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Leitura comparada de contos:

  • Foto do escritor: Revista Só Letrando
    Revista Só Letrando
  • 8 de ago. de 2023
  • 4 min de leitura

Atualizado: 8 de ago. de 2023

Análise da construção narrativa de “A biblioteca de Babel” e “Um general na biblioteca”¹


Por Beatriz Francisco de Oliveira² e Valentina Sommerlatte³


Segundo Massaud Moisés, há duas possibilidades de tempo dentro da narrativa do texto em prosa: o cronológico e o psicológico. O primeiro segue as leis naturais, sendo “disposto em dias, semanas, meses, anos, estações, ciclos lunares, etc.” (MOISÉS, 2007, p. 102). Já o segundo se desenvolve dentro do que o autor denomina “fluxos emocionais”, que procedem de dentro dos personagens.


No conto “Um general na biblioteca”, de Italo Calvino, publicado em livro homônimo, o tempo caracteriza-se como cronológico, uma vez que segue os períodos do dia, como pode-se observar nos trechos: “Os militares tomaram posse da biblioteca numa chuvosa manhã de novembro.” (CALVINO, 2001, p. 74, grifo nosso), “Toda noite o rádio de campanha transmitia o relatório geral [...]” (CALVINO, 2001, p. 76, grifo nosso), “No comunicado vespertino da missão [...]” (CALVINO, 2001 p. 77, grifo nosso) e “[...] o que aconteceu na biblioteca nas longas semanas invernais [...]” (CALVINO, 2001, p. 77, grifo nosso).


Em contrapartida, o conto “A Biblioteca de Babel”, de Jorge Luis Borges, publicado no livro Ficções, não segue uma linha sequencial de acontecimentos; pelo contrário, no decorrer da narrativa o leitor se vê dentro da mente da personagem, acompanhando suas divagações e lembranças da juventude. Os fragmentos a seguir ilustram o que foi anteriormente mencionado: “Como todos os homens da Biblioteca, viajei em minha mocidade [...]” (BORGES, 2007, p. 70), “[...] mixórdias verbais e incoerências. (Eu sei de uma região agreste cujos bibliotecários [...]” (BORGES, 2007, p. 72). Sendo assim, “A biblioteca de Babel” se enquadra no tempo psicológico.


Em relação ao espaço, vemos um ponto de intersecção entre os contos “A Biblioteca de Babel” e “Um General na Biblioteca”: ambos se passam em mundos fictícios e, enquanto Calvino constrói a nação de “Panduria”, Borges dá vida à Biblioteca. Além disso, pelo título das obras já é possível inferir que a ambientação das narrativas se dá nos espaços de duas bibliotecas; porém, apesar de utilizarem a mesma nomenclatura, cada autor se apropria de maneiras distintas do termo “biblioteca”.


Para Moisés, uma das formas de se enxergar o espaço em que o conto se passa é vê-lo como “o local ideal para o conflito” (MOISÉS, 2007, p. 108). Essa definição enquadra-se ao conto de Calvino, uma vez que a missão do general Fedina e seus homens era “[...] examinar todos os livros da maior biblioteca de Panduria” (CALVINO, 2001, p. 74) e eliminar possíveis ameaças ao Estado totalitário, tendo em vista que a biblioteca abrigava um grande número de livros com conteúdos que poderiam fazer com que a população se rebelasse contra o sistema. Moisés traz ainda outro caminho interpretativo sobre o espaço, dessa vez sob a ótica da relação personagem-ambiente, de modo que “[...] a geografia pode confundir-se com o protagonista ou tornar-se-lhe mero prolongamento.” (MOISÉS, 2007, 108). Ao mesmo tempo em que o personagem de Borges está na Biblioteca, ele acaba fundindo-se à ela, perdendo-se em meio a números infinitos de galerias hexagonais.


