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O coração delator - Edgar Allan Poe

  • Foto do escritor: Revista Só Letrando
    Revista Só Letrando
  • 19 de fev. de 2024
  • 3 min de leitura

Por Kelvyn Machado 

  

O breve conto O coração delator, de Edgar Allan Poe, expõe a tentativa de um psicopata - que é o protagonista - em provar sua sanidade. Ele narra toda a história e busca convencer o leitor de seu bem-estar mental expondo sobre como assassinou um homem idoso que estava em sua casa. O motivo dado por ele é o seu ódio por um dos olhos do idoso que, de acordo com o protagonista, parece com o olho de um abutre. Logo de início, o protagonista é caracterizado como alguém muito nervoso e acusado de ser louco. Nessa tentativa de se justificar, ele enfatiza os detalhes, suas ações pensadas e metódicas, seu planejamento e sua suposta prudência, como provas de sua sanidade.  


O protagonista, durante sete noites, esperava o idoso dormir e abria a sua porta cuidadosamente para que não houvesse barulho. Em seguida, colocava sua cabeça para dentro do quarto e ligava, de maneira sutil, a lanterna. Porém, na oitava noite sua rotina foi quebrada. Enquanto abria a porta, ele ficou tão entusiasmado com sua capacidade de agir em silêncio que, ao esbarrar o dedo no trinco, acabou acordando sua vítima. O homem idoso grita e se senta na cama, mas isso não foi suficiente para impedir o psicopata. Ao invés de fugir, ele ficou parado com a cabeça para dentro do quarto durante horas sem fazer qualquer barulho, e o idoso permaneceu acordado e sentado em sua cama. Conforme o tempo passava, o assassino começou a ouvir as batidas do coração do senhor que ficavam cada vez mais altas a ponto de incomodá-lo. Até que em certo momento se tornou insuportável. O som era tão alto que ele temia que os vizinhos escutassem. Então, abriu a porta e matou o idoso. Logo após o assassinato, ele esquartejou a vítima e escondeu o corpo sob o assoalho da casa.  


Algumas horas depois, quando já era dia, a polícia bateu em sua porta para investigar a casa. O motivo da investigação era uma denúncia feita pela vizinhança, por conta de um grito durante a madrugada. O homem insano, cheio de confiança, acreditava que tinha cometido o crime perfeito, mostrou toda a casa para os policiais e nada foi encontrado. Até que o som das batidas do coração do velho retornou ainda mais alto e passou a atormentá-lo, mas os policiais não escutaram nada. Em um certo momento, elas se tornaram torturantes novamente e levaram o psicopata a gritar, confessando o crime e mostrando para os policiais onde escondeu o corpo.  


Ao ler o conto, em nenhum momento é possível ser convencido de que o protagonista não é louco. Todas suas ações, como a rotina de abrir a porta do quarto da vítima todas as noites, seu planejamento frio sobre como cometer o assassinato, seu ódio por um dos olhos do idoso e o fato de ouvir as angustiantes batidas do coração, evidenciam a sua loucura. Edgar Allan Poe não escolheu criar um narrador personagem que deixa o leitor em dúvida sobre o seu estado mental, mas um que escancara a sua insanidade. O que, para o homem louco, são bons argumentos para provar que sua mente é saudável, apenas explicitam a sua psicopatia.   


O autor não se concentra em descrever a fisionomia dos personagens, mas dá muita atenção para os aspectos psicológicos do protagonista. Ele é descrito como alguém nervoso e completamente louco. Além disso, Poe desenvolve todo o conto em um mesmo cenário: a casa. Existem algumas mudanças de cômodo, mas a maior parte se passa no quarto do homem idoso.  


Ele consegue criar os sentimentos de medo e tensão através de sua construção narrativa. Isso é extremamente perceptível quando o velho dá o grito e fica em silêncio sentado na cama. Nesse momento, o louco está com a cabeça para dentro do quarto sem fazer um único barulho e, por conta da escuridão, o idoso não consegue vê-lo. O velho geme de dor e de angústia, demonstrando a sua perturbação e medo naquele momento. Já no final do conto é possível perceber o protagonista em dúvida. O som das batidas ficava cada vez mais alto, mas, aparentemente, os policiais não ouviam nada. Isso o deixou inquieto, pois não sabia se eles também escutavam o barulho e estavam zombando dele.  


Também não deve ser esquecido o fato de que em nenhuma parte do conto há um diálogo entre o homem louco e o velho. O autor escolheu que apenas o protagonista tivesse voz nessa história. Ele usou de toda a sua capacidade argumentativa para provar sua sanidade mental, mas sua tentativa foi o grande atestado de sua loucura. Por fim, ao analisar todo o conto, fica claro que o protagonista é o único que não sabe que é louco. 


 
 
 

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