A vida invisível de Eurídice Gusmão, de Martha Batalha
- Revista Só Letrando

- 1 de jul. de 2022
- 3 min de leitura
Por Ana Karoliny Azevedo Silva
Quando Eurídice Gusmão se casou, não sabia ao certo a razão. De filha exemplar, passou para o papel de esposa dedicada. Os bons adjetivos seguiam Eurídice em todas as diferentes facetas que assumia. Quando seus filhos nasceram, não foi diferente; nasceu também uma mãe amorosa. Não havia nada que Eurídice Gusmão não pudesse fazer com excelência, embora ela nunca tenha efetivamente escolhido nenhuma das funções que exercia.
Dona Ana e Seu Manuel também a consideravam uma boa filha e, até certa altura, diziam o mesmo sobre Guida Gusmão. Elas eram meninas de seu tempo, faziam o que os pais mandavam e guardavam para si as próprias vontades. No entanto, enquanto Eurídice sabia - ou pensava saber - recolher na cabeça seus sonhos e aspirações, Guida fez as malas e fugiu junto ao namorado.
Escrito por Martha Batalha, A vida invisível de Eurídice Gusmão foi publicado em 2016 e conta a história das irmãs Eurídice e Guida. O enredo começa seguindo a vida de Eurídice e a maneira como ela se inseria na sociedade carioca como uma mulher de classe média nos anos 1940. Eurídice tinha tudo aquilo que o consenso social da época dizia ser ideal: seu marido era trabalhador, os dois tinham uma casa bonita e a geladeira cheia, e as crianças eram saudáveis.
O que se segue nas páginas em que a narrativa se volta para Eurídice, porém, é a constante sensação de sufocamento. A mulher quieta e aparentemente conformada estava sempre em busca de rotas de fuga de sua própria vida, tentando colocar um pouco de sua energia criativa em tarefas cotidianas. Primeiro, ela se interessa por culinária, mas Antenor repudia a ambição da esposa em criar um livro de receitas. Depois da culinária, vem a costura, o que o marido também acaba proibindo posteriormente.
Os múltiplos interesses revelam um potencial enorme, e o livro também conta com regressões ao passado da personagem, em que as possibilidades de Eurídice foram colocadas de lado por seus pais. É como se ela estivesse sempre correndo uma maratona, mas a linha de chegada dava largos passos para trás.
O livro dá uma guinada bastante brusca ao se voltar para a história de Guida. Um dos acertos de Martha Batalha, aqui, é colocar as irmãs frente a frente, em um reencontro em que Guida decide contar tudo que aconteceu depois da fuga. No entanto, as palavras de Guida são muito mais agradáveis que sua verdade, e as omissões no relato fazem com que apenas o leitor saiba o que realmente se passou nos anos que separaram as irmãs.
Guida estava apaixonada. Conheceu Marcos ainda na adolescência, e ele parecia um garoto bom. Estudava medicina, era atencioso com Guida, e despertou nela um tipo de amor diferente daquele que sentia pelos pais e pela irmã. Entretanto, com a fuga dos dois e o posterior abandono de Marcos, Guida se vê sozinha e fadada a uma vida em que o almoço do dia seguinte não era uma certeza.
Ela estava grávida, sem dinheiro e a quem pudesse recorrer. Acompanhamos Guida em sua incessante busca por alternativas, em que nenhuma solução parece apartar seus problemas. E Guida estava sempre procurando; em sua história, não há tempo para longos suspiros ou divagações.
A escrita de Martha Batalha nos leva até a construção dessas duas irmãs, suas realidades distintas e as violências que sofrem. O cenário do Rio de Janeiro da época também é bem trabalhado, colocando em confronto uma cidade de realidades extremamente paradoxais, com a riqueza e a pobreza convivendo lado a lado. O ritmo imposto na narrativa é agradável, e é um tanto perceptível que Batalha tenta trazer em suas palavras o fator da repetição, fazendo-nos entender que Eurídice e Guida viviam em um ciclo contra o qual sempre teriam de lutar.
Até mesmo personagens com pouca relevância no enredo ganham um passado e suas próprias histórias, o que para alguns pode soar um pouco desnecessário. Embora sejam descrições interessantes, reside nas irmãs Gusmão o principal crédito desse livro. Eurídice, como a autora diz em muitos momentos, é a mulher que poderia ter sido. Guida não tem uma alcunha específica, embora goste de pensar sobre ela também por meio de tal perspectiva. Quem poderia ser Guida, caso Marcos não lhe houvesse escolhido o destino?
A vida invisível de Eurídice Gusmão é um livro comovente, que faz uma homenagem a todas aquelas mulheres que nos antecederam. Ao terminar a última página, desejei que pudéssemos enxergar umas às outras mais vezes.




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