top of page

Aos pés da loucura

  • Foto do escritor: Revista Só Letrando
    Revista Só Letrando
  • 17 de dez. de 2022
  • 4 min de leitura

Por Alex Sandro de Lima Silva


Era 19:30 de uma sexta-feira quando tudo começou. Não me recordo bem qual foi o motivo da briga ou quem foi o verdadeiro culpado, apenas me lembro dos gritos vindo de minha mãe e irmã, e a algazarra do cachorro que se engalfinhava com o gato.


Uma verdadeira bagunça que me causou remorso por longos dias. O fato é que, depois deste episódio que estou prestes a relatar, passei a refletir com frequência o quanto o coração humano pode se tornar densas trevas. Isto porque senti o mal se apoderar por alguns instantes do meu e me incitar a fazer coisas inimagináveis.


As coisas aconteceram mais ou menos assim: a noite estava quente pois o verão havia chegado mais cedo, o céu estava limpo e pintado de estrelas, o ar estava abafado sem nenhuma brisa para amenizar o incômodo. Eu havia acabado de chegar em casa, ainda vestia o uniforme, quando me sentei no sofá e fiquei ali por algum tempo, preguiçoso, satisfeito em saber que no dia seguinte eu estaria de folga.


Foi nesse instante que notei algo diferente, talvez fosse apenas impressão minha, ou até mesmo uma má interpretação da situação. Notei que minha mãe se encontrava no quarto, quieta, desconfiada, e aquilo me chamou a atenção, pois sua mania sempre foi de aparecer contando as novidades do dia, me atualizando das coisas fúteis que ocorreram enquanto estive ausente. Por isso, percebendo sua estranheza, entrei em seu quarto, sentei ao lado de onde ela estava deitada e lhe perguntei, sem rodeios, o que havia acontecido.


A mulher não respondeu, e mesmo depois que repeti a pergunta, ela permaneceu calada. Aquilo começou a me dar nos nervos, e por isso me levantei e fui até o quarto do meu irmão, que imaginei já estar em casa, na esperança de solucionar o mistério.


Bati à porta, uma, duas, três vezes, e, assim como minha mãe, a reação foi um profundo silêncio. Por um instante, considerei que ele talvez não tivesse chegado em casa; até que, na quarta tentativa, bati à porta e ele me respondeu.


É neste ponto da história que a coisa toma um manto obscuro e diabólico, caro leitor, pois meu nervosismo naquele instante foi levado às alturas, quando sem motivo aparente, meu irmão começou a me ofender com incontáveis palavrões. Sem entender o porquê e movido por um desejo de revidar, desci apressado pelas escadas e, talvez pela sede de vê-lo tremer diante de mim, entrei na cozinha. Irado, na verdade, possesso por uma força estranha que fervilhava meu sangue, procurando qualquer coisa que fosse suficiente para atentar contra sua vida. Creio que foi a Divina Providência que, naquele instante, cobriu meus olhos com um manto opaco, pois mesmo que eu revirasse as gavetas em busca de alguma faca, nada encontrava, apenas via aparecer diante de meus olhos os garfos, as colheres, os pratos e outros objetos disformes.


Talvez pela barulheira que eu havia feito no andar de baixo, ou talvez pela própria intuição do diabo, meu irmão desceu na mesma velocidade, aos berros, sabendo que eu procurava uma arma para matá-lo.


“Cachorro! Imundo! Vem me enfrentar” gritava, enquanto avançava para cima de mim.

Eu, temendo que sua loucura fosse suficiente para dar cabo da minha vida, pois seus olhos refletiam o puro desejo de vingança, começamos uma dança macabra, um tentando derrubar o outro ao chão, cada um a fim de ganhar a disputa. Meu coração acelerou, minha pele empalideceu, temi a morte e, por isso, agi sem pensar. Ou melhor, pensando em me salvar, fui e desferi um golpe poderoso, isto é, agarrei com os dentes o seu dedão da mão direita, fazendo-o gritar na mesma hora enquanto perdia as forças, afrouxando um pouco o aperto na gola da minha camisa.


“Ele tá me mordendo! Ele tá me mordendo” gritava. De repente, entrou minha mãe junto de minha irmã, aos berros e soluços, e começaram a intervir na briga.


A situação ainda se agravou, porque elas entraram na cozinha e deixaram a porta aberta, e nosso cachorro, um jovem Pastor Alemão enérgico, entrou na casa e começou a perseguir o gato da minha mãe que, aos miados assustados, travava uma luta mortal pela sua sobrevivência.


Assim, em questão de alguns minutos, sem saber ao certo como tudo aquilo começara, uma balbúrdia já havia se instaurado em minha casa. Os vizinhos foram despertados, as autoridades foram acionadas, os curativos foram preparados e a minha fuga para a casa de minha irmã foi executada – pois as últimas palavras da minha querida mãe foram “ele irá matá-lo”.


O que me surpreende, mesmo agora, é o fato de ter tentando arrancar o dedo de meu irmão, disposto a devorá-lo, como se de alguma forma, toda minha capacidade de raciocinar e todas as minhas emoções fossem suplantadas pelo ódio e pela vingança, tornando a minha pessoa em uma terrível besta. Com isso, desde aquele dia, vejo o quão tenebroso o nosso interior tem capacidade de ser, densas trevas podem nos dominar nos levando a ser escravos dos instintos primitivos que, ao meu ver, só podem ser explicadas pela queda de Adão. Por enquanto, cabe a mim retornar ao meu lar e buscar uma reconciliação.


 
 
 

Comentários


Post: Blog2 Post

©2020 por Só-Letrando. Orgulhosamente criado com Wix.com

bottom of page