top of page

Afinal, o que é o amor?

  • Foto do escritor: Revista Só Letrando
    Revista Só Letrando
  • 14 de ago. de 2024
  • 8 min de leitura

Por Júnia Campos


Para compreender o que é o amor, é preciso, antes, desvinculá-lo de algo que muitos atrelam a ele e, por vezes, acreditam ser a mesma coisa: a paixão.


Segundo o Dicionário Aurélio, a paixão é: “sentimento, gosto ou amor intensos a ponto de ofuscar a razão”. Porém, essa definição além de não ser precisa também não é verdadeira — não completamente.


Mas, para analisar tal descrição, é importante fazer uma outra distinção: sentimento de emoção. Resumidamente, a emoção trata-se de reações instintivas, uma resposta neurológica à estímulos externos, isto é, a algum evento, que envolve três fatores: experiência subjetiva, uma resposta fisiológica e uma resposta comportamental.


Desse modo, o cérebro desencadeia um conjunto complexo de respostas no organismo, geralmente rápidas, como: aceleração cardíaca, contrações musculares ou sensação de falta de ar. Provocando, assim, o choro (tristeza), grito (surpresa) ou sorriso (alegria). Existem diversas emoções e elas são classificadas como primárias (básicas) e secundárias (complexas), sendo estas uma mistura das emoções primárias, consequentemente, mais fortes. Por exemplo, raiva e tristeza combinadas, produzem inveja.


Já o sentimento é o que acontece — ou não — após uma emoção ser experimentada, dependendo da intensidade. A raiva (emoção) pode se transformar em ódio (sentimento), ou frustração (emoção) pode vir a se tornar rejeição (sentimento). E enquanto as emoções não têm relação com o pensamento, o sentimento é uma construção consciente em detrimento da emoção. Um faz parte do corpo, do exterior, e é visível aos olhos, o outro está ligado à mente, ao interior, logo, ocorre no privado e só é exposto caso a pessoa que o possua decida colocá-lo em evidência.


Dito isso, eis a questão: a paixão é mesmo um sentimento? Pois, se ela “ofusca a razão”, significa que quem a experimenta não tem capacidade de raciocinar, claramente, acerca da realidade. Nelson Hungria Hoffbauer, considerado um grande penalista brasileiro, disse — abreviadamente — que: “a paixão é a emoção mais intensa, uma perturbação duradoura afetiva que fere o equilíbrio psíquico e gira em torno de uma ideia fixa, um pensamento obsessivo”.


Immanuel Kant, filósofo alemão e um dos principais pensadores de sua época, foi pioneiro em solucionar discussões entre racionalistas e empiristas. No que se refere à emoção e paixão, declarou: “A emoção é a água que rompe com violência o dique e se espalha rapidamente; a paixão é a torrente que escava o seu leito e nele se incrusta. A emoção é uma embriaguez, a paixão é uma doença”. (KANT, 1981. p.104-105).


A palavra paixão vem do latim “passio” (-onis) e significa passividade ou sofrimento. Já no grego, “pathos”, significa doença. O que confirma a declaração de Kant. Também afirma o que Hungria disse sobre a paixão. Ela é uma emoção tão profunda que é como se, sozinha, fosse uma emoção à parte das demais, como um tipo diferente — e, de fato, ela é. Porém, embora tão exagerada, ela tem prazo de validade.


A psicóloga americana Dorothy Tennov, realizou estudos de longo prazo sobre o fenômeno da paixão e, após analisar um grande número de pessoas, concluiu que o tempo médio da obsessão romântica é de, no máximo, 2 anos. Outro ponto que vale ressaltar é que a paixão tem etapas de evolução e em seu ápice provoca grande euforia. Mas a realidade sempre voltará para o seu devido lugar e essa emoção se vai. Para alguns mais cedo e, para outros, mais tarde. Agora que a paixão foi desassociada do amor, é possível começar a interpretá-lo.


Diversos psicólogos ao redor do mundo concluíram que o amor é uma necessidade primária inerente a todo ser humano e, caso essa necessidade não seja devidamente suprida ainda na infância, a criança não se tornará um adulto emocionalmente estável e terá dificuldades sociais. Somente com essa introdução, simples e superficial, fica evidente a dimensão e o peso que o amor possui. Embora a paixão seja avassaladora, ela é efêmera. No entanto, o amor é aquilo que se precisa antes da paixão e que continuará sendo necessário após ela. A seguir, será perceptível que o que separa a paixão do amor, é um abismo!


