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O campo e a lida

  • Foto do escritor: Revista Só Letrando
    Revista Só Letrando
  • 8 de ago. de 2023
  • 4 min de leitura

Por Sofia Fernandes


De tanto andar curvada na apanha de mato e a cuidar da ceifa, começaram a brotar das costas de Zulmira dois caroços. Saídos do topo da coluna, quase do pescoço, impediam-na de se erguer por completo. De começo não deu muita importância que ficasse logo na posição que lhe era exigida. Assim, também protegia o rosto do sol e evitava o olhar de constante ameaça do jagunço. Dia após dia, voltava ao barraco antes da noite cair. De vez em quando, levava consigo um pedaço de rapadura ou um tanto de aguardente escondidos no próprio corpo. Por vezes, dormia com eles ainda dentro da saia ou entre os seios, pelo prazer de ter algo seu. Foram duas ou três colheitas até que se permitisse sentir dor. Era um ser-humano, ainda.


Mas com tudo se acostuma. Essas mudanças em seu corpo não eram as primeiras, tampouco seriam as últimas. Ao longo dos anos, a pele engrossava com o sol – ele é para todos, mas também para cada um. Os dedos ficavam cada vez mais grossos, enquanto os cabelos cada vez mais brancos e ralos. As novas curvas não a surpreenderam tanto quanto aquelas que lhe surgiram por volta dos onze anos quando, além de seu trabalho para o campo, começara seu trabalho para os homens. O quadril já não se movimentava como um dia fez, o corpo se lembra. E quase não pensava nas transformações da alma, das marcas invisíveis que ficam nas mãos após certos toques. A tudo se acostuma.


Desde setembro que se ouvia por entre as canas uma expectativa, a promessa de que as coisas iriam mudar. Zulmira também não pensava no futuro. Conhecia o campo e conhecia a lida, que exigia um dia de cada vez. Passados alguns meses da esperança, algo podia perceber: os trabalhos eram os mesmos, os homens também. Naquele primeiro junho de um país independente, ela completara quarenta e sete anos de duras penas.


Foi noite de lua cheia quando Dirce a visitou com um calhamaço de papel, é presente, disse. Depois ficaram por horas em silêncio, como faziam sempre que podiam, a lamparina em quase nada alumiava a casa, mas tinha o canto das cigarras, o cheiro de chuva e se olhavam nos olhos. Em dado momento disse para a amiga que sabia uma mistura de cânfora e unha de gato que a ajudaria na dor, da próxima vez lhe traria. Zulmira se perguntou como lhe era conhecida sua algia silente. Pegou de cima da mesa os papéis amarelos decorados com palavras, letras que sua vista fazia dançar e perguntou o que diziam as páginas.

- Ganhei ainda criança de minha avó e por anos guardei em segredo, agora é seu. É presente, repetiu. A mulher tirou-lhe da mão as letras-bailarinas e leu em voz alta, como se lê um poema. Por horas a fio Dirce narrou o que dançavam as letras, palavras de mistério, palavras de amor. Nessa noite Zulmira dormiu com as páginas sobre o peito, uma mulher com sua amante.


Não teve próxima vez. Dias após o encontro, ouviu na plantação que Dirce fora expulsa da herdade aos solavancos, sem que pudesse levar algo consigo. Que era isso ou que lhe cortariam a língua. Havia se negado a chamar a criança de quem cuidava de vosmecê. Lembrou mesmo do que Dirce tinha contado há certo tempo que, a menina é boa, mas parece cada dia mais a mãe. Zulmira, nessa dor de alma que só a perda causa, quase podia ouvir a amiga bradar: - tinha lá graça que eu, mulher feita, chamasse a miúda de vosmecê? Não chamo, ainda que tirem minha boca toda fora. Ela entendia. Em sua cabeça até a respondeu. De todo modo, seu trabalho não exigia que dissesse nada, só lavrasse e assim fazia.


Não era raro que, durante as horas no campo, crianças menores fossem à plantação, munidas de pequenas pedras para jogar nos trabalhadores mais velhos. Riam-se disso o quanto podiam. Zulmira não se importava que os tiros de pedra acertassem suas feridas nas costas, mas não se esquecia de quando um dos pedregulhos acertou na cabeça de sua pequena Natalina, de moleira ainda aberta, quando repousava num cesto no meio do canavial. Quem mandou trazê-la para cá? Mas onde a deixaria? Onde a deixaria? Desde esse dia, nunca mais foi a mesma. Até o choro da menina era diferente, mais agudo, quase gago. Nem o leite lhe saía do peito, a alma doendo. Morreu dois ou três anos depois, sem nunca mais ter ido à plantação com a mãe, o que era por si só uma benção. Perguntou-se se a menina que jogara a pedra, era a mesma que tinha, alguns anos depois, expulsado a amiga da fazenda: - Vosmecê não faria isso, faria?


Mas tinha ainda o livro. Se o marido fosse ainda vivo, de certo o queimaria. Diria que não é coisa de mulher se preocupar com leitura, que se ocupasse com a casa e a lida. Se fizesse direito os dois já seria um grande feito. Nunca levantou a mão, isso é verdade, mas também não se lembra dele tê-la estendido. Não importa, tinha ela seus mortos muito bem enterrados, difíceis eram as mortes em vida. Desde a partida de Dirce, Zulmira olhava o baile das letras toda noite e, ainda que não as compreendesse por completo, as tinha decorado. Já sabia que a palavra escrita não se perde nunca, não se vai com o vento ou com o tempo. Pegou o calhamaço de papel e disse em voz alta, como se diz uma oração: - A Sagrada Teologia do Amor de Deus, Luz Brilhante das Almas Peregrinas. Esse foi o momento em que as letras pararam a dança e a olharam de volta. Sozinha nessa leitura clandestina foi que sentiu-se independente.


Naquele dia teve febre. Antes de se deitar, lavou o rosto nas águas da pia e, em ato sagrado de devaneio, conversou com Deus. Enquanto lia, chegou a ver o rosto de Dirce, alma peregrina, observando-a pela fresta da porta. Era capaz de sentir os ossos a atravessarem o corpo e a rasgarem a carne. Quando dormiu, as penas duras romperam-lhe a pele e saíram pelos grumos das costas. De modo que se libertasse do cárcere, ergueram-se as asas, como se levantassem voo, como nascem os anjos.


 
 
 

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