O cão sarnento
- Revista Só Letrando

- 18 de dez. de 2022
- 2 min de leitura
Por Pedro Albuquerque Nascimento
Estava eu, em terrível tarde molhada, caminhando em direção ao metrô. Precisava voltar para casa e iria embarcar em um ônibus quando chegasse ao terminal. Inicialmente, fui confrontado apenas pelo cotidiano, estradas esburacadas, calçada suja, completa ausência de plantas. Cenário urbano paulistano. Após algum tempo, no entanto, avistei um cão.
Era velho e estava doente. Quando se deitou, percebi que sua pele estava tomada por parasitas. Um cão sarnento, condenado a uma morte lenta e dolorosa.
Afastei-me do cão e virei na rua principal, infestada de policiais militares e transeuntes. A quantidade de policiais me chamou a atenção, pois em um pequeno trecho de calçada, havia cinco deles.
A minha rotina diária passou a ser essa. Mesmo me chocando com o estado do cão, acabei me acostumando a vê-lo assim, já que ele estava lá todos os dias. Queria que ele melhorasse, mas eu nunca fazia nada para ajudá-lo. Eventualmente, ele morreu. Vi seu corpo inanimado na calçada. Aos poucos, o afeto que eu tinha por ele também esvaiu.
Não sei como se deu a sua morte, mas ninguém se preocupou em tirar seu cadáver de lá, e ele ficou padecendo no mesmo lugar por alguns dias. Nem os transeuntes nem a polícia se importaram.
Naquela mesma rua, também transitam várias pessoas em situação de rua, desamparados sob a vigia da polícia. Acontece que, uma semana depois do cão morrer, um morador de rua também faleceu.
Morreu coberto por uma manta. Após dias de céu nublado, apenas quando o sol apareceu e fez sua carne ferver e começar a feder, aquele corpo chamou a atenção da polícia e dos transeuntes.
*Texto produzido durante a Oficina de Crônica realizada pelo Prof. Cristhiano Aguiar e pela Revista Só-Letrando no Mackenzie Day, dia 5 de novembro de 2022.




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