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Distração

  • Foto do escritor: Revista Só Letrando
    Revista Só Letrando
  • 17 de dez. de 2022
  • 5 min de leitura

Por Bruno Ferreira Andrade


Antônio sempre foi um bocado distraído. Costumava deixar a geladeira aberta, depois de pegar a marmita e ir para o trabalho. No caminho, sempre errava a mesma entrada, esquecia de dar a mesma seta e tropeçava no mesmo meio-fio. Aquele fatídico meio-fio, pelo qual ele tinha que passar para se identificar - afinal, não era qualquer um que podia entrar na Reserva Florestal.


Ficava perto do Alberto Löfgren, na Locomotiva da garoa. Antônio era um dos guardas florestais, junto comigo e com Janaína.


Janaína, ao contrário de Antônio, prestava atenção aos mínimos detalhes. Sua memória fotográfica era tão aguçada, que sempre nos fez dispensar anotações. Junto à minha exímia habilidade em conversar com as pessoas e tirar informação delas, nós três nos tornamos heróis da nossa divisão. E foi num dia de atos heróicos, com o Sol servindo de medalha dourada, já se pondo ao Oeste, que recebemos um chamado emergencial.


“Família perdida na Trilha” lascou Antônio, surpreendendo a todos que estavam sentados nos sintéticos estofados da Delegacia Ambiental. “Pai com duas filhas, uma com tontura e um ferimento na perna”.


“Vou pegar o carro” Janaína emendou e saiu, prendendo os longos cabelos castanhos. Logo, estávamos nós três num camburão, Janaína ao volante e eu, com o Kit Médico em mãos. Nos embrenhamos na mata, junto com os últimos raios de luz da estrela-mãe.


Já conhecíamos aquele trecho. Não era a primeira vez que turistas desavisados cruzavam os limites do parque e não davam conta dos caminhos irregulares e cheios de pedras que a trilha da reserva abrigava. Mas dessa vez, havia algo diferente. Era como se a travessia da mata estivesse me marcando - eu só não sabia como.


O farfalhar da frondosa floresta fumegou, e foi nos falando que não poderíamos entrar com o veículo. Seguimos então, a pé, carregando nossas lanternas tal qual o padre carrega o crucifixo.


Dentre as samambaias que cresciam nas árvores, fomos passando. E uma conversa entrecortada somente pelos sons da natureza e de nossas pegadas, surgiu.


“Eles escorregaram na mesma rocha que a Dona Marta escorregou na quinta passada. Ele tava bem nervoso ao telefone.”


Fruc. Fruc. Fruc. Fruc.


“Não é pra menos. Já tá bem escuro. Não sei pra quê fazer trilha com criança.”


Fruc. Fruc. Fruc. Fruc.


“Você é pai experiente Bernardo, por isso que cê tem essa noção. Nem todo mundo é igual você."


“Ah Jana, mas não precisa ser gênio pra saber quando vai dar ruim. E agora, onde será que eles se meteram?”


Fruc. Fruc… Toc.


“Em algum lugar por ali” - Antônio apontou para uma lancheira cor-de-rosa largada no chão.


“Devem ter passado por aqui. Boa, Toni. Normalmente sou eu quem repara nessas coisas, não você”


Realmente. O Toni nunca teria reparado naquela lancheira. Parecia até que ele sabia onde ela estava. Comecei a pensar nisso, quando ouvi ao longe:


“Pai, acho que tem alguém ali!”


“Calma, filha. Oi? Seu Antônio?”


“Oi! Foi comigo que o senhor falou ao telefone. Tá tudo bem?”


“Ai, graças a Deus, por favor me ajuda! Eu acho que minha filha desmaiou!”


Então, nós três ficamos mais ouriçados. Começamos a seguir a voz, cortando os ramos no caminho, quando Jana segurou meu braço e apontou pro chão.


