2025.2 | Reconto: “O menino mais velho”, capítulo de Vidas secas, de Graciliano Ramos
- Revista Só Letrando

- 11 de ago. de 2025
- 4 min de leitura
Atualizado: 11 de ago. de 2025
VIDA SECA
Por Augusto Melchior

Another word of wisdom to
save the day
Another life to know
There is a universe of
endless possibilities
Another chance to grow
(Vida Seca – Angra)
O menino mais velho havia sido o primeiro de muitos órfãos a ser
adotado por Dona Vitória, a doméstica da quitanda de Seu Fabiano. Aos domingos, bem como aos sábados e, na realidade, das segundas às sextas-feiras sem falta, exceto em feriados ou quando a polícia invadia a favela e os tiroteios eram mais frequentes, Dona Vitória trabalhava da manhã à noite enquanto o menino mais velho, em casa, “fazia nada” com tudo na mão. O menino mais velho gostava de ler. Para ele, as palavras eram seu mundo.
O menino mais velho não compreendia o ódio das pessoas contra o que sabia, muito menos porque o esbofetavam e xingavam de afeminado todos os dias, quando o que tão somente queria era ler seu livro e descobrir o mundo em paz. A favela não era seu mundo. O morro era seu inferno. Zé Cupincha, o traficante vizinho de Dona Vitória, vinha à casa regularmente buscar o menino mais novo pra ajudar no serviço. “A entrega é árdua e quanto mais mãos levarem as encomendas, mais gente a gente atende”, dizia o homem alto de roupas gastas e pistola na mão.
O Rio de Janeiro é lugar pra gente de coragem. Alguns enfrentam bravamente a polícia sem nem ter chegado aos dois dígitos de idade, carregam fuzis do tamanho de seus corpos, entregam encomendas que viciam e gritam palavras impróprias para sua idade; outros cultivam palavras. O menino mais velho fazia parte deste segundo grupo e algumas das palavras que cultivava em sua alma seca, por vezes, eram rasgadas pelas dores de sua origem humilde, mas uma fincava-se-lhe à cabeça com a certeza de sua realidade: “inferno”. Pois era o inferno aquilo que vivia.
O menino mais velho estava no inferno. Dona Vitória xingava o garoto, queria que ele tivesse um futuro digno, mas a pobre não tinha a sabedoria de como mudar a vida da criança deixada na sua porta depois de um tiroteio que matara uma família quase inteira. Restava-lhe xingar a condição que viviam, se o moleque não queria sair pra vender droga, que vendesse bala de fogo, que servisse de laranja pra alguém, que fizesse qualquer coisa, mas trouxesse pão pra mesa que nem o menino mais novo fazia com muito custo. Semana passada, o menino mais novo tinha sido baleado. Xingara um policial que o seguiu quando entrou no morro. O tiro foi na perna, mas o de Zé Cupincha no policial pegou no queixo e o malandro saiu vazado. Na favela a gente defende os nossos.
Enquanto isso, o menino mais velho lia, ouvia os tiros e sabia que sua hora poderia estar próxima com morte causada por bala perdida ou pela raiva do menino mais novo se impacientar e dar com a arma no seu peito. O menino mais velho não frequentava a escola, mas gostava de museu e de biblioteca. Era onde arranjava seus livros e era o mundo onde queria viver. Numa dessas saídas do morro, quando procurava saber mais do Brasil, uma loira bonita que ele vira na porta do Palácio do Catete disse uma palavra muito linda no seu ouvido: “Universidade”.
A moça bonita se dizia chamar Ariane e ela cantava sobre uma vida imersa em livros, de aulas de línguas estrangeiras, de deixar florescer a alma em uma vida seca de poesia e de significado, mas repleta de violência, de dor, de sangue e de morte. Ariane falava de um fio que guia todos a seu destino.
O menino mais velho aprendeu muito com a loira Ariane. Ele se encantava com a brancura da pele da moça em contraste com a sua, de negro retinto. Certa feita, um presente de verdade, seu primeiro presente: Ariane dera-lhe um livro que traduzia sua condição em uma jornada de retirantes nordestinos. Chamava-se Vidas secas, e seu autor Graciliano sabia do que falava, com toda aquela simplicidade pomposa dos que sabem pouco.
O menino mais velho terminou o livro com sede de palavras, encontrou-se fascinado pela curiosidade de uma criança da obra e seu desejo de saber mais sobre o inferno e sentia que poderia explicar tudo pra ele se fosse o caso, pois ele sabia onde ficava o inferno. Ele sabia onde morava. Ele sabia que podia ser um bom amigo pro menino do livro porque ele também conhecia a fome e a dor de não saber das coisas.
Naquele dia, quando terminou o livro, o menino mais velho viu Dona Vitória subindo o morro com uma sacola de compras da quitanda – às vezes seu pagamento vinha na forma de frutas que Seu Fabiano a muito custo cedia pra velha – quando um grito rompeu a aparente paz do morro: era Zé Cupincha que subia com o menino mais novo no colo acompanhado de uma cadela ferida que se arrastava com dificuldade.
O menino mais novo entrara em discussão com um milico que queria levá-lo pro Conselho Tutelar. Zé Cupincha pensara que a confusão era por causa de droga e, tentando escapar de qualquer possível acusação, iniciara uma troca de tiros com o cara fardado. Aparentemente a criança fora atingida por sabe-se lá quantas balas, mas Cupincha conseguiu recuperar o corpo pra mostrar pra Dona Vitória porque a cachorra entrara na frente da confusão e distraíra a todos pra salvar um pouco do menino.
O menino mais velho, vendo a mãe em estado tão desolador, pensou que poderia fazer alguma coisa por ela. Não era a mãe que queria um futuro melhor pra todos eles e dizia que ele não fazia nada nunca? Agora ele sabia o que queria fazer e quem queria ser, e não eram os xingos do Zé Cupincha, nem as opiniões do menino mais novo ou o pouco estudo de Dona Vitória que iria acabar com sua vontade de crescer e ser professor.
O menino mais velho se aproximou do corpo ensanguentado do menino mais novo, a mãe com a criança no chão chorando copiosamente, Zé Cupincha xingando qualquer coisa do lado e um monte de gente vindo fuxicar e disse: “Mamãe, quero ir pra Universidade.”
Dona Vitória o encarou com os olhos marejados de dor, tentou sorrir e abraçou seu único filho, meu professor.
Equipe e produção editorial
Professoras orientadoras Profa. Dra. Valéria Bússola Martins e Profa. Dra. Elaine Prado
Editora Isabelle Callegari Lopes
Revisão Bruna Silva de Angelis e Pietra Tonti Topfstedt




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