top of page

De um passado esquecido

  • Foto do escritor: Revista Só Letrando
    Revista Só Letrando
  • 8 de ago. de 2023
  • 6 min de leitura

Por Vinicius Souza


Tudo ainda está um tanto turvo. Nada está muito claro. Não me recordo de como vim parar onde estou, mas sinto falta de meus pais, eles não estão aqui. Me lembro de estar caminhando ao lado deles em meio ao deserto sem fim, somente algumas ruínas à vista e nada mais.


Agora, estou dentro de uma.


O Sol se pôs, e elas são os únicos refúgios em meio às dunas. Meus pais diziam que, no passado, elas se chamavam prédios e que chegavam a tocar as nuvens, embora atualmente estejam, em grande parte, soterradas. Recordo-me de ter visto incontáveis ruínas, tão próximas que pareciam um único conglomerado de escombros, como os restos de pilares destruídos. Eram resquícios daquilo que meus pais chamavam de “cidade”. Boa parte ainda despontava sobre a areia, tanto que era possível ver as estradas negras que existiam entre os prédios. “Se chama asfalto, Sofia, era por ali que os carros iam e vinham”, disse minha mãe depois que a questionei sobre o que eram, o que me trouxe ainda mais perguntas.


Carros; máquinas que se moviam e deixavam de se mover ao desejo humano a fim de transportá-los. Meu pai havia me contado sobre eles, dando tantos detalhes que quase podia vê-los serem montados, peça por peça, em minha mente, e começarem a funcionar: os motores à combustão rugindo e os elétricos zunindo, transitando por aquelas ruas, como se o cataclisma nunca tivesse acontecido. Provavelmente, fantasiaria que foram criados por magia e eram movidos por ela ou, se me permitisse ir mais longe, que suas carcaças seriam os restos mortais de algum animal extinto, caso ele nunca tivesse me contado. Todavia, ao voltar para a realidade, tudo o que resta são seus esqueletos metálicos e, talvez, pouco de seu significado.


Os ventos incessantes silvavam por entre as incontáveis frestas da ruína. A luz do luar invadia o inclinado edifício, os inúmeros fachos lívidos, que oscilavam sutilmente em meio ao ambiente, vindos de cima e dos lados. Por fora, encoberto pelas dunas. Por dentro, não muito mais que alguns anos de areia, trazida pelas correntes de ar, decorava o cinzento interior; somente um pouco mais profundo que a superfície desolada, junto a móveis quebrados — desgastados ou arruinados, de madeira ou metal —, estilhaços de vidro e pedaços de máquinas menores.


Meu saco de dormir é a única coisa que me separa do chão áspero e do frio, mesmo que não tanto. Por mais que esteja acostumada a dormir em posições mais oblíquas que essa, não posso dizer que, em algum momento, é confortável. Minha mochila está ao lado, dentro dela não há muito mais que alguns papéis, dois cadernos, dois livros, duas garrafas de água e alguma comida, a maioria enlatada ou em algum tipo de pote. Estou racionando como posso, ainda que isso não tenha tanto sentido. Não é como se eu estivesse indo a algum lugar ou em busca de alguma coisa.


Meus pais não estão mais comigo, embora isso não signifique que eles tenham sumido. Ao menos, não significa que não sei o que aconteceu a eles. Há dois meses, eles pereceram lentamente, estavam desidratados e anêmicos em seus últimos instantes, quase como cadáveres cuja vida se foi há anos. Levei os corpos dos dois para um refúgio próximo e, por alguns dias, esperei que acordassem de seus sonos, enquanto chorava em algum dos cantos onde a luz do Sol não alcançava. Só o pensamento de ir até eles outra vez, me aproximar e perceber que a realidade não poderia ser alterada por minha imaginação, fazia o ar em meus pulmões ficar mais denso, o sangue em minhas veias mais vazio e a ânsia surgir em minha garganta. Em algum momento, juntei as forças que me restavam e peguei o que havia em suas mochilas e guardei na minha, haviam folhas de papel, livros e cadernos com trancas, assim como três latas de comida enlatada, um cantil com água e um pequeno dispositivo branco retangular - as bordas suavizadas e com certa iluminação sob a superfície que formava alguns símbolos -, esse último que deveria ser entregue a alguém em um lugar chamado “Dentremontes”.


Minha mãe havia me entregado sua espada alguns dias antes, pedindo para que a carregasse. Eu não havia entendido o motivo... não havia entendido. Pensei em devolvê-la antes de sair daquele lugar, pensei em deixá-la com sua verdadeira dona, sua portadora. No entanto, não consegui me desfazer dela, não consegui abandoná-la. E quase não consegui abandonar minha mãe e meu pai naquela ruína artificial e decadente. Eu disse coisas para eles até não restar palavras em minha mente, até entender que não havia ninguém para escutar além de mim mesma. Por fim, os coloquei em seus sacos de dormir, os quais fechei antes de deixá-los.


