O silêncio
- Revista Só Letrando

- 17 de dez. de 2022
- 3 min de leitura
Por Alex Sandro de Lima Silva
O amor é uma loucura, uma tragédia, um
caminho sem volta para o incompreensível.
O nome dela era Liana. Seu sorriso não se igualava a de nenhuma outra garota, seu jeito tímido, com aquele olhar perdido, causava-me uma avalanche de sensações. Minhas pernas bambeavam, minha boca ressecava, minhas mãos suavam e, meu coração descompassava, fazendo com que a menor frase dita saísse entrecortada e incompreensível. Como pôde perceber, caro leitor, eu a amava, e, a cada dia, era torturado com sua presença, com seu perfume, com seu lindo jeito de ser, pois o simples pensamento de me declarar embrulhava-me o estômago e tirava-me todas as forças.
Todas as manhãs a encontrava na porta da empresa onde trabalhávamos e, em todos os fins de tarde, a via partir, sempre sozinha, em direção a um ponto de ônibus próximo.
Certo dia, saí alguns minutos mais cedo para pegar o ônibus, pois tinha algumas pendências particulares, quando a encontrei solitária, naquele ponto vazio. Por um instante, me pareceu que seu rosto havia corado - ou poderia ter sido só impressão minha? - seu jeito de repente se tornou ainda mais retraído.
Um milhão de coisas passaram em minha cabeça. O que eu deveria falar? A noite será quente hoje… Eba! Amanhã é sexta!… Como foi seu dia hoje?…
Quando a coragem estava prestes a minguar, arrisquei.
- Você gosta de livros? - disse, quase perdendo o ar.
Seus olhos de repente se fixaram nos meus, meio que assustados, me encarando em um silêncio infinito.
- Quero dizer… gosta de ler?
A garota continuava me olhando, em um silêncio tão profundo, que até mesmo os ruídos costumeiros da rua pareciam extintos. Ouvia-se apenas a sua respiração. Quando enfim estava começando a me arrepender de ter iniciado aquela conversa sem sentido — persuadido de que havia cometido um erro imperdoável — ouvi o doce som de sua voz.
- Gosto. - disse, desviando seus olhos para o chão.
Meu coração deu uma pontada aguda… que lindo soprano! E tão tímida! E agora? O que eu diria? Não havia me planejado até aquela fase… Era algo avançado demais para mim!
- Eu tenho vários livros… se quiser um emprestado… eu posso te trazer! - exclamei, afoito, enquanto, desesperado para sair daquela situação incômoda, embarquei no primeiro ônibus que vi surgir. Assim que a porta fechou, olhei para fora e ela continuava com aquela expressão confusa, me observando com aqueles olhos negros penetrantes.
O que foi aquilo? Como eu poderia ser tão tapado daquele jeito? Queria gritar: “PARE O ÔNIBUS”, mas, em vez disso, sentei e me martirizei durante toda a viagem. Um pequeno adendo: por sorte, o ônibus cortava pelo meu bairro; assim, logo cheguei em minha casa, onde pude descarregar minha frustração, chorando debaixo do chuveiro…
A noite passou lenta, incrivelmente lenta. Não consegui pregar o olho em nenhum minuto sequer. Em vez disso, fiquei repassando na memória o que diabos havia acontecido naquele ponto...
Eu deveria ter feito um elogio, ou ter convidado-a para sair, poderia ter dito centenas de coisas, mas não… fui falar sobre livros… SOBRE LIVROS! Nesse país, quem é que gosta de ler? Idiota! E foi assim, em devaneios, que virei a noite…
Quando os raios começaram a se infiltrar na minha casa, o medo de repente tomou conta de mim. Já, já estaria outra vez na empresa e daria de cara com Liana.
Minhas mãos outra vez suavam, minha boca outra vez ficava seca, minha coragem outra vez saia em fuga pela janela enquanto me vestia. Peguei o ônibus, desejando que algo pudesse acontecer para que eu não tivesse de encontrá-la naquela manhã.
Quando cheguei, tentei conter o tremor nas pernas que me impediam de caminhar com decência. Foi então que algo fora do comum chamou minha atenção, encontrei várias pessoas que trabalhavam na empresa, reunidas na porta, parecendo nervosas. Liana não estava lá.
Foi então que ouvi de um colega a terrível notícia: "Liana faleceu!” exclamou, desnorteado…
De repente, pareceu que o mundo havia ruído diante dos meus olhos. Olhei para meus colegas, e o semblante de cada um testemunhava o mesmo veredito, Liana falecera!
Em um dia, eu era um covarde que temia me declarar, no outro, havia me tornado um valente que desejava apenas mais uma oportunidade de contemplar aqueles olhos penetrantes e, quem sabe, convidá-la para sair. Agora restava-me apenas a lembrança daquela doce voz soprano, entoando tão mansa e tímida suas palavras para mim.




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