2026.2| O AMOR COMO MECANISMO DE SUBMISSÃO EM CANINOSBRANCOS DE JACK LONDON

Por Alessandro Ferreira da Silva

RESUMO
Este artigo analisa Caninos Brancos (1906), de Jack London, como uma metáfora da violência estrutural exercida pela civilização sobre o mundo natural. O objetivo central é verificar se o processo de domesticação do protagonista pode ser compreendido como expressão literária do domínio humano sobre o mundo natural. A partir das contribuições de Glotfeltye, Harold Fromm (1996) e Garrard (2004), argumenta-se que a domesticação de Caninos Brancos não representa progresso moral, mas um processo de submissão que substitui a lógica instintiva pela obediência disciplinada. Conclui-se que a narrativa expressa o conflito entre liberdade natural e poder civilizatório, demonstrando como a literatura pode lançar luz criticamente as tensões éticas do Antropoceno.
Palavras-chave: Ecocrítica, Não-humano, Selvagem.
ABSTRACT
This article analyzes White Fang (1906), by Jack London, as a metaphor for the structural violence exerted by civilization upon the natural world. The central objective is to examine whether the domestication process of the protagonist can be understood as a literary expression of human domination over nature. Drawing on the contributions of Glotfelty (1996) and Garrard (2004), it is argued that the domestication of White Fang does not represent moral progress, but rather a process of subjugation that replaces instinctual logic with disciplined obedience. The study concludes that the narrative expresses the conflict between natural freedom and civilizational power, demonstrating how literature can critically illuminate the ethical tensions of the Anthropocene.
Keywords: Ecocriticism, Civilized, Wild.
INTRODUÇÃO
A crise ambiental contemporânea, evidenciada pela consciência crescente dos impactos humanos sobre o planeta, impulsionou a formulação de novos paradigmas nas Humanidades. O conceito de Antropoceno, proposto em 2000 e difundido para além das Geociências a partir de 2009, consolidou-se como uma noção de emergência sobre a profundidade da intervenção humana nos sistemas naturais. Nesse horizonte, campos como a Literatura, a História e a Filosofia passaram a questionar como esse evento histórico altera nossa forma de experienciar o mundo. Diz Donald Worster em The Wealth of Nature:
“Hoje enfrentamos uma crise global não em razão do modo como os ecossistemas funcionam, mas, antes, em razão do modo como funcionam nossos sistemas éticos. Superar essa crise exige compreender nosso impacto sobre a natureza da maneira mais precisa possível; mais ainda, exige compreender esses sistemas éticos e usar essa compreensão para reformá-los. Historiadores, juntamente com estudiosos da literatura, antropólogos e filósofos, naturalmente, não podem realizar essa reforma, mas podem contribuir para essa compreensão” (WORSTER, 1993, p. 27, tradução nossa).
É nesse cenário que se fortalece a Ecocrítica, campo dos estudos literários dedicado a examinar as representações da natureza e as relações entre seres humanos e não-humanos. Desde sua sistematização por Glotfelty (1996), a ecocrítica propõe deslocar o antropocentrismo que marca a tradição ocidental, destacando que os textos literários, longe de serem apenas construções culturais, também participam dos sistemas ecológicos que descrevem. Autores como Brulle (2000) e Garrard (2004) ampliaram essa perspectiva, evidenciando como imaginários ambientais moldam e são moldados pela noção de dominação da natureza.
Pretende-se analisar a obra Caninos Brancos como corpus deste artigo. Publicado em 1906 e inspirado nas experiências de London no Klondike, Caninos Brancos narra a trajetória de um híbrido (meio lobo, meio cão) que transita da vida selvagem na Floresta Boreal à submissão aos humanos. O ambiente inóspito, descrito como desolado e hostil, é regido pela Lei da Carne — "comer ou ser comido". O protagonista aprende a sobreviver nesse cenário até ser capturado e submetido ao mundo civilizado, sua forma de vida natural sendo moldada segundo as expectativas dos homens.
A narrativa representa o domínio humano sobre o animal selvagem como uma forma de poder absoluto, exercido por meio da violência física e psicológica no animal. Em troca de proteção, alimento e abrigo, Caninos Brancos entrega sua liberdade. Sob a influência de seu último mestre, Weedon Scott, sua ferocidade adquire outra forma de repressão: o amor como mecanismo de submissão.
