Memória olfativa
- Revista Só Letrando

- 8 de ago. de 2023
- 4 min de leitura
Por Isabelle Callegari
Naquela metrópole suja, cinza e anoitecida, tal qual o cenário ideal para uma história deprimente, Júlio aguardava impacientemente no ponto do ônibus. Sua vida ordinária se assemelhava com a maioria daquelas pessoas, que após um dia cansativo de trabalho se viam no desespero para usar o transporte público, mas com seu pessimismo hostil, ele acreditava que dali, sem dúvidas, ele era o mais miserável.
As pessoas se amassavam, todos queriam caber no ridículo espaço coberto da parada, a chuva caía pesadamente e até aquele instante, Júlio que acreditava estar nas piores das depressões, não imaginava que a sua situação poderia piorar, afinal para onde iria alguém depois de já estar no fundo do poço?
Em meio aquele amontoado de pessoas, ele sentiu, sim, foi sútil, mas ele captaria aquele cheiro mesmo quando misturado a dezenas de outros. O homem de meia-idade, esguio e até meio esquizoide foi transportado para um tempo em que ele reproduzia Marvin Gaye repetidamente, porque ela dançava e cantava palavras sem sentido no mesmo ritmo das canções, imitando um inglês fajuto e cômico.
Era o cheiro dela, da Luísa, a estagiária de cabelos cacheados e de pele macia. Júlio achava o cheiro dela refrescante, quase como de creme dental, mas na real, refrescante era a presença de Luísa na vida dele, já que, ele vivia um casamento pacato. O famoso casamento por conveniência.
Júlio conheceu a esposa no seu período universitário, ambos introvertidos, acabaram sobrando no primeiro trabalho acadêmico, e inevitavelmente viraram uma dupla. A dupla criou uma dinâmica prática, e eles seguiram na mesma dinâmica, por mais 20 anos. Não tinham filhos e nem animais, não cabiam na rotina, mal eles próprios cabiam.
A atração do homem pela jovem estagiária foi imediata, mas ele não foi o único que se encantou com aquela nova presença, os grandes olhos castanhos de Luísa não passavam despercebidos facilmente. Júlio foi além, essa foi a diferença, para ele, tudo nela o atordoou. Sua inócua experiência não era capaz de nomear aquilo, um limbo entre a fascinação e o incômodo que aquela figura lhe causava.
A princípio, Luísa saboreava a estranheza de Júlio quando perto dela, era quase palpável o constrangimento do homem. Ela experimentava com curiosidade a timidez do contador, e foi assim por semanas. Até o fatídico dia que Júlio vivenciou os 30 segundos de coragem insana e ofereceu carona para estagiária.
As caronas seguiram-se por meses, e a criatividade do marido como justificativa dos longos atrasos foi-se aprimorando: viagens, morte de parentes distantes e até nascimento foram utilizadas como pretextos. Tudo para passar mais tempo com ela.
A felicidade extrema, a verdadeira razão de sua existência, sentir que tudo valeu a pena e todas as perguntas acerca da própria vida passaram a ter uma resposta: Luísa, a estagiária que cheirava hortelã.
Eles se exploraram, se testaram e viveram o que poucos sentem durante vidas, Júlio acreditava que para um cristão, essa seria a definição de céu. Mas não demorou para seu maior privilégio se tornar sua maior desgraça.
Após meses, mais precisamente sete, a cônjuge descobriu. Não se sabe ao certo como, mas ao enquadrar o marido, ele revelou sem especulações; direta e friamente. Um golpe duro.
A esposa que nunca sentiu fortes emoções, se viu diante do mais inesperado. A dor da traição em sua mais pura forma lhe atingiu tão dolorosamente que seu ímpeto foi o da vingança. E foi aí que Júlio viveu o que ele crê que os crentes chamariam de inferno.
A mulher que vinha de família de grandes recursos, fez o possível para afetar a vida da jovem moça no âmbito profissional e acadêmico, nada tinha contra ela, mas sabia que assim afetaria indiretamente seu marido.
Luísa, com apenas seus 20 anos, não tinha meios psicológicos e financeiros para lidar com aquilo, e assim como surpreendentemente surgiu na vida de Júlio, ela também saiu. Sem recados e avisos. E ele continua não sabendo onde ela está.
O visível sofrimento do homem, apesar de esperado, causou ainda mais incômodo na esposa, foi aí que decidiu tirar quase toda a dependência dele. A separação era imensamente desejada por ele, mas não por ela, que decididamente relembrou-o do acordo pré-conjugal e de como sairia ainda mais prejudicado.
Júlio sobrevivia no martírio há exatas 6 semanas, mas nenhuma sanção estabelecida era pior do que a falta da Luísa, absolutamente tudo o relembrava dela. E naquela parada de ônibus em mais um dia de existência inútil, tudo veio à tona, graças àquele odor. O homem sentiu seu corpo falhar em todas suas funções e sistemas. Mas ela não estava lá, óbvio que não. A vida não daria essa trégua ao deplorável rapaz.
Ele seguiu seu caminho, mas não da maneira de superar algo, para superar é preciso esquecer e deixar de sentir, e ele não queria isso, não por ela.
Genuinamente, pode-se dizer que a vida de Júlio foi dividida em três partes, o antes, o durante e o depois de Luísa. Ele não sabe como conseguiu existir num mundo, por tanto tempo, ao qual ela não fazia parte e que o ápice de sua mediocridade foi durante o curto, porém revolucionário momento que passou a compartilhar a vida com ela, e agora, o período após Luísa, ele tentava aprender, mas sabia, passaria o resto tentando viver sem ela.
Luísa foi na vida de Júlio o contraste perfeito entre o sol e o temporal que ocorria naquele exato momento, o cheiro de hortelã e a renovação daquele odor no meio de aperto, suor e chuva.




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