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    Revista Só Letrando
  • 8 de ago. de 2023
  • 6 min de leitura

Atualizado: 8 de ago. de 2023

“A Biblioteca de Babel”, de Jorge Luis Borges, e “Um General na Biblioteca”, de Italo Calvino¹


Por Vitória Evelyn Mota Dias Ribeiro ²


A partir de sua configuração comum, a biblioteca conserva e ganha novos significados nos textos de Italo Calvino, autor nascido em Cuba, e de Jorge Luis Borges, de origem argentina. Em “Um General na Biblioteca”, publicado na antologia de contos e apólogos de mesmo nome, cuja produção se dá entre os anos de 1943-1958 (RASCUNHO, 2012), Calvino atenta-se às visões de confronto de ideias e de sobrevivência dos conhecimentos; já em “A Biblioteca de Babel”, escrito por Borges e publicado em 1944 na obra Ficções (INSTITUTO LING, 2021), a biblioteca recebe status de nome próprio e, ao mesmo tempo em que abriga tudo, é tudo. Nesses dois espaços, verossimilhante e figurativo - psicodélico, de certa forma -, desenvolvem-se narrativas que dialogam e se distanciam em diferentes aspectos, mantendo, porém, o saber e a sua aquisição como elementos centrais.


Calvino publica seu conto em um contexto de grande instabilidade para a humanidade, na primeira metade do século XX. Na terra em que passou a viver logo após o nascimento, a Itália, a década de 1940 é tempo de ascensão do ditador fascista Mussolini, cuja atuação na Segunda Guerra Mundial é de apoio ao regime nazista. Enquanto membro do Partido Comunista, Calvino critica explicitamente o corpo militar por meio de um exército fictício de uma nação igualmente criada, Panduria. Assim, quando surge no meio militar a preocupação com a natureza questionadora dos livros, a necessidade de agir esbarra em uma outra ignorância: “[...] não se sabia por onde começar, porque em matéria bibliográfica ninguém era muito versado” (CALVINO, 2001, p. 74).


Tal tratamento irônico está presente nas impressões também de outras personagens, como o conjunto de intelectuais que visitavam a - agora interditada - biblioteca: “[...] perguntavam-se: - [...] Será que não vão desarrumar tudo? E a cavalaria? E será que também darão tiros?” (CALVINO, 2001, p. 75). Ou seja, só se é possível esperar a violência da ação militar. Quando em uma obra encontram opiniões favoráveis ao povo cartaginês, derrotados pelos romanos, os oficiais sentem-se ofendidos, uma vez que acreditam ser, “com ou sem razão” (CALVINO, 2001, p. 76), descendentes destes. Como na citação, o narrador parece pôr em xeque a capacidade dos pandurianos em se assemelhar com um povo de impressionante histórico militar.


Igualmente, o período histórico no qual Borges produz o conto que aqui nos interessa, a década de 1930, envolve um mundo em guerra. De natureza complexa, o texto utiliza ideias matemáticas, filosóficas e místicas. Arriscamos dizer que, escrito em tempos de incerteza, seu objetivo é refletir sobre a verdade.


A partir dessas observações, podemos apontar como o caos e a ordem são dois estados que permeiam as narrativas. O narrador de Calvino cita e reforça a busca pela hierarquização por parte dos militares, cuja empreitada falha graças ao bibliotecário Crispino: “A cada tenente foram designados determinados ramos do saber, determinados séculos de história” (CALVINO, 2001, p. 75). Como na jornada do herói, a figura de Crispino parece dialogar com a do guia. E sua intromissão surte efeitos, como no questionamento feito pelo General Fedina a um oficial que deixara de classificar corretamente um livro: “[...] o tenente lhe respondia citando outros autores, e embrenhando-se em raciocínios históricos, filosóficos” (CALVINO, 2001, p. 77). Da aparente confusão de leituras, a forma metódica e ascética pela qual os militares trabalham perde espaço para pesquisas que envolvem o aprofundamento e a intertextualidade. Assim, o texto defende uma visão de saber que só é alcançada na multidisciplinaridade.


Todavia, para os bibliotecários da biblioteca-universo, é a unidade do saber que interessa: um único livro ou método. Em um espaço cuja “[...] distribuição das galerias é invariável” (BORGES, 2007, p. 69) e, por isso, é ordenado, há também livros de conteúdos aparentemente aleatórios (BORGES, 2007, p. 71). A dúvida sobre seus significados leva à procura por uma possível lógica: “[t]ambém se esperou o esclarecimento dos mistérios básicos da humanidade: a origem da Biblioteca e do tempo” (BORGES, 2007, p. 74). Para isso, o narrador propõe axiomas, isto é, ideias que são aceitas como verdadeiras, dispensando provas: a Biblioteca é eterna, independente do bibliotecário e, por isso, divina; sua base está nos vinte e cinco símbolos ortográficos.


