A fila
- Revista Só Letrando

- 17 de dez. de 2022
- 3 min de leitura
Por Alex Sandro de Lima Silva
Quando Cristine entrou no mercado, o relógio marcava 8:30. Era um sábado, mas não qualquer um. Antes, um sábado de véspera de natal, um sábado corrido, de pessoas indo para lá e cá com compras de diversos tipos: perus, doces, panetones, brinquedos, artigos de luxo, etc. Cristine agora estava na fila do caixa e seu carrinho, assim como todos os outros, formava um pequeno Everest de produtos enlatados, conservados e embalados. Atrás dela, uma dezena de estranhos, à sua frente, outra dezena. Cristine se posicionava literalmente no meio da extensa fila, trocando o peso do corpo de um pé para o outro, sonolenta, e começando a sentir uma leve dor de barriga. Seria ansiedade?
"Cepeéfi na nota?" ouviu a atendente perguntar para um cliente qualquer. Bip... bip... bip… o som monótono do leitor de códigos parecia ecoar de dentro da cabeça de Cristine. Bip… Bip... Será que aquele carrinho não se esvaziaria nunca?
A moça do caixa pegava os itens um por um, ora procurando o código de barras, ora pesando na balança, ora digitalizando o código que o sensor não captara… "Que mulher mais morta!" murmurou alguém às costas de Cristine, que estava cada vez mais inquieta. A dor de barriga agora era mais aguda, como se suas tripas estivessem se entrelaçando e formando nós. O suor escorria frio pelo seu rosto magro, uma tênue linha de água salgada que desembocava na ponta do queixo.
O último produto passou! O cliente agora procurava o cartão de crédito. Por que o infeliz não pagava em dinheiro? Era um velho! Um velho corcunda e mal das vistas que em vez de sacar logo o cartão magnético para a moça do caixa, ele o procurava, como se no lugar da carteira velha de couro, o condenado portasse na verdade uma cartola mágica, um saco sem fundo, um universo todo! "Diabos! Que velho lento!" Era a mesma pessoa que murmurava? Cristine não conseguia identificar. Olhou no relógio. 10:30. Pensou em abandonar o carrinho ali mesmo e voltar correndo para sua casa, mas e se amanhã fosse a mesma coisa? Tanto tempo perdido para nada? E como faria a ceia? Não! Precisava esperar, precisava aguentar mais um pouco, só mais um pouco.
O velho achou o cartão. A moça o recebeu, encaixou na maquininha e a entregou para ele. O velho parou por um momento. Será que esquecera a senha? Digitou. Errou. Tentou de novo. Acertou. Graças a Deus! A moça agora olhava para a tela do computador expressando insatisfação na cara.
"Senhor, pagamento não autorizado" disse, e uma ovação seguiu como uma onda pela fila. Outra vez a cartola mágica fora aberta, agora para encontrar algumas notas velhas que, se fosse um homem esperto, já deveriam estar molhando a mão da mulher. Agora chovia reclamações de todos os lados.
"Esse velho deveria tá no preferencial" ironicamente, uma velha resmungava.
Quando Cristine olhou por cima do ombro, notou que, de fato, alguns tiveram o mesmo pensamento que o dela: abandonaram o carrinho ali mesmo e rumaram para as suas casas, de modo que aqueles produtos abandonados ali naquele local atraiam como moscas varejeiras alguns repositores do mercado.
A moça agora contava o dinheiro. Olhava contra a luz. Recontava. Pronto! Só faltava as notas serem falsas! Para a alegria de todos, a atendente aceitou o pagamento e enfim despediu o velho que agora recolhia suas coisas para ir embora. O velho saiu. A fila deu um passo.
Cristine arrastou um dos pés para a frente e jogou o peso do corpo em cima do carrinho, projetando-o adiante. Sentiu outra pontada no ventre. Mais outra. E outra. Sentiu então uma torrente úmida e pegajosa descer por suas pernas. Seus olhos saltaram das órbitas. O coração pulou enlouquecido. O líquido agora escorria e molhava as meias gastas da mulher. As pessoas atrás começaram a reclamar novamente. A dor de barriga enfim cessava.




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