O Dr. Ross Campbell, psiquiatra especializado no tratamento de crianças e adolescentes, fez a seguinte metáfora (parafraseada): dentro de toda criança existe um “tanque de amor” que deseja ser preenchido. Quando esse tanque está cheio de amor, a criança se desenvolve normalmente. Em contrapartida, um “tanque de amor” vazio origina a maior parte dos comportamentos inadequados das crianças. Esse “tanque”, cheio ou vazio, permanece com cada um ao longo de toda a sua vida.


Muitas vezes, a paixão cria a sensação de estar suprindo essa necessidade, mas quando ela se esvai, o que fica é apenas um buraco que, em breve, conduzirá o indivíduo a uma busca desgovernada pelo amor — porque é algo fundamental à natureza humana — que, por vezes, se dá nos lugares errados e de forma errada, quando não se tem uma noção clara do que é, afinal, o amor.


Então, o amor é uma necessidade humana? Sim! Porém, ele não se define ou se resume em uma necessidade apenas, se trata de algo muito maior. É o ato mais poderoso que alguém pode exercer sobre o outro. E, sendo uma ação, significa que pode ser escolhido fazê-lo ou não  isso se chama livre-arbítrio. O Dr. Gary Chapman, pastor, palestrante e escritor estadunidense, formado em teologia, educação religiosa, linguística, antropologia e artes, escreveu uma série de livros com o foco em desvendar o mistério do amor: o que é, sua importância e como demonstrá-lo, para diversas faixas etárias e níveis de relacionamento.


O seu best-seller do New York Times, “As 5 Linguagens do Amor”, apresenta o tema em questão de forma didática elucidando o que, há muitos anos, leigos e estudiosos tentaram explicar. Segundo ele, o amor não é um sentimento ou emoção mas, sim, uma escolha: É um ato genuíno que nasce na razão e opção, não do instinto” (CHAPMAN, 2013. p.31). Uma escolha que, por vezes, pode ser desafiadora ou quase impossível, para alguns, porque requer disposição, esforço e disciplina.


Outro nome muito conhecido por seu best-seller, também do New York Times, é Daniel Jones, fundador da coluna “Modern Love” que, mais tarde, veio a se transformar em um livro e uma série. Ele disse em uma entrevista de rádio, de maneira sucinta: “amor é um ato de coragem, ou muita” (JONES, 2019. p.7). Essas palavras, isoladamente, são suficientes para tirar qualquer um da sua zona de conforto mas, postas lado a lado, como um combo, é, sem dúvidas, o maior confronto que alguém pode travar consigo mesmo, contra todos os sentimentos, emoções ou situações adversas.


A Bíblia, conjunto de livros sagrados para o cristianismo, está carregada de textos dedicados ao amor, o mais conhecido, porém, pouco compreendido, se encontra no livro de 1 Coríntios, no capítulo 13, do verso 4 ao 7, que diz: “⁴ O amor é paciente, o amor é bondoso. Não inveja, não se vangloria, não se orgulha. ⁵ Não maltrata, não procura seus interesses, não se ira facilmente, não guarda rancor. ⁶ O amor não se alegra com a injustiça, mas se alegra com a verdade. ⁷ Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta” (NVI)


Essa passagem ilustra o amor em sua essência, de forma transparente, revelando que é uma prática simples, para aqueles que são capazes de assimilar tamanha verdade, gerar e conceber em seu interior, transmitindo-o com graça a quem for. Afinal, o amor é um ato, também, de perdão, para ser exercido com aqueles que  aos nossos olhos  não merecem. No livro de 1 Pedro, capítulo 4, verso 8, diz: “Sobretudo, amem-se sinceramente uns aos outros, porque o amor perdoa muitíssimos pecados” (NVI)⁸.


