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Memórias finadas

  • Foto do escritor: Revista Só Letrando
    Revista Só Letrando
  • 1 de jul. de 2022
  • 3 min de leitura

Por Augusto Melchior


Naquele momento, naquela manhã tão linda, eu pensava: "Meu planeta é tão bonito quando o Sol se põe”.


Com o vento soprando, você sente o cheiro das plantas no ar. Você sente o cheiro do mar. Você sente a vida. Você ouve o som dos pássaros. E você sente o calor do Sol indo embora. E quando na alvorada? Ah! Seu calor e frescor, seu cheiro e sua música de insetos trabalhando e de pássaros voando e de borboletas brincando, você sente.


Você sente o sabor das nuvens quando acorda. Você sente o beijo ameno da pessoa amada quando acorda. Você sente seu sangue correndo e você sente que ainda tem tempo e o tempo é bom.


Eu estava sentada em um banco do campus na minha faculdade quando eu soube, então, que o som daquele helicóptero não fazia parte da delicada paz da manhã. Naquele momento, enquanto comia um pão na chapa quentinho, eu pensava sobre meu namorado. Élfico, alto, moreno, cheirando a verde, ar puro, lavanda. Ele me lembrava de um dia sob as árvores, a luz do Sol por entre suas folhas.


Naquele momento também pensei nos animais: cachorros, gatos, periquitos e peixes. Ouriços, saguis, micos e araras também. Assim como os animais menores, os insetos, aquelas criaturinhas delicadas e poderosas, joaninhas, formigas, cigarras e grilos. Pensei em todos eles e em suas vidas. Pensei que eles amam, odeiam, riem, choram, cantam, brincam, pensei que nós somos eles.


Pensei que senti meu pão na chapa na mão esquerda, quente como meu coração ao lembrar meu primeiro beijo: sim, foi com ele, meu alto elfo, aquele sobre quem minha estrela brilhou mais forte e de quem eu sentia prazer em ouvir o coração batendo acelerado quando eu estava por perto.


Naquele momento, lembrei do quanto a comida é gostosa. Do quanto uma fruta fresca faz sorrir. Do quanto uma sopa quente alivia as noites frias. Do quanto um pedaço de pão salva os famintos. Do quanto a vida depende desse mundo.


Então, ouvi o helicóptero mais perto e eu lembrei de um sonho que tive uma vez. Era meu casamento. Com meu amor. No topo de uma montanha com mata virgem ao redor. O Sol, tão lindo, brilhando na mata. Os animais felizes. Pássaros por todos os lados. Meus pais chorando, minha avó orgulhosa, meus amigos sorridentes. Ele toca a minha mão e... então, eu ouvi o helicóptero ainda mais perto.


E ele me lembra de que a formatura estava próxima. Eu seria oficialmente uma farmacêutica. Especialização em ervas medicinais: tudo que a natureza tem para oferecer aos homens. Tudo que ela tem para nos confortar. Tudo que o mundo tem. Tudo que nos faz bem pelo simples fato de ser. Tudo que nossos ancestrais já sabiam e nós só tivemos o trabalho de provar cientificamente: a natureza é boa.


E meu planeta é tão lindo quando todos estão felizes.


E meu planeta é tão lindo quando a natureza está feliz.


E eu ouço o helicóptero.


E eu ouço pessoas gritando. Meninos e meninas, homens e mulheres, crianças de todas as idades, todos gritando, berrando, na verdade, e eu me levanto, olho para os lados, alguém esbarra em mim e eu deixo meu pão cair, e eu quero chorar, porque ele estava tão bom, mas olho e não vejo quem me derrubou por perto, eu quero gritar com alguém, mas só vejo pessoas em pânico.


E então eu lembrei de tudo que criamos. Não as maravilhas: as máquinas tristes. As metralhadoras, os canhões, as bombas, os celulares e os computadores - máquinas produzidas pelo mercado para escravizar pessoas - e eu soube que não duraria muito nesse mundo se não fosse a natureza e suas árvores e suas flores e seus animais e sua alma tão boa que tenta equilibrar todos os maldosos acidentes tecnológicos que criamos.


Então olho pra cima e tem um enorme monstro de ferro em mim. Um amontoado de metal pesado girando em minha direção. Uma máquina insensível, criada para auxiliar as pessoas que, incompetentes, nem sempre possuem habilidade para fazer o bem. Ou talvez tenha sido apenas um problema técnico. Jamais saberei. Eu sei que ela estava lá, vindo até mim. E eu pensei em tudo: na minha família, no meu namorado, na minha gata de estimação, Zelda, e na minha formatura, tão próxima, e nos meus desejos para o futuro, de cuidar do planeta, de ter filhos e de ensinar às pessoas que a natureza já tem tudo de que precisamos. E eu senti meu corpo sendo despedaçado, e sangue, e dor, e frio, e medo, e morte. E nada mais.


E, então, eu estou aqui. Sem meu amor. Sem minha formatura. Sem meus sonhos. Sem nada. Apenas uma sombra do que um dia fui.


E eu sei que o mundo seria ainda mais bonito se não o estivéssemos destruindo.

 
 
 

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