2026.2|TEMPO, MEMÓRIA E NARRATIVA

Por Elisangela Lima

Quantas vezes vivemos momentos comuns sem perceber o valor que aquele instante carrega? Muitas experiências do cotidiano passam despercebidas em meio à rotina, ao cansaço, à pressa e às inúmeras distrações diárias. Só mais tarde, quando revisitadas pela memória, essas experiências ganham novos sentidos e passam a ocupar um lugar afetivo dentro de nós.
Essa reflexão emerge no vídeo publicitário Carta para mães - Acordei com 85 anos no corpo de 36, da marca Pampers, em que uma mulher de 85 anos revive, por um único dia, sua versão de 36 anos. A narrativa acompanha situações aparentemente comuns como o despertar de um filho pequeno, um simples café da manhã e suaves gestos cotidianos de uma rotina familiar, que, ao serem revisitadas pela memória, passam a adquirir uma intensa dimensão afetiva.
Mais do que representar a passagem do tempo, o vídeo constrói uma reflexão sobre memória, experiência e afetividade. Nesse contexto, as contribuições de Santo Agostinho, filósofo que refletiu sobre o tempo como experiência interior ligada à memória, e de Paul Ricoeur, que compreende a narrativa como forma de organização da experiência temporal, ajudam a compreender como o passado ganha significado não apenas pelo que foi vivido, mas pela forma como é narrado e reinterpretado.
O tempo como experiência interior
Em Confissões, Santo Agostinho apresenta uma das reflexões mais conhecidas da tradição filosófica sobre o tempo: “O que é, então, o tempo? Se ninguém me pergunta, eu sei; se eu quiser explicá-lo a quem me pergunta, não sei” (2023, p. 179-180). A partir desse paradoxo, Agostinho questiona a ideia de tempo como algo estável e objetivo. Para ele, passado e futuro não existem concretamente: o passado já deixou de ser e o futuro ainda não chegou. O que existe, de fato, é o presente. Entretanto, esse presente não se manifesta de maneira simples. Ele assume diferentes formas dentro da consciência humana. Agostinho pressupõe três modos do presente: o presente do passado, relacionado à memória; o presente do presente, ligado à atenção; o presente do futuro, associado à expectativa. Ao refletir sobre esses três modos do presente, Agostinho mostra que o tempo não se limita à passagem cronológica dos acontecimentos. O passado continua presente nas lembranças que carregamos, o presente se manifesta na atenção dedicada ao instante vivido; e o futuro aparece nas expectativas, desejos e inquietações em relação ao que ainda virá. Assim, diferentes dimensões do tempo convivem dentro da experiência humana, atravessando a memória, os afetos e a forma como interpretamos a própria vida.
Narrar é reorganizar a experiência
Se, para Agostinho, o passado permanece na memória; em Paul Ricoeur, a narrativa é responsável por organizar essas lembranças e atribuir-lhes sentido. Para o filósofo francês, a experiência temporal humana só se torna compreensível quando organizada narrativamente. Segundo Ricoeur (1994, p. 15), “O tempo torna-se tempo humano na medida em que é articulado de modo narrativo”.
Narrar, portanto, não significa apenas relatar acontecimentos. Ao organizar experiências, estabelecer conexões e selecionar determinados momentos, a narrativa transforma fragmentos da vida em uma unidade significativa. Talvez por isso o passado pareça, tantas vezes, mais valioso depois, não necessariamente porque os acontecimentos foram extraordinários, mas porque a memória os reorganiza sob outra perspectiva.
No vídeo mencionado, essa construção aparece de forma bastante evidente. As cenas apresentadas, ainda que simples e cotidianas, são marcadas por forte carga afetiva. Elementos como a escuta atenta do filho - “sem celular, sem distrações”, o gesto de permanecer ao lado do marido e dizer “obrigada” ou ainda a ligação para a mãe, quando “as lágrimas vieram antes das palavras”, revelam que as experiências revisitadas pela memória passam a carregar sentidos que ultrapassam o instante em que foram vividas.
Um dos momentos mais emocionante ocorre quando a narradora percebe que aquele dia, recorte temporal construído pelo vídeo, inevitavelmente terminará: “Amanhã eu vou acordar com 85 anos de novo e ele vai estar crescido, ocupado, longe.” A consciência da transitoriedade intensifica o valor da experiência. O tempo deixa de ser percebido apenas como sucessão cronológica e passa a assumir uma dimensão profundamente afetiva.
O vídeo evidencia, assim, que o passado não se torna precioso porque tinha sido necessariamente perfeito ou extraordinário. Muitas vezes, são justamente os acontecimentos mais simples que adquirem maior significado quando reconstituídos pela memória.
Muitas experiências da vida, sejam elas leves, tristes, felizes ou emocionalmente intensas, acabam se transformando, com o tempo, em fragmentos afetivos da memória. Distantes da urgência do presente vivido, passam a ser evocadas sob outra perspectiva, carregadas pelos vínculos, afetos e sentidos construídos ao redor delas.
Mais do que contar uma história, narrar é atribuir sentido ao tempo vivenciado. Ao reorganizar lembranças, a narrativa faz com que muitos acontecimentos ultrapassem o instante em que foram vividos, permanecendo não apenas como recordações, mas como marcas afetivas da própria existência. Assim, o valor do passado não está apenas nos fatos em si, mas na forma como continuam ecoando dentro de nós.
Referências
AGOSTINHO. Confissões. Tradução de Pusey, E. B. Bauru, SP: Garnier, 2023.
CARTA PARA MÃES - acordei com 85 anos no corpo de 36. YouTube, 2026. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=UrxYFm3YV7U. Acesso em: 14 abr. 2026.
RICOEUR, Paul. Tempo e narrativa. Tradução de Constança Marcondes Cesar. Campinas, SP: Papirus, 1994. v. 1.
Equipe e produção editorial
Professoras orientadoras Profa. Dra. Ana Lúcia Trevisan e Profa. Dra. Elaine Prado
Editores Henrique Silva Santos e João Vítor Tortosa Rodrigues Alves
Revisão Julia Fernandes Pimentel e Camila Ribeiro Sales



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