixaria.


No fundo, de tecidos rasgados, o ouro branco nunca pareceu tão leve.


E, assim, com o Toque de Midas desfeito, o céu da meia-noite começou finalmente a descer - forte, livre e vivo.



Essa história foi pensada e desenvolvida a partir das músicas “champagne problems” e “midnight rain”, da cantora americana Taylor Swift.


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¹O fenômeno do Sol da Meia-Noite se desenvolve por conta da incidência de dias após dias sem noites - aqui, representada pela personagem feminina do texto.


 
 
 

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