Diante disso, é notório quão vasto é o amor. É o objeto de maior ânsia da alma, que só é desenvolvido através de um árduo e contínuo trabalho. Mas, embora amor seja amor, em qualquer circunstância, cada um vive-o de uma maneira específica. William Shakespeare, em seu poema “O Menestrel”, afirma que: “só porque alguém não o ama do jeito que você quer que ame, não significa que esse alguém não o ama com tudo o que pode, pois existem pessoas que nos amam, mas simplesmente não sabem como demonstrar ou viver isso”.


Retomando às conclusões de Gary Chapman, após mais de 40 anos de estudos e aconselhamentos na área do amor, ele, enfim, conseguiu ir à raiz do que Shakespeare constatou e retorna, agora, com uma resposta plausível: o amor possui 5 linguagens e diversos dialetos. É por isso que muitos “não sabem amar”, pois não identificaram a linguagem que as pessoas ao seu redor sentem-se amadas e, como poderiam? Eles ao menos reconhecem a sua própria linguagem de amor: a forma como sentem-se amados. O amor é um, mas a maneira de expressá-lo varia e muito.


Bem, as linguagens são: palavras de afirmação (palavras encorajadoras, gentis, humildes ou elogios, são alguns dialetos); tempo de qualidade (dar atenção completa a alguém, de maneira intencional. Trata-se de uma conexão íntima e profunda, podendo ocorrer por meio de conversas ou alguma atividade que faça sentido para a pessoa. Essa linguagem inclui uma boa capacidade de se comunicar e ouvir; presentes (podendo ser a si mesmo, fisicamente, em um momento importante, ou alguma coisa material — que pouco tem haver com valores — é sobre a intenção por trás do presente em si); atos de serviço (diz respeito a gestos, pequenos ou grandiosos, de colaboração); toque físico (são atitudes de carinho para com o outro, podendo ser demonstrados em público ou não, como abraços ou um cafuné. E, para os casais, pode-se incluir o sexo como um dos atos de afeto também).


Todas essas frentes de apreciação e manifestação do amor são universais — podendo alterar os dialetos de uma cultura para outra. Mas, não se trata de barganha, uma operação de troca, na qual se fala a linguagem do outro para receber amor de volta — isso seria o oposto do amor. É sobre considerar a maneira que o outro sente-se amado e dar isso a ele, de livre e espontânea vontade, genuinamente, com o objetivo exclusivo de se doar em sua máxima — isso é amor! Clive Staples Lewis - mais conhecido como C.S. Lewis — foi um grande escritor Irlandês, além de professor universitário, crítico literário e teólogo. Autor de inúmeros — e famosos — títulos. Lewis também desenvolveu um livro que discorre sobre o amor, na perspectiva cristã, “Os Quatro Amores”.


Em sua obra apresenta o amor através de quatro palavras gregas que, basicamente, divide o amor em quatro níveis distintos, de acordo com o nível de relacionamento que se tem estabelecido com cada um:  o primeiro é o “Storge” (refere-se ao amor sentido pela família); o segundo, “Philia”, (é o amor entre amigos); em terceiro está o “Eros” (é o amor romântico); e em quarto lugar, o “Ágape” (o amor incondicional e divino).


Embora seja uma noção cristã, Lewis foi coerente em suas afirmações, afinal, poderá alguém amar um amigo no mesmo nível que ama sua mãe ou o cônjuge? Por causa dessas e muitas outras questões referentes ao amor, por séculos, inúmeras pessoas iniciaram uma jornada de busca para construir um conceito. No entanto, nem mesmo todas as ponderações ao longo do tempo foram suficientes para chegar a um único pensamento.


É por essas razões que parece tão complexo entender o amor, senti-lo e demonstrá-lo. Pois, o amor, é uma imensidão latente e patente — ao mesmo tempo. Um grito do âmago para o mundo, uma necessidade básica para sobrevivência, um ato autêntico e uma escolha lúcida, cristalina. O alicerce, fundamento sólido que sustenta todas as coisas. Um compromisso, uma aliança, um contrato assinado com a fidelidade de promover a felicidade, qualquer que seja o tempo, custe o que custar. Um cheque de renúncia e sacrifício do ego, do orgulho, da individualidade, para pagar e garantir o bem, o prazer e a alegria plena de alguém.


 
 
 

Comentários


Post: Blog2 Post

©2020 por Só-Letrando. Orgulhosamente criado com Wix.com

bottom of page