Encanto: a família perfeitamente imperfeita
- Revista Só Letrando

- 1 de jul. de 2022
- 3 min de leitura
Por Carolina Armada Ciuccie
Não se pode negar que Encanto, último filme lançado pela Disney, foi um verdadeiro sucesso. Além de ganhar vários prêmios, como o Oscar de melhor animação e o Annie Awards pela melhor produção de longa-metragem, e de homenagear a cultura colombiana, que é muito pouco representada na grande mídia, ele toca em temas muito importantes, como o perfeccionismo tóxico e a saúde mental. Sobretudo, esse filme faz parte da nova leva de animações nas quais não há um vilão, mas sim um antagonista, como no caso do longa Red: Crescer é uma Fera. Tudo isso o torna muito identificável, inovador e absolutamente incrível.
Nessa obra, somos apresentados à família Madrigal que, por conta do sacrifício feito pelo avô Pedro e pelo luto e sofrimento da avó Alma (ou Abuela Alma, em espanhol), recebeu um milagre, por meio do qual ganharam um refúgio, cercado por montanhas, que abriga toda a comunidade que escapou junto com a família Madrigal, e uma casa mágica (a Casita). Além disso, todos os descendentes de Alma e Pedro, quando chegam a uma certa idade, ganham dons mágicos. Todos exceto a nossa protagonista, Mirabel. E é esta a base necessária para entender o que vem a seguir.
Ao longo da história, vemos que os personagens que habitam a Casita sofrem pressão de diferentes maneiras por conta das expectativas impostas. Tudo isso por conta do objetivo de passar uma imagem de perfeição, não só exigida pela matriarca Abuela, mas também esperada por todos que compõem essa comunidade. Enquanto isso, temos a trama de Mirabel que, mesmo sem buscar um dom mágico para si, deseja ajudar e ser reconhecida pelos outros membros de sua família do jeito que ela é. Então, quando rachaduras começam a aparecer na Casita, Mirabel vê isso como uma oportunidade de ajudar e salvar os seus familiares e, principalmente, de ser vista por sua avó.
Nos momentos finais do filme, é revelado o motivo de Alma sempre liderar todos com um punho de ferro, sem espaço para erros. No início do longa, é apresentada uma versão bem amenizada sobre a história da Abuela, perdendo seu marido e ganhando o milagre, porém, no final, essa tragédia é recontada com todo o seu impacto e glória ao som de “Dos Oruguitas”.
Abuela, com o objetivo de não perder mais ninguém nem o seu lar novamente, perde-se ao tentar manter a sua segunda chance e preservar a sua família de mais sofrimento. Percebe-se, então, que ela confunde o ideal que eles representavam com o verdadeiro milagre: as próprias pessoas, a sua família, que é perfeitamente imperfeita do jeitinho que deve ser. Por outro lado, Mirabel reconhece tudo pelo que a sua Abuela passou, o que torna o que esta fez algo compreensível, porém não justificável.
Quando Alma percebe os seus erros, não só as duas se perdoam, mas toda a família também perdoa a avó. É neste lindo trecho do filme que compreendemos que, ao querer fazer o certo, Alma acaba cometendo erros, o que é humano. Ao perceber isso e começar a trabalhar para melhorar, isso a torna a perfeita antagonista.
Por fim, Mirabel é reconhecida por todos de sua família, os quais começam, assim, a trabalhar em direção à recuperação, curando aos poucos todos os machucados obtidos durante esses anos e trocando o ressentimento pela compaixão. Tudo isso acontece por meio de uma metáfora efetiva, identificada na reconstrução da casa com uma nova estrutura.
Não se preocupe com os spoilers que acabaram sendo contados a fim de provar o meu ponto de que os principais temas desse longa são a saúde mental e o perfeccionismo tóxico. O filme ainda tem muito a oferecer, desde personagens tridimensionais e carismáticos até uma jornada incrível (pode-se descobrir, até mesmo, quem é o Bruno, já que não se pode falar dele).




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