Foi a última vez que os vi. E até o fim dos tempos será.


Cada dia que se passa, sem qualquer coisa além das infinitas dunas, do som do vento e do calor, sinto que eu também deveria ter morrido, que estou apenas fingindo ser resiliente enquanto espero meu fim. Não sigo direção nenhuma. Não me lembro para onde estávamos indo. E não há nada para mascarar isso, nada que me obrigue a esconder meu vazio e nada que me ajude a esquecer dele.


No entanto, estou mentindo ao dizer que quero ser levada ao oblívio. Estou mentido ao dizer que desejo a morte. Ao cair da noite, me escondo. Olho para a espada na bainha, imaginando-a em minhas mãos, a lâmina reluzindo com a luz da Lua e das estrelas, e sabendo que a usarei para me proteger.


Sou uma existência confusa em meio ao deserto; uma existência controversa. Já não sei mais ao certo qual o sentimento de estar viva ou, mesmo, se minha voz é realmente minha. Não tenho motivos, não tenho razões. Cada pensamento e lembrança somente me levam para ruas sem saídas e contradições, confundindo ainda mais a minha mente fragilizada.

Tudo que sei é que estou sozinha.


Não me recordo de ter encontrado qualquer humano além de mim mesma e meus pais em toda minha vida. Talvez eu seja o último ser humano vivo; talvez eu seja a única. Na melhor das hipóteses, sou a única da qual tenho conhecimento.


Não consigo dormir. Lampejos brancos e azulados adentram as janelas e rachaduras na parede à minha direita. Temo por não saber o que está causando-os. Sinto como se algo bloqueasse minha garganta e não pudesse respirar corretamente. Estou estressada. Estou frustrada. E não há muito que possa fazer além de observar o teto e as frestas nele - que revelam o infinito e profundo azul e suas estrelas brilhantes; que apenas me fazem diminuir cada vez mais dentro do vazio em meu peito - e tentar fingir que nada está acontecendo. No mínimo, tento até não conseguir suportar mais.


Ao me dar por conta, minha mochila já está em minhas costas, junta ao saco de dormir enrolado e amarrado, e minha mão esquerda aperta a firme bainha metálica da espada de minha mãe. Não sei se permanecer aqui me manterá segura. Pode ser que eu morra se ficar parada. Pode ser que eu morra se sair. Em qualquer uma das possibilidades, eu prefiro descobrir o que está acontecendo.


“Se for para que meu coração pare de bater, meus pulmões parem de inflar ou meu cérebro pare de pensar, quero, ao menos, saber o que me levará ao esquecimento infinito”, digo para mim mesma em voz alta.


O som do solado de minhas botas contra o chão áspero - e a camada de areia sobre ele - ecoa pelo amplo cômodo decadente. Escalo um caminho de escombros até o piso superior, me dirijo a uma das amplas janelas que o compõem - onde antes deveria haver uma grande vidraça transparente e agora não havia mais que uma moldura vazia - e a atravesso, deixando para trás a segurança daquele abrigo, aquele resquício de uma época anterior a minha existência.


O vento incessante e gélido da noite nos ermos açoita minha pele, carregando em si minúsculos projéteis que atravessam, ainda que pouco, as vestes sobre meu corpo e que parecem lixar até minha alma. O lenço que cobre minha cabeça e a parte inferior do meu rosto não parece ser suficiente para impedir que a areia chegue às minhas vias aéreas ou à minha boca. Somente os óculos sobre meus olhos parecem oferecer alguma proteção real, ainda que o barulho contínuo dos grãos se chocando contra ele não seja dos mais agradáveis para se escutar por muito tempo.


Meus rastros desvanecem na areia, levados lentamente pelos ventos gélidos e, então, apagados. Apenas um inconstante e fugaz cintilar azulado atravessa o breu, brevemente ofuscando a lua e as estrelas como um farol ainda em funcionamento, perdido no fundo de um oceano que já não existe. Gostaria que não estivesse indo em sua direção, mas algo naquela luz me cativa, algo que não tenho palavras para descrever, me traz um calor confortável em meio às noites glaciais nestes ermos. Um calor ao qual tentei resistir, ao menos, até agora. Só espero não estar caminhando em direção à fogueira em que serei incinerada.

 
 
 

Comentários


Post: Blog2 Post

©2020 por Só-Letrando. Orgulhosamente criado com Wix.com

bottom of page