Construção
- Revista Só Letrando

- 14 de ago. de 2024
- 2 min de leitura
Por Isabelle Callegari Lopes
Os olhos se fechavam, quase involuntariamente. Já se passavam das duas, estava quente e chuvoso. Hélio tomava sua terceira caneca de café extra forte, que queimava sua garganta e machucava sua úlcera. Dois moleques chegavam bêbados, e talvez até chapados, falavam e riam alto. Eles bagunçavam, mas era em Hélio que as reclamações vinham. Inferno, inferno, inferno.
O dia amanheceu. Calor. Sol. Luz. Inferno. Hélio, naquela roupa ridícula, quente. Ajuda nas compras, Hélio - dizia aquela velha. Hélio sorria, sorriso com gosto de sangue, era a úlcera. Vermelho, era a cor das sacolas, cor da ferida do seu estômago. Levou todas.
Hora de ir embora, mas longe de acabar seu longo sábado. O homem de 40 com aparência de 20 anos mais velho ainda tinha seu próximo serviço: ajudante de pedreiro.
Passou em casa e se esbaldou no seu prato de arroz e feijão, sua fome era tanta que comeu como se fosse um príncipe. Não era à toa, o homem de meia-idade passara fome durante boa parte da vida, a mudança de sua família para a capital de seu estado pouco mudara sua situação. Só o expôs para as criminalidades, o que ele também não era bom, muito bobinho - ouvia constantemente. Diante seu crescimento rodeado de bullying, caos e discriminação, era o arroz com feijão que sua mãe preparava que fazia tudo aquilo dissipar da sua mente. O prato servido, preenchia as camadas do seu corpo e alma, esse era um dos únicos prazeres genuínos do então jovem rapaz. Naquele quarto dia, anos distantes de sua juventude, Hélio sentia o mesmo prazer.
Próximo expediente. Inferno. A sua esposa reclamava, as contas nunca se fechavam. O Paulinho precisa fazer aquele curso, pega mais obra. Paulinho era o caçula dos quatro, o estudioso. Sonhava em fazer medicina, ou qualquer outra profissão que usasse jaleco. Inferno. Por que o menino não se contenta? Mistura de orgulho e raiva. Mas beijou sua mulher como se fosse a última, ela realmente era.
Não usava ônibus, preferia ir caminhando. Para Hélio, aquele era seu único momento de paz. O caminho era complicado, calçadas esburacadas e desniveladas. O homem não se importava, nesses caminhos era transportado para longe. Trabalhar em obras era um grande desgosto, ele se dedicava para uma construção que depois não poderia nem passar na frente, o bairro de classe média desconfiaria da presença de um homem como ele ali. Seria enquadrado, no mínimo. Qualquer deslize era fatal, isso sua mãe sempre o alertara.
Pense no Paulinho, pense no Paulinho, pense no Paulinho. Inferno. Aquele calor ardido, sua mão envolta de cimento, tinha em todo seu corpo. Erguia quilos e quilos, odiava cada segundo. Hora de ir embora, Hélio bloqueava sua mente no período do trabalho, habilidade que ele aprendera desde cedo, era seu instinto de sobrevivência.
O caminho da volta era sempre mais tortuoso, para um homem como ele ali era imprescindível caminhar no mesmo ritmo, nem muito rápido e nem muito devagar.
Olhar para frente, mãos soltas e visíveis. O problema não era ele, mas ele não sabia. Farol aberto para os pedestres, olhou e foi, inesperadamente um carro avançou pela contramão, um carro de luxo. Hélio foi atingido e arremessado a metros de distância, morreu ali mesmo, atrapalhando o público. Inferno.




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