Desta forma, o presente artigo se propõe a responder à seguinte questão: Da perspectiva ecocrítica, a domesticação de Caninos Brancos pode ser interpretada como uma metáfora da violência da civilização contra o mundo natural?
Parte-se da hipótese de que o processo de domesticação narrado em Caninos Brancos exemplifica a imposição do modelo civilizatório antropocêntrico sobre o ambiente selvagem. A transição do estado natural ao civilizado não representa uma evolução moral, mas uma forma de controle da natureza. A domesticação substitui a lógica instintiva da sobrevivência pela lógica da obediência, transformando o protagonista em um ser adaptado, porém distorcido em sua integridade selvagem.
O artigo será estruturado da seguinte forma: (1) análise da Floresta Boreal e da Lei da Carne, como símbolos da autonomia natural; (2) discussão do mecanismo de poder e submissão imposto pelos primeiros "deuses"; e (3) exame da transformação final sob Weedon Scott, interpretando a domesticação como metáfora da violência estrutural da civilização exercida sobre o mundo não-humano.
Espera-se demonstrar que a domesticação de Caninos Brancos é uma representação complexa do conflito irreconciliável entre a liberdade selvagem e o domínio humano. A conclusão reforçará a hipótese de que a adaptabilidade extrema do protagonista, que se torna "o inimigo de toda a sua espécie" para se adequar ao seu novo ambiente, traduz o custo da imposição do domínio antropocêntrico e a substituição do instinto pela servidão disciplinada aos humanos.
ECOCRITICA, ANTROPOCENO E RELAÇÃO NÃO-HUMANO
O presente estudo se insere na perspectiva da Ecocrítica, um paradigma emergente nos Estudos Literários que se institucionalizou no início da década de 1990. A Ecocrítica pode ser definida temporariamente da seguinte forma segundo Glotfelty:
“O que é, então, a ecocrítica? De modo simples, a ecocrítica é o estudo da relação entre a literatura e o ambiente físico. Assim como a crítica feminista examina a linguagem e a literatura a partir de uma perspectiva consciente de gênero, e a crítica marxista leva às suas leituras dos textos uma consciência dos modos de produção e da classe econômica, a ecocrítica adota uma abordagem centrada na Terra para os estudos literários” (GLOTFELTY, 1996, p. xix apud GARRARD, 2004, tradução nossa).
Esse enfoque amplia a compreensão tradicional de “mundo” — normalmente associada ao domínio social — para incluir a ecosfera como dimensão constitutiva das produções simbólicas. Assim, a Ecocrítica investiga as representações da natureza e as interdependências entre seres humanos e não-humanos em textos literários.
A necessidade de uma leitura ecocêntrica na crítica literária intensifica-se com a emergência do conceito de Antropoceno. Proposto por (Crutzen & Stoermer, 2000), o termo passou de um debate inicialmente restrito às Geociências para uma ampla reflexão nas Ciências Humanas a partir de 2009. Esse deslocamento conferiu ao conceito uma dupla natureza: uma dimensão geológica, referente ao impacto humano mensurável na Terra, e uma dimensão cultural e civilizacional, que problematiza formas de representar o humano no planeta.
Nas Humanidades, o Antropoceno é compreendido como um acontecimento histórico sem precedentes, que interroga profundamente os fundamentos da experiência moderna e os modos como a humanidade se percebe no mundo. Por seu caráter de alerta, o conceito aponta para a urgência de revisão de valores antropocêntricos e denuncia a atitude instrumental moderna em relação à natureza, como assinala Schwägerl, pode ser compreendida como uma era pré-apocalíptica, como descreve (SCHWÄGERL, 2010).
“[...] que ainda não está claro o que ele é. Uma cavalgada infernal rumo a um apocalipse ecológico? Um curso intensivo sobre como não danificar de modo tão violento as bases de nossa vida? Ou talvez ainda mais: um novo quadro de pensamento, que une a cientificidade a uma inclinação para o orgânico? Um caminho para integrar o ser humano à natureza e a natureza ao humano, de modo que ‘civilização’, no futuro, não signifique mais automaticamente destruição colonialista, mas interconexão ecológico-social?”
Nesse cenário, a Ecocrítica emerge como instrumento analítico capaz de explorar como a literatura participa da construção de visões antropocêntricas, revelando tensões entre cultura e ambiente no interior das obras literárias.