Narrado em terceira pessoa, “Um general na biblioteca” conta com um narrador heterodiegético, também denominado narrador observador, que narra a estadia dos militares na biblioteca de forma neutra e objetiva. O narrador de Calvino atenta-se à descrição dos acontecimentos, sem trazer grandes reflexões acerca deles. Já “A Biblioteca de Babel” é narrada em primeira pessoa, de modo que há um narrador autodiegético, que expõe os fatos segundo a limitação de seu saber e ponto de vista, trazendo um tom de subjetividade e parcialidade à narrativa.


Pode-se afirmar que no conto “Um general na biblioteca” existe uma descrição mais fiel à realidade no que diz respeito aos personagens. No conto citado, nota-se a presença de nomes próprios - General Fedina, Tenente Abrogati, Tenente Lucchetti, Crispino, Soldado Tommasone e Soldado Barabasso -, descrições físicas - “[...] baixo e gorducho, empertigado, larga nuca raspada [...]”, “ [...]varapaus, queixo levantado e pálpebras abaixadas[...]” (CALVINO, 2001, p. 74-75), “[...] baixotinho, cabeça careca parecendo um ovo [...]” (CALVINO, 2001, p. 75) - e, por vezes, psicológicas - “General Fedina, oficial severo e escrupuloso [...]” (CALVINO, 2001, p. 74) - que levam o leitor a imaginar/entender a história como algo externo ao leitor.


Já “A Biblioteca de Babel”, como apontado anteriormente, traz consigo uma ideia de reflexão propriamente dita, considerando-se principalmente que o objetivo do texto é colocar em pauta a busca por um propósito de vida de toda uma sociedade, aplicando esse conceito enquanto utiliza a generalização: “como todos os homens [...]” (BORGES, 2007, p. 70), “os místicos pretendem [...]” (BORGES, 2007, p. 70), “o homem, bibliotecário imperfeito [...]” (BORGES, 2007, p. 71), sem especificar pessoas de fato, mas levando o leitor a, de certa forma, se tornar personagem da história, acompanhando a linha de raciocínio do narrador e refletindo em conjunto.


Desse modo, entende-se que as ideias dos autores foram construídas no formato de ambientes fictícios distintos, a fim de gerarem uma reflexão acerca do conhecimento, cada um de forma única. Enquanto Calvino dispõe sua narrativa em uma obra mais acessível, tendo em vista também a linguagem simples, em busca da conscientização da importância da leitura, entendendo que o conhecimento pode não mudar o sistema como um todo, mas pode mudar as pessoas e emancipá-las, Borges irá retratar a complexidade de sua própria reflexão no abstrato do mundo criado por ele e descrito por sua linguagem rebuscada, agora denunciando que todos buscam um propósito ou razão maior da vida.


Calvino se coloca, de forma clara, em uma prosa de começo, meio e fim, contendo a transformação do personagem explícita, tornando o texto um objeto de fácil imaginação - no tocante a espaço, personagens e até situação - e compreensão; em contrapartida, Borges propõe a necessidade de aprofundamento do leitor em suas ideias e mais ainda na sua linguagem, considerada uma linguagem matemática - “[...] De qualquer hexágono, veem-se os andares inferiores [...]” (BORGES, 2007, p. 69) -, e na criação do espaço.


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¹Trabalho desenvolvido na disciplina Literatura Comparada I, ministrada pela Prof.ª Dr.ª Maria Elisa Rodrigues Moreira, no primeiro semestre de 2023.

²Graduanda em Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.

³Graduanda em Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.


Referências


BORGES, Jorge Luis. A biblioteca de Babel. In: BORGES, Jorge Luis. Ficções. Tradução de Davi Arrigucci Jr. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. p. 69-79.


CALVINO, Italo. Um general na biblioteca. In: CALVINO, Italo. Um general na biblioteca. Tradução de Rosa Freire D’Aguiar. São Paulo: Companhia das Letras, 2001. p. 74-79.


MOISÉS, Massaud. A Análise Literária. 16. ed. São Paulo: Cultrix, 2007. p. 102-108.

 
 
 

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