2025.2 | Recordações ao vento
- Revista Só Letrando

- 11 de ago. de 2025
- 4 min de leitura
Atualizado: 11 de ago. de 2025
Por Lívia Hina Komagome

Era um fim de tarde sossegado. Crianças brincavam e corriam pelo gramado, ciclistas pedalavam pelo caminho e os patos nadavam serenamente no lago. Estava debruçado no chão ao lado de minha dona, que descansava em um dos bancos do parque.
— Veja, Newton! Cerejeiras e ipês no mesmo lugar. É rara uma ocasião dessas! — pronunciou minha dona, admirada.
Porém, não dei muita atenção para o que ela disse, afinal, só enxergo os ipês amarelos e vibrantes. Para mim, não vejo a menor graça em uma cerejeira com flores cinzentas e, até agora, sigo tentando entender o que os humanos acham de tão interessante nela.
Mais do que as árvores, o que realmente me chamou a atenção foi um idoso sentado no banco ao lado vestindo um sobretudo bege, calça de alfaiataria e sapatos de couro, completamente absorto na leitura de um livro. Será que estava lendo um romance de época? Ou um suspense policial?
Não demorou muito para outro idoso aparecer. Vestia um casaco preto, calça escura e sapatos sociais. Aproximava-se do velho leitor com as mãos nos bolsos e um ar descontraído. A partir daquele momento, estaria prestes a testemunhar um diálogo muito interessante.
— Continua o mesmo depois de tantos anos, não é mesmo, Benedito? — disse ele, de forma sarcástica.
O leitor fechou seu livro cuidadosamente e ergueu seus olhos, esboçando um sorriso que demonstra surpresa e entusiasmo.
— Digo o mesmo, Eusébio. — respondeu o idoso. — O que faz por aqui?
— Estava entediado em casa e resolvi caminhar um pouco por aqui. E você,
continua trabalhando naquele sebo velho? — indagou Eusébio, soltando uma risada antes de sentar ao lado de Benedito.
— Não fale assim do meu sebo! E sim, ainda trabalho por lá. Sempre chegam livros interessantes para receber e recomendar aos clientes.
— Bom... fico feliz, eu acho. E por acaso você percebeu?
— O quê? Não sei do que está falando.
— Cerejeiras e ipês! Nunca vi duas árvores tão diferentes em um lugar só.
— Agora que você mencionou, essas árvores são bem nostálgicas, Eusébio.
Lembram-me dos festivais de Hanami que frequentava anos atrás. Sentava no gramado e admirava as belas cerejeiras. Preciso voltar a comparecer nesses eventos.
— São bonitas, mesmo. E os ipês estão incrivelmente vibrantes. Parecem com os que floresciam na rua da minha antiga casa e a calçada ficava coberta de pétalas amarelas.
— Uma árvore típica do Japão e outra do Brasil coexistindo no mesmo lugar. É realmente um evento curioso. Isso me faz refletir sobre os laços entre os dois países, que se mantêm até os dias de hoje.
— Laços, Benedito? — Eusébio soltou uma risada debochada. — Ou por acaso é uma tentativa de mostrar à sociedade que as relações humanas podem ser belas apesar de tudo o que aconteceu ao longo da história.
Um breve silêncio se estabeleceu no momento. Benedito respirou fundo antes de dar continuidade:
— Pense comigo, Eusébio. Há 130 anos, o Japão e o Brasil assinaram o Tratado de Amizade, Comércio e Navegação, que deu início às relações diplomáticas entre os dois países. Além disso, o tratado teve importantes consequências como o estabelecimento da comunidade japonesa no país e o intercâmbio cultural, seja na culinária, no esporte ou na literatura.
— Hum, se fosse essas mil maravilhas que tanto fala, o preconceito não existiria até este momento. Na época da escola, os colegas zombavam de mim quando tirava nota baixa, me chamando de “japonês falso”. Sem mencionar que, durante a Era Vargas, presenciei um amigo próximo ser preso injustamente e sem justificativa pelos policiais da época. Ademais, fomos proibidos de falar nossa língua nativa e impedidos de ler livros escritos em japonês.
— Eu sinto muito, mesmo. É verdade que vocês passaram por momentos difíceis, mas sinto que a cada dia, essa barreira está sendo superada. As discussões sobre o racismo amarelo têm ganhado mais espaço, e muitos nipo-brasileiros vêm se destacando em diversas áreas, contribuindo para a construção de um Brasil mais diverso.
— Com certeza, as coisas estão mudando, mas às custas de muito esforço.
Novamente, um breve silêncio se instalou naquele momento.
— Olha, Eusébio. Muitas coisas aconteceram e não podemos ignorar as dores do passado. Elas são importantes para entender o presente e nos possibilitam construir um futuro melhor.
— Hum, talvez não seja uma má ideia pensar dessa forma.
Os dois idosos abrem um sorriso, até que Eusébio aponta para mim.
— Aliás, aquele schnauzer está nos observando esse tempo todo. Acho bastante suspeito...
Ofendido com o comentário, levantei-me e comecei a latir para ele, mas minha dona interveio:
— Newton, que coisa feia! Pare de latir para os outros!
Ela se levantou do banco e se aproximou dos dois idosos.
— Me desculpe, senhores. Newton costuma ser um bom garoto, não sei o que deu nele...
—Talvez só quisesse brincar conosco. — respondeu Benedito, sorrindo.
— Bom, está ficando tarde. Foi um prazer. Vamos, Newton.
Lati como forma de despedida e os dois idosos acenaram de volta.
— Vamos embora também? — perguntou Benedito, recolhendo seu livro.
— Melhor. — Eusébio concordou, levantando-se do banco do parque. — Boa sorte com o seu sebo.
— Obrigado. Espero vê-lo em breve. — Benedito se despediu com um sorriso no rosto.
Eusébio devolve o sorriso e cada um segue seu próprio caminho.
Naquele instante, uma brisa começou a soprar suavemente, levando as pétalas das cerejeiras e os cachos dos ipês, que se misturam no ar até pousarem delicadamente no chão. Era como se sugerisse que, apesar dos desafios e das diferenças, a convivência era possível, e com o passar dos anos, essa união se fortalecia.
FIM
Equipe e produção editorial
Professoras orientadoras Profa. Dra. Valéria Bússola Martins e Profa. Dra. Elaine Prado
Editora Isabelle Callegari Lopes
Revisão Sofia Lustosa de Oliveira e Larissa Novais da Silva




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