2025.2 | Coreografia de adeus
- Revista Só Letrando

- 11 de ago. de 2025
- 2 min de leitura
Por Zaiza Vaccarezza

pelo ritmo do meu coração partido,
danço essa coreografia de adeus
dois pra lá dois para cá
a melodia que o guia
é o som do desespero interno
dois para cá dois para lá
um rodopio melancólico
mais pedaços caem
molham a terra com seu pesar
essa valsa incessante
desnorteia os sentidos
embriaga a alma
e ofusca a dor
cada passo dado é poesia
cada lágrima amor
um suspiro de tristeza
e um arfar de dor
de longe pode-se ouvir uma harpa
melodia suave e harmoniosa
diferente do som que retumba de dentro
batidas fortes de tambor,
feito de pele humana
um riff sinistro de uma guitarra
afinada com as cordas vocais de uma banshee
um arranjo desarranjado
uma lamúria cacofônica
a sinfonia de fora
num embate com a de dentro
as ondas vibram
em sintonias opostas
e no meio do caminho
se anulam
o som não para
mas a sensação de vazio que habita
nesse rasgo da barreira sonora
dá um certo alívio à alma
a nulidade de sensações
a iminência do silêncio acolhedor
o abismo entre tudo e nada
alguns momentos nesse espaço
passam a sensação de milênios
uma batalha incessante de nadas
anulamento completo do Outro
foco no si
na imensidão interior
a dança cessa
nesse espaço de transição
essa passagem acusticamente muda
que silencia os sentidos
a sinestesia intensiva
um cheiro azul
um toque amargo
o corpo há de escolher
se volta aos passos incertos
da batida de tambor
ou se prefere arriscar o desconhecido
a melodia que ouve de longe
apesar de se deleitar
com a possibilidade do novo
e a inércia do nulo
esse corpo enfermo
tem suas preferências
um masoquismo insano
decide então continuar
com sua sinfonia infernal
dançar com seus pecados
essa frenética
coreografia de adeus
Equipe e produção editorial
Professoras orientadoras Profa. Dra. Valéria Bússola Martins e Profa. Dra. Elaine Prado
Editora Isabelle Callegari Lopes
Revisão Juliana Batista Bonifácio Antão Moreira e Pietra Tonti Topfstedt




"o som não para
mas a sensação de vazio que habita
nesse rasgo da barreira sonora
dá um certo alívio à alma
a nulidade de sensações
a iminência do silêncio acolhedor
o abismo entre tudo e nada"
Acho que todos nós já passamos por isso e é nesse "tudo e nada" que a vida se constrói e diverte e desconstrói e ressurge e morre e renasce.