top of page

O impostor

  • Foto do escritor: Revista Só Letrando
    Revista Só Letrando
  • 17 de dez. de 2022
  • 3 min de leitura

Por Alex Sandro de Lima Silva


Onde eu vou, lá está ele, sempre da mesma forma, sempre com o mesmo jeito irritante de esperar pacientemente minhas ações. Suas visitas têm se tornado cada vez mais frequentes. Antes, eu notava sua presença em certas temporadas, mas, agora, todas as semanas eu o vejo. Ele sempre entra pela porta da frente, com seu casaco desbotado e sua barba de três dias, senta-se em alguma cadeira da cozinha ou no sofá da sala e me olha zombeteiro. Certa vez, ele chegou às duas da tarde de um dia cinza melancólico enquanto eu tentava escrever um conto fantástico, sentou-se ao meu lado e pôs-se a esperar, observando-me trabalhar. Até que cheguei na última linha do conto, e ele perguntou:


“Por que não vai tirar um cochilo? Parece muito cansado!” Eu o ignorei, como era o meu costume, mas o infeliz, parecendo não perceber, continuou ao meu lado com seus dedos tamborilando o joelho enquanto esperava alguma resposta minha. Eu sentia sua respiração chegando na minha nuca.


“Você sabe muito bem que costumo ler depois da escrita…” murmurei. O infeliz ficou mudo por um instante, e então levantou-se e foi embora. Isso aconteceu um ano atrás.


Lembro-me de uma vez, numa noite de verão, o Natal já estava próximo, eu estava muito contente, havia acabado de montar a árvore que eu havia comprado numa lojinha perto de casa, quando ele apareceu. Trazia o mesmo casaco e o mesmo sorriso zombeteiro.

“Por que você não some de uma vez?” perguntei, irritado por vê-lo prestes a estragar o meu feriado.


Ele parecia um pouco cansado e, pela primeira vez, tirou seu casaco e o pendurou em um suporte perto da porta, então sentou-se no sofá, estirando-se como se fosse tirar uma soneca. Olhei para ele com a raiva crescendo dentro de mim.


“Você não pode se livrar de mim!” falou, categórico. Seus olhos pareciam irados, mas, ao mesmo tempo, senti que havia certa tristeza no tom de sua voz. Encarei seus olhos, furioso. Por um instante, pensei que poderia matá-lo ali mesmo, e foi nessa hora que o infeliz deu uma gargalhada.


“Acredita mesmo nisso? Ué, você já não havia me matado? Não se lembra?”


Senti meu coração pulsar cada vez mais rápido. Acho que estava suando e tremendo muito, pois notei seu maldito sorriso aparecer outra vez enquanto me observava. Sem medir muito as consequências, arranquei a árvore que acabara de enfeitar e que descansava no canto da sala, já iluminada com luzinhas pisca pisca, e arremessei com toda minha força sobre o infeliz. Num pulo, ficou de pé, e antes de desaparecer como fumaça, lançou-me um aceno. Isso foi há alguns meses.


Agora, ele sempre aparece. Quando estou trabalhando ou dormindo ou no banheiro, ele aparece. Não importa o lugar ou a ocasião. Sempre inconveniente, sempre com aquele sorriso azedo.

Outro dia, quando discava um número para pedir uma pizza, foi sua zombeteira voz que ouvi do outro lado. No dia seguinte, enquanto assistia TV, era ele quem dava as notícias pelo telejornal. Ainda ontem, quando lia um livro, seu nome encontrava-se na lista bibliográfica. Agora, nesse exato momento, enquanto conto esta história, ele está aqui presente, me encarando, enquanto segura em uma das mãos a fotografia da família que costumo deixar na estante. A minha família. Só minha.


Isso terá um fim. Ele sairá dessa casa ainda hoje! Seu corpo não ficará mais debaixo da minha garagem. Não quero vê-lo nunca mais!

Sua vida é minha!


 
 
 

Comentários


Post: Blog2 Post

©2020 por Só-Letrando. Orgulhosamente criado com Wix.com

bottom of page