Havia um buraco enorme! Como eu não tinha visto aquilo? Aliás, como aquela família tinha passado por aquilo? Eu estava prestes a avisar o Antônio quando um pensamento muito forte perfurou minha mente. Era como se eu sentisse uma adaga rasgando todo o meu raciocínio, e dando lugar a um mantra involuntário: “Temos que sair daqui”.


Meus sentidos ficaram turvos: O cheiro de terra molhada invadiu minhas narinas de um jeito tão forte que quase me afogou. Minha visão se espiralou, e eu só pude ver e ouvir vultos coloridos. Mas senti minhas pernas se movendo.


Fruc. Fruc. Fruc.


Correndo - Fruc - Agarrando - Fruc - Agarrando alguém - Fruc.


Quando me dei conta, o fruc-fruc cessou e eu senti o estofado sintético outra vez. As formas borradas que meus olhos viam se distinguiram numa multidão de guardas, e na família apavorada envolvida num só cobertor. Pude ver, pela janela, sirenes e camburões de todos os tipos e tamanhos, menos o canalha do Antônio.


Era tão óbvio. Ele tinha forjado tudo! Eu precisava fazer alguma coisa, contra pra alguém… contar pra Jana! Tracei meu rumo cambaleando dentre os guardas, quando senti, de novo, sua mão no meu braço.


“Calma, vai ficar tudo bem.”


“Jana, eu preciso achar o Antônio!”


“Não. Eu sei, eu sei, eu sei de tudo. Mas confia em mim: Ele não vai mais incomodar!”

“O quê? Como você…”


Então eu olhei pra Jana, mas não a encontrei. Pelo menos, não inteira. Ela estava lá. Mas quem era ela? Senti uma coisa estranha, ela nunca tinha me olhado daquele jeito antes. Aqueles olhos… que olhos eram aqueles?


“Aquele peso morto não vai mais nos atrapalhar. Vamos poder fazer nosso trabalho em paz.”


“Então foi você?” Falei, lenta e pausadamente.


“Nem tudo. Aquele pessoal da trilha apareceu no lugar certo, na hora certa. Eu só precisei cantar. Vamos, deixa eu te ajudar…”


“Não me toca! Fica longe de mim!” Minha cabeça ainda latejava, e meu corpo pesava. “Preciso achar o Antônio…”


Então, senti um outro toque daquela mulher. Um toque mais forte, mais firme e até doloroso.


“O que eu mais quero é ajudar, Bernardo. Ajudar pessoas. Só que não todas. Você pode tirar quantas pessoas quiser da mata, mas ele não vai sair de lá!”


E então, eu comecei a ouvir uma melodia. Feita por uma única voz, mas com o volume de um coral. Ninguém naquela multidão parecia ouvi-la, só eu. Meus sentidos se confundiram, e aquele transe louco recomeçou. Só que, dessa vez, eu ainda podia ouvir Janaína claramente. E vê-la também.


Ela estava irresistível. Seus olhos invadiram o fundo dos meus, e seu cabelo se esvoaçou como os tentáculos de um polvo. Como a juba de um leão, ou como as pétalas de um girassol. Eu estava rendido. Admirado. Nada mais importava, só Janaína. Janaína. Janaína. A voz dela começou a entrar no vácuo da minha mente oficina:


“Eu te chamo, e você vem. Seu corpo, pro meu palácio. Sua alma, pro além”


Janaína era a única coisa que importava.


“Eu te chamo”


Janaína sempre estava certa


“E você vem”


Janaína era minha rainha, minha mestra.


“Seu corpo, pro meu palácio”


Não dava pra resistir a mais nada


“Sua alma, pro além”


De súbito, eu acordei. Não lembrava ao certo o que tinha acontecido. “Que sonho estranho - ai que sonho estranho…”. Em seguida, olhei pro relógio: “Meu Deus, eu tô atrasado!”


Correndo, eu me vesti e peguei a marmita na geladeira. Na pressa, acabei deixando a porta aberta.


Eu sempre fui um bocado distraído. Parece até que minha cabeça vivia no além.


 
 
 

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