Histórias de café
- Revista Só Letrando

- 14 de ago. de 2024
- 3 min de leitura
Por Giovanna Arruda Jones Tabatini
"O café é pretexto...", costumava dizer um conhecido. "Café é pretexto."
"Plic!", "tic!", "pec!" As xícaras batem umas nas outras enquanto são lavadas na cafeteria. Quantas histórias essas xícaras já não escutaram?
Casais apaixonados, workaholics vidrados...
"Glup, glup, glup", um homem impaciente bebe em sua xícara. "Tic tac", olha no relógio. "Plin Plin", sorri aliviado. "Ela veio!" Ele pensa ao olhar para a porta. "Uau..." a xícara suspirou em fumaça enquanto a moça se aproximava. O homem não conseguiu esconder a alegria ao vê-la se aproximando. Ela que chegara tão sutilmente aos olhos do entorno, mas tão avassaladora aos olhos de quem a esperava.
A xícara desfumaçou para poder ouvir melhor. "Você está radiante!", a moça sorriu com certa vergonha.
"Muito obrigada! Gostei daqui..."
"Tec tec", a xícara resmungou ao ser carregada para longe daquela história, a qual ela nunca saberia o final. Será que eles vão ficar juntos? Será que vão casar, ter filhos… Ela nunca saberia.
Foi para outra mesa. Fumegava de alegria. Amava ouvir novas histórias!
"Olá...", a senhora na mesa falou em tom melancólico. As bolhas de café começaram a se mover de maneira triste. A xícara sabia que aquela seria uma história triste. "Como você está? Conseguiu descansar esses últimos dias?", a senhora olhava para o homem à sua frente.
"Do que ela está falando?", a xícara se questionava. O homem, em resposta à senhora, respondeu, compartilhando do mesmo tom melancólico, "Estou indo... ela faz falta".
Morte.
"Morte!" Era sobre morte que eles dialogavam...
"Você viu quem morreu também?" a mulher começou outra frase, mas no mesmo assunto.... "Ah, não! Mais tragédia?" Agora a fumaça que saía da xícara era uma miscelânea de frustração e raiva. Alguns clientes eram assim... e a xícara não gostava muito disso. "Gluuuuuup", o homem junto à senhora rapidamente consumiu o conteúdo da xícara.
Ele parecia estar com tanta pressa do líquido preto findar, quanto a xícara. "Parece possessão... é demoníaco isto!", ainda ouviu a senhora falando. A xícara olhou para os lados. Queria outra história. Estava aflita. Aquela era deveras angustiante. "Ela sofreu muito! Deixou ainda três filhos órfãos…”
"Ufa!" A xícara murmurou. Viu a mão de Dona Lizete, a moça que trabalhava na cafeteria, a segurando e a levando para longe daquela história e então ser lavada.
"Tec, plic, plac" A xícara ia dançando no pires até sua nova história. Fumegou de alegria e ao ser depositada na mesa, dançou mais um pouquinho e… nada. Nenhuma nova história. ‘Tic tec, tic tec”, deu risadinhas agudas ao sentir a colher mexendo no café e a fez sentir cócegas.
Ao ser levantada e ir em direção ao seu condutor, quase caiu de susto! Viu os olhos gigantes do moço através dos óculos. O moço a segurou com firmeza. "Gluuup", o moço bebeu o conteúdo quase inteiro em um gole só.
"Não", ela protestou a si mesma. "Não posso sair daqui sem ouvir uma história..." Percebeu então que o homem era quem lia uma história. Ria, suspirava e até derramou uma lágrima. Estava com um livro em mãos... Olhou para o livro, mas ela não sabia ler. Sabia ouvir. Ficou irritada pois não sabia do que se tratavam as risadas, a lágrima ou seus suspiros. "Gluuuuup", o homem acabou o café e se levantou. Sem contar uma só história à xícara.
Primeiro ela quis contestar, não gostou de não saber aquela história. Mas então se contentou… se contentou ao saber que, pelo menos, ele desfrutou de uma boa história, mesmo que ela não pudesse participar dela. Ou talvez, para o homem, aquela xícara trouxe mais doçura, quentura e alegria à história que ele desfrutava. Talvez ela até tenha sido a personagem coadjuvante daquela cena e, quem sabe um dia, não seria a personagem principal de uma história inteira.
O café era pretexto para aquelas pessoas compartilharem suas histórias umas com as outras, era pretexto para a xícara ouvi-las ou pretexto, até mesmo, para ler uma história em outro ambiente em boa companhia, amarga ou doce, à escolha do cliente...




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