2025.2 | Estilizando Manuel Bandeira: uma análise das figuras de linguagem no poema “Teresa”
- Revista Só Letrando

- 11 de ago. de 2025
- 4 min de leitura
Atualizado: 11 de ago. de 2025
Por Taiza Consul da Silva

A primeira vez que vi Teresa
Achei que ela tinha pernas estúpidas
Achei também que a cara parecia uma perna
Quando vi Teresa de novo
Achei que os olhos eram muito mais velhos que o resto do corpo (Os olhos nasceram e ficaram dez anos esperando que o resto do corpo nascesse)
Da terceira vez não vi mais nada
Os céus se misturaram com a terra
E o espírito de Deus voltou a se mover sobre a face das águas.
No campo literário, as figuras de linguagem não são meros enfeites, mas instrumentos expressivos que apresentam, de modo sutil, a visão de mundo do autor e da sensibilidade dos sujeitos poéticos que este cria. No poema “Teresa” do escritor pernambucano Manuel Bandeira, foi publicado no ano de 1930 como parte do livro Libertinagem. Sua linguagem ganha um fortalecimento estilístico ao retratar uma renovação emocional que vai da observação banal, do julgamento superficial ao encantamento místico.
Por meio do emprego de figuras de linguagem como a gradação, a ironia, a hipérbole e o paradoxo, o texto rompe com a idealização do feminino presente na lírica tradicional. Também, propõe uma nova forma de olhar o outro, algo mais imperfeito e crítico, profundamente humano, pois, no final, o sujeito poético se rende à força inexplicável do sentimento amoroso. Apesar de começar com um estranhamento do indivíduo em relação à Teresa, o poema termina em êxtase, em uma equivalência à entrada do “eu lírico” em uma dimensão mística, em que a moça transcende sua própria mortalidade e se funde ao divino.
Inicialmente, é possível observar essa progressão a partir da figura da gradação com os versos “A primeira vez que vi Teresa”, “Quando vi Teresa de novo” e “Da terceira vez não vi mais nada”, que trazem um efeito sequencial dos acontecimentos na relação do sujeito poético com Teresa, de maneira ascendente, isto é, do primeiro ao último encontro, do menos ao mais intenso. Esse recurso atribui proporcionalidade à percepção emocional desse sujeito, transmitindo a intensificação progressiva do sentimento amoroso e o aprimoramento de seu olhar sensível, até alcançar o estado de deslumbramento absoluto.
Em “Achei que ela tinha pernas estúpidas”, percebe-se uma ironia, que serve para criar um distanciamento entre o que é dito e o que se espera de um poema lírico amoroso. Além disso, indica uma certa infantilidade do “eu poético”, que expressa sua opinião inicial sobre Teresa de forma esdrúxula, ao contrapor aspectos de sua aparência com sua personalidade de modo que um indivíduo adulto jamais faria.
Com este mesmo efeito de sentido, há uma comparação em “Achei também que a cara parecia uma perna”, que estabelece a relação entre o rosto de Teresa e suas “pernas estúpidas”, por meio de um conectivo, neste caso, o verbo “parecer”. Pertinente a isso, voltando ao verso “Achei que ela tinha pernas estúpidas”, nota-se uma personificação, já que são atribuídas características humanas a algo que não apresenta consciência por si só, as pernas. Esse recurso confere ao texto um juízo de valor subjetivo, e acentua seu tom sarcástico e provocador, típicos da linguagem modernista.
Ainda nos versos “Achei que ela tinha pernas estúpidas/Achei também que a cara parecia uma perna”, da primeira estrofe, e em “Achei que os olhos eram muito mais velhos que o resto do corpo”, na segunda estrofe, verificam-se metonímias. Essa figura que apresenta o todo pela parte, no primeiro caso, as pernas e a cara estúpida representam uma pessoa estúpida, aqui, Teresa. Demonstrando não só a infantilidade do sujeito poético mas, provavelmente, a mocidade da própria moça.
No segundo caso, os olhos muito mais velhos que o corpo seriam a representação do amadurecimento dela e até a do próprio sujeito poético, que estaria enxergando-a de forma diferente, admirando-a. Em relação a esse mesmo verso e ao que o sucede, “(Os olhos nasceram e ficaram dez anos esperando que o resto do corpo nascesse)”, indica-se um paradoxo, dado que contêm ideias contraditórias, ao inverter a lógica da passagem do tempo e o desenvolvimento de um corpo humano. Essa figura confere aos olhos de Teresa, ou seja, ao seu olhar, um grande valor espiritual, sugerindo que ela possui uma sabedoria que supera sua aparência física.
Toda a terceira estrofe, “Da terceira vez não vi mais nada/Os céus se misturaram com a terra/E o espírito de Deus voltou a se mover sobre a face das águas.”, é composta por uma hipérbole. Isso pois exagera os sentimentos do sujeito poético por Teresa, ao exprimi-los de modo insinuar que o que sente pela moça fosse capaz de invocar a atuação divina direta no mundo.
Por fim, as repetições de “achei”, “quando vi” e “em que vi” indicam a presença de anáforas, que servem para dar ritmo e coesão ao texto, além de reforçar a reconstrução quase obsessiva da memória que o indivíduo tem da figura de Teresa. Além disso, funcionam como marcadores de mudanças emocionais e de percepção do sujeito poético. Particularmente, acredita-se que, nesse poema, se a gradação formasse um bordado, as anáforas seriam a linha utilizada para sua criação.
Em síntese, conclui-se que o uso dessas figuras de linguagem concede ao poema uma linguagem provocadora e subjetiva, que atuam como marcadores de transformação emocional do sujeito poético, que vai da expressão de opiniões críticas até a fusão de seu espírito com o de Teresa.
REFERÊNCIAS:
FIORIN, José Luiz. Figuras de retórica. São Paulo: Contexto, 2023.
MANUEL Bandeira - Teresa. Tudo é poema, [s. l.], 6 nov. 2018. Disponível em: https://www.tudoepoema.com.br/manuel-bandeira-teresa/. Acesso em: 20 maio 2025.
Equipe e produção editorial
Professoras orientadoras Profa. Dra. Valéria Bússola Martins e Profa. Dra. Elaine Prado
Editora Isabelle Callegari Lopes
Revisão Larissa Dias de Moura Alves e Laura Mayer Rocha




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