2026.2|SILÊNCIO ENTRE ESTANTES

Por Laura Mayer

A biblioteca estava cheia, mas parecia vazia.
Cada pessoa ocupava uma cadeira, uma mesa, um livro aberto e, também, os próprios pensamentos.
Do lado de fora, a universidade seguia barulhenta. Passos apressados pelos corredores, conversas atravessadas, celulares tocando sem parar. Mas, ali dentro, o tempo diminuía. O som das páginas viradas parecia mais alto do que qualquer conversa.
Sempre achei estranho como bibliotecas conseguem aproximar pessoas sem que elas troquem uma única palavra.
Na mesa ao lado, um rapaz riscava o mesmo trecho do texto repetidas vezes, como se sublinhar fosse fazê-lo entender a própria vida. Mais à frente, uma menina apoiava a cabeça na mão enquanto encarava o notebook havia vários minutos. Ela não digitava nada. Talvez estivesse cansada demais até para organizar os pensamentos.
Ninguém olha muito para ninguém dentro de uma biblioteca. Existe uma espécie de acordo silencioso: cada um respeita o peso que o outro carrega.
E todos carregam alguma coisa.
Há quem esteja tentando passar em uma matéria difícil. Há quem trabalhe o dia inteiro e estude à noite. Há quem esconda a ansiedade atrás de resumos organizados e marca-textos coloridos. Também existem aqueles que só procuram um lugar onde possam existir em silêncio por algumas horas.
Porque, às vezes, o mundo faz barulho demais.
Talvez seja por isso que eu goste tanto de bibliotecas. Não apenas pelos livros, mas pelo que elas abrigam: sonhos cansados, pessoas inseguras, futuro, medo, esperança.
Entre uma estante e outra, jovens tentam descobrir quem são enquanto fingem ter tudo sob controle.
E, no fim, percebo que o silêncio da biblioteca nunca foi ausência de som. Era excesso de coisas sentidas.
Equipe e produção editorial
Professoras orientadoras Profa. Dra. Ana Lúcia Trevisan e Profa. Dra. Elaine Prado
Editores Henrique Silva Santos e João Vítor Tortosa Rodrigues Alves
Revisão Julia Fernandes Pimentel e Laura de Hollanda Archanjo



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