No centro da Ecocrítica encontra-se a crítica ao antropocentrismo, entendido como o conjunto de valores e práticas que privilegia o humano em detrimento do restante da vida. Em contraposição, propõe-se uma perspectiva ecocêntrica que reconheça o valor intrínseco dos seres e processos não-humanos.
Glotfelty (1996) questiona se, além de categorias como raça, classe e gênero, o “lugar” não deveria constituir uma nova dimensão crítica, indicando a necessidade de superar dualismos clássicos — natureza/cultura, mente/corpo, humano/não-humano — constitutivos do pensamento ocidental. Essa abordagem torna-se particularmente relevante na análise de Caninos Brancos, de Jack London, cuja narrativa de domesticação do animal pode ser lida como metáfora das formas de controle e submissão do mundo natural pela lógica civilizatória.
A intensificação do interesse ecocrítico pelo mundo animal, especialmente a partir da quarta vaga da Ecocrítica (2008), decorre do deslocamento da atenção da figura humana para os modos como o discurso literário constrói o não-humano. Para enfatizar o modo como o poder se articula discursivamente, Christopher Manes destaca (GLOTFELTY, 1996, p. 16).
“Michel Foucault demonstrou amplamente que o poder social opera por meio de um regime de falantes privilegiados, historicamente corporificados em figuras como sacerdotes e reis, autores, intelectuais e celebridades. As palavras desses falantes são levadas a sério, em oposição ao discurso de falantes considerados ‘sem significado’ e frequentemente silenciados, como mulheres, minorias, crianças, prisioneiros e pessoas consideradas loucas”
Manes observa que o humanismo moderno produziu um amplo “reino de silêncios” denominado natureza, efeito de uma linguagem que privilegia a razão e a agência exclusivamente humanas. Esse silêncio legitima práticas de exploração, reduzindo o não-humano a mero recurso.
A análise ecocrítica, entretanto, não se limita à defesa de direitos individuais — como ocorre no ativismo animalista —, mas problematiza também a representação de fenômenos naturais, seres não sencientes, entidades inanimadas, como rios e montanhas, reconhecendo seu papel ecológico.
A crítica ambiental contemporânea ressalta a interdependência entre processos naturais e sociais. Commoner (1972) formula a Primeira Lei da Ecologia — “tudo está conectado a tudo mais” —, princípio que orienta a leitura ecocrítica ao destacar que intervenções humanas no meio natural reverberam em múltiplas escalas. Nesse sentido, o Antropoceno funciona como signo de crise que obriga a reavaliar modelos civilizatórios baseados na exploração ilimitada da natureza, a considerar possibilidades de coexistência ecológico-social. A Ecocrítica, especialmente em sua configuração contemporânea, possibilita compreender a domesticação de Caninos Brancos não apenas como narrativa de formação, mas como representação simbólica da sujeição da natureza a valores culturais antropocêntricos. A transformação do lobo em animal domesticado revela mecanismos de poder que moldam o não-humano segundo necessidades humanas, mesmo quando envoltos em afetos como lealdade ou amor.
Assim, verifica-se como a Ecocrítica torna-se instrumento interpretativo capaz de “traduzir” tensões centrais do Antropoceno: a natureza deixa de ser cenário passivo e passa a ser reconhecida como participante ativa das narrativas. Tal abordagem evidência como sistemas linguísticos, categorias culturais e estruturas de poder reescrevem a posição do não-humano, convertendo-o de sujeito do ambiente selvagem em elemento disciplinado pela racionalidade civilizatória.
ANÁLISE DO CORPUS
A FLORESTA BOREAL E A LEI DA CARNE COMO SÍMBOLOS DA AUTONOMIA NATURAL
A Floresta Boreal, cenário da primeira parte do romance, transcende o papel de mero pano de fundo geográfico para se estabelecer como um poderoso ator com agência no drama da sobrevivência. Esta perspectiva se alinha com a proposta ecocrítica de que o espaço físico deve ser considerado uma categoria crítica, juntamente com raça, classe e gênero (GLOTFELTY, 1996). A narrativa de Jack London dota a Floresta de uma vontade e um temperamento próprio, caracterizando-a como uma força implacável:
Não é da natureza da Floresta gostar de movimento. A vida é uma ofensa para ela, pois a vida é movimento; e a Floresta sempre aspira a destruir o movimento. Congela a água para impedir que corra até o mar; retira a seiva das árvores até elas ficarem congeladas em seu próprio e poderoso âmago; e, o mais feroz e terrível de tudo, a Floresta oprime, esmaga e submete o homem – o homem, que é o ser mais inquieto da vida, sempre em revolta contra a sentença de que todo movimento deve por fim chegar à cessação do movimento (LONDON, 1906, p. 6).
