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“A biblioteca de Babel” e “Um general na biblioteca”

  • Foto do escritor: Revista Só Letrando
    Revista Só Letrando
  • 8 de ago. de 2023
  • 5 min de leitura

Uma leitura comparada dos contos de Jorge Luis Borges e Italo Calvino¹

Por Geovana Aparecida Pelissari² e Giovanna Zavan Kurosu³


Este trabalho tem como objetivo apontar os aspectos divergentes e convergentes presentes nos textos “A biblioteca de Babel”, de Jorge Luis Borges, e “Um general na biblioteca”, de Italo Calvino. Para a análise, serão utilizados os conceitos e noções da Literatura Comparada considerando a temática comum entre eles.


Nos dois textos apresentados, há um elemento essencial para a compreensão da temática: a biblioteca. Tanto no conto “A biblioteca de Babel”, de Jorge Luis Borges, quanto no conto “Um general na biblioteca”, de Italo Calvino, a biblioteca é um dos principais objetos de discussão dos textos. Ao mesmo tempo que possuem semelhanças, as bibliotecas dos dois autores distinguem-se tanto nas suas características físicas quanto nas suas representações dentro dos enredos.


Considerando as questões textuais dos contos, ou seja, as estruturas das narrativas, é possível perceber algumas distinções entre as maneiras como são apresentados. No conto “A biblioteca de Babel”, há uma espécie de monólogo interno do narrador sobre o conhecimento, que reflete e tece críticas sobre esses tópicos, as quais serão apresentadas posteriormente nesta análise.


O narrador utiliza frases em primeira pessoa e grandes metáforas para transmitir ao leitor a sua reflexão, que pode ser vista em passagens como: “Como todos os homens da Biblioteca, viajei em minha mocidade [...]” (BORGES, 2007, p. 70). Além disso, outra prova desse estilo de narrativa escolhido pelo autor é a falta de uma interação entre personagens, por se tratar de reflexões subjetivas, sem um tempo cronológico e com um espaço físico demarcado.


Por outro lado, o texto “Um general na biblioteca” apresenta uma narrativa linear, com personagens que interagem entre si, um tempo perceptível, um espaço tangível e uma sequência coesa de acontecimentos.


Outro aspecto que afasta os dois textos é o ambiente da biblioteca. Apesar de os dois textos tratarem desse mesmo tema, os espaços das bibliotecas são distantes em seus planos. No texto de Italo Calvino, há uma biblioteca que pertence ao plano real, ou seja, condiz com todas as regras tradicionais de uma biblioteca que conhecemos. Entretanto, durante o texto de Jorge Luis Borges, há a presença de uma biblioteca que, apesar de possuir uma projeção arquitetônica hexagonal, existe apenas no plano das ideias do narrador e não foi transportada ao mundo real e palpável.


Ademais, é possível depreender um ponto de convergência entre os textos em relação ao conhecimento. Ambos textos afirmam que existe uma infinidade de informações disponíveis para que os seres humanos possam acessar e usufruir. Porém, inicialmente esses seres acabam sendo privados desse acesso por diferentes agentes, em cada um dos contos. Além disso, o conhecimento que é buscado em cada texto é diferente.


No conto “A biblioteca de Babel”, há uma procura por conhecimentos metafísicos, como respostas sobre religião, Deus e até mesmo sobre o próprio conhecimento:

Também se esperou então o esclarecimento dos mistérios básicos da humanidade: a origem da Biblioteca e do tempo. É verossímil que esses graves mistérios possam ser explicados em palavras: se a linguagem dos filósofos não bastar, a multiforme Biblioteca produzirá o idioma inaudito que for necessário e os vocabulários e gramáticas desse idioma. (BORGES, 2007, p. 74)


Já no conto “Um general na biblioteca”, tem-se uma busca por questões pontuais, como o motivo da opressão feita pelos generais na biblioteca e, mais adiante na narrativa, as respostas para os questionamentos que os tenentes encontraram ao longo das leituras dos livros da biblioteca:


Os estudiosos que costumavam ir à biblioteca toda manhã, encapotados, com cachecóis e bonés para não congelarem, tiveram de voltar para casa. Perplexos, perguntavam-se: — Mas como, grandes manobras na biblioteca? Será que não vão desarrumar tudo? E a cavalaria? E será que também darão tiros? (CALVINO, 2001, p. 75).


