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Mary Shelley: A Criadora e a Criatura

  • Foto do escritor: Revista Só Letrando
    Revista Só Letrando
  • 17 de dez. de 2022
  • 5 min de leitura

Por Heloísa Sequetin Figueiredo


O ano de 1816 ficou conhecido como “O Ano sem Verão” devido a uma série de anormalidades climáticas provocadas por uma explosão vulcânica na região da Indonésia no ano anterior. Também no ano de 1816, numa casa de veraneio na Suíça, três poetas reuniram-se: Lorde George Byron, John Polidori e Percy Shelley. O último estava acompanhado de sua jovem esposa, Mary Shelley. Devido ao clima atípico, nublado e chuvoso, os quatro precisaram passar uma temporada juntos dentro de casa. Para se divertirem, Byron propôs um concurso para decidirem quem era capaz de escrever a melhor e mais aterrorizante história de fantasma. A história ganhadora falava sobre um cientista e uma criatura monstruosa criada por ele, escrita pela jovem Mary, que tinha apenas 19 anos na época. Surgiam, assim, os primeiros rascunhos de uma das obras de terror e ficção científica mais aclamadas de todos os tempos: “Frankenstein”.


Os primeiros editores que pousaram os olhos naquelas páginas espantaram-se, não apenas com a habilidade e a criatividade, mas também com o fato de que uma garota tão jovem e bela fosse capaz de escrever cenas tão horrendas e perturbadoras. Contudo, se fizermos uma breve viagem ao passado de Mary, perceberemos que seu livro nada mais é do que uma vida sombria, repleta de perdas e sofrimento.


Nascida Mary Wollstonecraft Godwin, Mary nasceu no dia 30 de agosto de 1797, em Londres, no Reino Unido. Ela era filha de duas figuras intelectuais importantes da época: o filósofo William Godwin e a escritora feminista Mary Wollstonecraft. Poucos dias após seu nascimento, sua mãe faleceu devido a uma infecção pós-parto. O fantasma da morte de sua mãe acompanharia a escritora por boa parte de sua infância e juventude.


Mary era uma jovem extremamente inteligente e foi tutorada por seu próprio pai. A garota interessava-se por ciência, biologia, filosofia e literatura, e, mesmo nova, escrevia pequenos contos e poemas. Segundo ela própria, seu local favorito de leitura era o cemitério onde sua mãe estava enterrada, devido ao silêncio do lugar.


Em 1814, ela conhece o poeta Percy Bysshe Shelley e ambos apaixonam-se um pelo outro, mesmo sabendo-se, na época, que Shelley já era casado e tinha dois filhos. Nesse mesmo ano, eles fogem para a França, e depois viajam para a Suíça e para a Holanda, deixando para trás o pai de Mary, extremamente decepcionado, e a esposa grávida de Shelley. Durante suas viagens, a própria Mary acabou engravidando e, em 1815, deu à luz a uma menina prematura, que morreu pouco tempo depois, fato que a fez mergulhar em uma depressão profunda. Só em 1816 os dois amantes resolveram retornar ao Reino Unido por conta de problemas financeiros, e então se casaram. Contudo, o casamento não era visto com bons olhos, já que ocorrera pouquíssimo tempo após a morte da primeira esposa de Shelley.


Durante 1816 e 1817, período no qual passou escrevendo “Frankenstein”, Mary sonhou diversas vezes que trazia sua bebê morta de volta à vida ao aproximá-la do fogo da lareira, sonhos esses que muito provavelmente serviram de inspiração para sua obra. A ideia de criar vida por meio do fogo, ou de eletricidade, no caso de “Frankenstein”, remete até mesmo à mitologia grega, na qual o fogo era símbolo de vida, transformação e sabedoria, três elementos facilmente encontrados em sua obra. Não à toa o livro também pode ser encontrado sob o título de “O Prometeu Moderno”, já que, no mito grego original, Prometeu dá aos homens o fogo dos Deuses, que continha os poderes do conhecimento e raciocínio, e Zeus o castiga por tal ato, condenando-o a ser acorrentado e eternamente bicado por pássaros que devoravam seu fígado, entrando num ciclo de tortura e destruição. No livro de Shelley, o jovem Victor Frankenstein, um estudante de medicina, usa seus conhecimentos para criar vida a partir de partes de cadáveres, indo contra as leis da natureza e sendo duramente castigado por sua própria criação.