Porém, em diálogo com a influência de Crispino no outro conto, a procura pela Ordem reforça o cenário caótico - como aludido pela Babel do título -, com inúmeras vozes e idiomas, e inúmeros discursos: “[u]ma seita blasfema sugeriu [...] que todos os homens baralhassem letras e símbolos, até construir, mediante uma improvável dádiva do acaso, esses livros canônicos” (BORGES, 2007, p. 75). Ao lado disso, “[o]utros, inversamente, acreditavam que o primordial era eliminar as obras inúteis” (BORGES, 2007, p. 75).


É interessante apontar que, com isso, o texto reconhece a leitura de mundo como um ato individual que também tem raízes coletivas. A concordância entre leituras leva à formação de grupos ideológicos, dos idealistas aos místicos (BORGES, 2007, p. 70). O conto de Calvino aproxima-se de tais ideias ao dar atenção ao caráter social que a leitura possui. Inclusive, democrático, quando nos é apresentada uma passagem em que os alfabetizados leem para os que não conseguem (CALVINO, 2001, p. 77). Em meio a essa efervescência, oficiais e soldados “[...] não viam a hora de voltar para junto das pessoas, de retomar contato com a vida, que agora lhes parecia muito mais complexa, quase renovada aos olhos deles [...]” (CALVINO, 2001, p. 75).


Ainda cabe ressaltar que ambos os contos refletem sobre a manipulação do saber. O narrador da biblioteca-Babel discorre sobre um exemplo mais individualizado disso ao falar das Vindicações, “[...] livros de apologia e profecia, que justificavam para sempre os atos de cada homem do universo e guardavam arcanos prodigiosos para seu futuro” (BORGES, 2007, p. 74). Porém, “[...] a possibilidade de um encontrar a sua [...] é comparável em zero" (BORGES, 2007, p. 74). Podemos imaginar as implicações que uma posse como essa poderia significar. Também vimos as diferenças entre a seita e os Purificadores, termo utilizado no conto.


No início da narrativa de “Um General na Biblioteca”, o saber apresenta-se como ameaça aos militares, logo transformando-se em prazer. Como esperado de um indivíduo até então preso a um ponto único de vista, o General Fedina, ao final da investigação e diante de seus superiores, faz “[...] uma exposição um pouco confusa, com afirmações muitas vezes simplistas e contraditórias, como costuma acontecer com quem abraçou há pouco novas ideias” (CALVINO, 2001, p. 78-79). Ou seja, interesses e objetivos distintos dão significados múltiplos ao saber; têm-se os discursos.


Dito isto, notemos uma divergência: a natureza do saber. Situando a narrativa em um ambiente verossímil, Calvino nos leva a pensar no saber científico, construído ao longo da História e reunido em livros físicos. Já o narrador que vive na metafórica biblioteca de Babel admite e defende sua gênese metafísica. Assim, o saber é entendido também em caráter psicológico e religioso. Percebemos isso no mito do bibliotecário que, encontrando um livro que guardava todos os conhecimentos, tornou-se mais próximo da fonte universal, de Deus, da Ordem. Aqui, permitindo leituras diversas, temos a alusão a (entre outros nomes possíveis) Jesus Cristo, Maomé ou Buda, humanos que - por determinação anterior ou posterior a seus nascimentos - são compreendidos como próximos à esfera espiritual.


Tal quadro de elementos e as relações que sustentam são reveladores de textos nascidos em um período de desequilíbrio. De um lado, Calvino é direto ao confrontar a situação; do outro, Borges usa de uma metáfora ao atentar-se à existência humana baseada na busca pelo saber. À maneira de cada autor, a mensagem pretendida parece ser a mesma: resistência. Mesmo sem os bibliotecários, a Biblioteca guarda e materializa a verdade. Mesmo os moldados pelo autoritarismo podem ser atingidos pelo saber e movidos a compartilhá-lo, a alimentar o desejo pela verdade.


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¹Trabalho desenvolvido na disciplina Literatura Comparada I, ministrada pela Prof.ª Dr.ª Maria Elisa Rodrigues Moreira, no primeiro semestre de 2023.

²Graduanda em Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.



Referências


BORGES, Jorge Luis. A Biblioteca de Babel. In: BORGES, Jorge Luis. Ficções. Tradução Davi Arrigucci Jr. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. ps. 69-79.


CALVINO, Italo. Um General na Biblioteca. In: CALVINO, Italo. Um General na Biblioteca. Tradução Rosa Freire D’Aguiar. São Paulo: Companhia das Letras, 2001. ps. 74-79.


INSTITUTO LING. Jorge Luis Borges e sua influência nos contos literários. 22 jun. 2021.

Disponível em:

https://institutoling.org.br/explore/jorge-luis-borges-e-sua-influencia-nos-contos-literarios. Acesso em: 01 fev. 2023.


RASCUNHO. O legado de perseu. 01 fev. 2012. Disponível em: https://rascunho.com.br/noticias/o-legado-de-perseu/. Acesso em: 28 fev. 2023.

 
 
 

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