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Eles te observam

  • Foto do escritor: Revista Só Letrando
    Revista Só Letrando
  • 14 de ago. de 2024
  • 3 min de leitura

Por Mariana de Abreu Brassica


Saia de seu emprego em seu horário religioso — seja lá qual for — e ande solitariamente pelas ruas que frequenta diariamente. Viva sua rotina como sempre, fingindo não notar as pessoas que se rastejam de fome pelas plataformas regadas a asfalto e piche seco. Coloque seus fones de ouvido se te faz sentir mais confortável, mas faça tudo exatamente como sempre faz, não mude nada.


“Eles te observam.”


Você deve notar isso escrito em algum lugar pela primeira vez, mas continue. Lembre-se, nada deve mudar, mesmo que as circunstâncias impliquem em uma mudança, evite-as ao máximo.


Infelizmente, hoje seus fones de ouvido descarregaram mais rápido que o normal, mas você não deve tocá-los. Mantenha-os incomodando suas orelhas e dificultando sua audição, afinal, nada deve mudar. Continue andando em seu ritmo normal, afinal, o clima está bom, e você quer aproveitá-lo, mesmo que o cansaço do dia faça-o clamar por sua cama.


Bem, continue andando e logo já terá percorrido metade do caminho para sua casa. Você imagina que todos os sinais que viu pelo caminho devem ser fruto da sua cabeça cansada e da sua imaginação extremamente fértil, afinal, você foi uma criança muito imaginativa durante toda a sua vida.


Mas eu lhe imploro: continue andando.


Mas claro, você nunca me escutaria. Você resolve parar e tirar os fones da orelha e, para isso, para de andar. Você mudou a rotina.


Assim que sua audição para de ser atrapalhada por aqueles eletrônicos, você sente a presença de algo ou alguém, mas ao olhar para todos os lados, tem a certeza de que a rua está deserta, exceto pela sua presença.


Volte a andar, o mais rápido que puder. Chegue à avenida, por favor, me escute.


Você volta a andar, mas junto do som dos seus passos, vem o som dos passos de outra pessoa, andando quase no mesmo ritmo que você. O som mantém-se constante, nem aumenta, nem diminui. Você olha para todos os lados imagináveis, mas continua não enxergando nenhum resquício de vida nas redondezas.


Seu passo começa a apertar, e o som do que quer que seja atrás de você, continua inundando sua mente, o que lhe deixa no mais profundo estado de desespero. O som continua a caminhar na mesma velocidade de você. Parece, inclusive, estar mais alto agora.

Quanto mais alto, mais perto.


Você então começa a correr, e também escuta o som dos carros na avenida. Seu coração se acalma levemente, mesmo que os passos continuem lhe perseguindo de maneira obsessiva. Seus olhos enxergam a luz dos postes mais fortes, as cores amareladas dos faróis. Sua esperança está ali.


E você alcança a avenida. Os passos sumiram.


Ande! Vá para sua casa descansar.


Abra a porta, jogue sua roupa no local de sempre, tome seu banho e vá deitar. Você merece esse descanso, então, aproveite.


No meio da noite, seus olhos vão se abrir, e você não poderá se mexer. Eu estou lhe assistindo no canto do quarto, afinal de contas, você não me ouviu.


“Faça tudo da mesma maneira.”


Você se esqueceu de trancar a porta.


E agora, seus olhos se mexem para todos os lados possíveis, evitando aquela imagem nefasta que está sobre seus lençóis, sobre o seu corpo. Você nunca viu e nem verá nada mais grotesco do que aquilo, observando cada parte do seu corpo, como a coisa mais saborosa do universo.


Afinal, eles estão te observando, mesmo enquanto você dorme, mesmo enquanto você não consegue se mexer.


E quando você gritar… eles estarão lhe devorando.


E, eu, te avisei.


 
 
 

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