Publicado em 1 de janeiro de 1818, “Frankenstein” dividiu opiniões: recebeu duras análises por parte da crítica, mas foi um sucesso entre o público. É interessante observar que Mary não assinou o livro em sua primeira edição, já que, na época, muitos não davam o devido crédito às obras escritas por mulheres. Ela só viria a assinar o livro com seu nome completo cinco anos depois, na segunda edição, de 1823.


Mesmo com todo o sucesso de sua estréia no mundo literário, a saga de tragédias continuou a perseguir a vida pessoal da jovem escritora. Ela e Percy viriam a ter mais três filhos: William, Clara e Percy Florence, e, em 1818, a família Shelley decide mudar-se para a Itália em busca de um recomeço. Contudo, no mesmo ano, a pequena Clara falece após completar seu primeiro ano de vida. Depois, em 1819, William morre com apenas 3 anos de idade. Apenas o filho caçula do casal, Percy Florence, viveu até a idade adulta, falecendo em 1889, aos 70 anos.


A perda final viria em 1822, quando seu marido morre em um naufrágio durante uma tempestade. Com seu coração completamente despedaçado e em luto após a morte de quase sua família inteira, Mary resolve retornar para a Inglaterra em 1823, levando consigo o seu único filho sobrevivente.


Mary Shelley faleceu no dia 1 de fevereiro de 1851, em Londres, na Inglaterra, aos 53 anos de idade. Especula-se que sua morte ocorreu devido a um tumor cerebral desconhecido na época.


“Frankenstein” repercutiu de tal forma na literatura mundial que até hoje pode ser considerado um clássico de terror, servindo de inspiração na criação de músicas, peças teatrais, filmes e até mesmo outras obras literárias. Porém, Shelley também deixou seu legado em outros livros igualmente complexos e questionadores, entre os quais podemos destacar “O Último Homem”, publicado em 1826, e “Matilda”, publicado postumamente em 1859 (não confundir com “Matilda”, livro infantil de 1988, escrito pelo britânico Roald Dahl).

“O Último Homem” é uma ficção científica narrada em primeira pessoa pelo último homem sobrevivente na Terra, que vivenciou os últimos momentos da humanidade. Já “Matilda” tem como trama central a paixão incestuosa de um pai por sua própria filha.


Analisando essas três obras, percebe-se a semelhança dos temas abordados, especialmente dilemas éticos, a morte e o luto, e a influência do passado no presente. Shelley era questionadora, parecia não ter medo de abordar assuntos complexos e aterradores presentes na sociedade, que podem ser percebidos na atualidade. Os assuntos espinhosos dos quais tratava em suas obras eram motivo de críticas negativas em sua época de publicação, contudo, foram ganhando cada vez mais notoriedade com o passar dos séculos. As páginas desses livros questionam até onde vão os limites da sensatez humana e como nós, seres mortais, lidamos com a ideia da morte, isto é, com a certeza da perda daqueles que amamos e de nosso próprio fim.


É bom lembrar que Mary era filha de dois pensadores à frente de seu tempo: seu pai foi um filósofo e político e sua mãe foi uma das mais importantes feministas de sua época, autora do livro “A Reivindicação pelos Direitos da Mulher”. Sendo assim, crescendo num ambiente mais intelectualizado do que o de muitas pessoas daquele século, era mais do que natural que a escritora apresentasse uma personalidade crítica e inquisitiva, à frente de seu tempo, manifestando suas visões de mundo por meio da escrita. Ela foi prova viva de que as mulheres eram capazes de escrever muito mais do que romances delicados e poesias floridas.


É inegável que Mary Shelley dominava inúmeros assuntos: ela entendia de ciência, política, filosofia, literatura e escrita, mas também era profunda conhecedora de temas da natureza mundana, como o amor, o sofrimento e o luto. É por meio de suas obras que ela exorciza seus fantasmas, revelando suas cicatrizes emocionais mais profundas e sombrias.


Um bom livro, muitas vezes, é apenas o espelho dos pensamentos e sentimentos de seu autor. O espelho de Mary Shelley é sombrio, triste, mas ainda assim fascinante.


 
 
 

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