O tenente começava a folhear os livros, nervoso, depois ia lendo mais interessado, tomava notas. E coçava a testa, resmungando: — Santo Deus! Mas quanta coisa a gente aprende! Quem diria! (CALVINO, 2001, p. 76)


Em Borges, o conhecimento está disponível nos infinitos hexágonos da biblioteca, que oferecem interpretações diferentes a cada ângulo novo em que se olha para ela. Porém, os seres humanos possuem limitações baseadas em suas cosmovisões, ou seja, a maneira como enxergam o mundo a partir de suas crenças, que interferem nas suas percepções desses conhecimentos e acabam alterando o percurso de absorção dessas informações.


Portanto, percebe-se que, na visão de Borges, são questões pessoais de cada um dos seres, respaldadas em fatores religiosos ou não, e que fazem com que esses busquem uma verdade absoluta, capaz de solucionar todas as dúvidas que influenciam o acesso ao conhecimento:


(Os místicos pretendem que o êxtase lhes revele uma câmara circular com um grande livro circular de lombada contínua, que dá toda a volta das paredes; seu testemunho é, porém, suspeito; suas palavras, obscuras. Esse livro cíclico é Deus). Por enquanto, parece-me suficiente repetir o ditame clássico: “A Biblioteca é uma esfera cujo verdadeiro centro é qualquer hexágono e cuja circunferência é inacessível”. (BORGES, 2007, p. 70)


Já em Calvino, o acesso ao conhecimento é impedido, em um primeiro momento, por questões externas. O general e seus tenentes representam um regime totalitário e opressor, que quer censurar os livros como fonte de informação para garantir a manutenção de seu poder. Apesar disso, os soldados acabam interagindo com as obras e com as informações fornecidas ao longo do movimento de pesquisa que realizam. Portanto, esse impedimento deixa de ser intrínseco aos homens, variando de acordo com cada visão de mundo, e passa a ser algo determinado por outros seres:


Foi nomeada uma comissão de inquérito, comandada pelo general Fedina, oficial severo e escrupuloso. A comissão iria examinar todos os livros da maior biblioteca da Panduria. (CALVINO, 2001, p. 74)


Depois procedeu-se à divisão de tarefas. A cada tenente foram designados determinados ramos do saber, determinados séculos da história. O general controlaria a classificação dos volumes e aplicaria carimbos diversos, dependendo se o livro fosse declarado adequado para ser lido por oficiais e suboficiais da tropa, ou fosse denunciado ao Tribunal Militar. (CALVINO, 2001, p. 75)


Portanto, conclui-se que os dois contos possuem semelhanças e diferenças tanto em sua temática quanto em sua estrutura. As duas obras têm como temática principal a busca pelo conhecimento, mas isso é visto e criticado pelos autores de maneiras diferentes. Borges faz uma crítica filosófica a partir de um monólogo, apresentando questionamentos metafísicos, enquanto Calvino apresenta uma crítica social, trazendo as figuras do general e dos tenentes como forma de criticar a opressão e a censura, além do interesse por questões pontuais dos livros.

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¹Trabalho desenvolvido na disciplina Literatura Comparada I, ministrada pela Prof.ª Dr.ª Maria Elisa Rodrigues Moreira, no primeiro semestre de 2023.

²Graduanda em Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.

³Graduanda em Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.


Referências


BORGES, Jorge Luis. A biblioteca de Babel. In: BORGES, Jorge Luis. Ficções. Tradução de Davi Arrigucci Jr. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. p. 69-79.


CALVINO, Italo. Um general na biblioteca. In: CALVINO, Italo. Um general na biblioteca. Tradução de Rosa Freire D’Aguiar. São Paulo: Companhia das Letras, 2001. p. 74-79.

 
 
 

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