Sob a perspectiva ecocrítica — que busca compreender o mundo não-humano de maneira profunda —, a personificação da Floresta Boreal, descrita como uma personagem que “aspira”, constitui uma crítica à visão humanista de uma natureza passiva e imóvel. Contudo, essa mesma floresta, na obra de London, comunica-se por meio da morte e da opressão: “a Floresta oprime, esmaga e submete o homem”. A Floresta é, portanto, a própria lei da natureza, um sistema de restrições que molda o corpo do filhote antes que ele encontre a “civilização”.
É A Lei da Carne o princípio ecológico supremo que governa a Floresta Boreal e a vida de Caninos Brancos, servindo como o contraponto biocêntrico ao antropocentrismo que o protagonista aprenderá posteriormente na servidão. A lei é apreendida pelo filhote através da experiência instintiva, e não pela razão humana:
A vida vivia da vida. Havia os que comiam e os que eram comidos. A lei era: COMER OU SER COMIDO. Ele não formulou a lei em termos claros e estabelecidos, nem moralizou a respeito. Nem sequer pensou sobre a lei, apenas vivia a lei sem pensar sobre ela (LONDON, 1906, p. 82).
A Lei da Carne, no romance de Jack London, pode ser compreendida como uma expressão literária de um dos princípios fundamentais da Ecologia contemporânea. Trata-se da noção de interdependência universal, formulada por Barry Commoner em sua Primeira Lei da Ecologia: “Tudo está conectado a tudo mais” (COMMONER, 1972, citado em GLOTFELTY, 1996). Nesta perspectiva, a vida constitui uma teia complexa na qual toda a vida está conectada em um ecossistema complexo.
No universo narrativo de London, a Lei da Carne estabelece uma condição de igualdade ontológica entre humanos e não-humanos, pois todos compartilham o mesmo destino biológico: são carne e, portanto, alimento. Os viajantes que atravessam a Floresta Boreal percebem essa verdade de modo brutal quando reconhecem que sua “carne viva não era mais do que um pouco de alimento, uma caça dos animais vorazes” (LONDON, 1906, p. 32). Essa tomada de consciência desmonta a visão moderna, criticada por Harold Fromm (1996), segundo a qual o ser humano se imagina separado da terra não disposto a reconhecer suas raízes.
A passagem de Caninos Brancos do wilderness para o acampamento de Castor Cinza funciona como alegoria dessa mudança: é a transição da Lei da Carne, associada à autonomia natural, para a Lei da Servidão, expressão do controle humano. Apesar de guiado, inicialmente, por instintos biocêntricos — ele “apenas vivia a lei sem pensar sobre ela” (LONDON, 1906, p. 82) —, o protagonista passa a construir sua identidade em relação aos “deuses” humanos. Essa lealdade, porém, tem um custo. London descreve o vínculo com os humanos como uma forma de cativeiro e servidão. A fidelidade do cão-lobo representa, portanto, uma “troca das responsabilidades da existência” (LONDON, 1906, p. 98). Em outras palavras, a obediência substitui a autonomia que regia sua vida sob a Lei da Carne.
Desta forma, esses elementos revelam que o sistema humano imposto a Caninos Brancos opera como um mecanismo de controle que contraria a lógica ecológica da interdependência. A Floresta Boreal e a Lei da Carne permanecem como símbolos da dignidade e do valor intrínseco da natureza não-humana. O protagonista tenta suprimir essas forças internas, mas já não era possível, como vemos:
Realizar a mudança era como um refluxo do ser, e isso quando a plasticidade da juventude já não era sua; quando a sua fibra tornara-se dura e cheia de nós (LONDON, 1906, p. 190-191).
Ao fim, ele se torna uma criatura que tem “muito de lobo, mas que era um cachorro, e não um lobo” (LONDON, 1906, p. 133), resultado direto da subjugação cultural daquilo que é natural. Essa transformação ecoa questões centrais do debate sobre o Antropoceno, que nos impele a perguntar se a civilização futura corresponderá a uma convivência sustentável entre sociedade e natureza ou sustentara práticas de exploração destrutiva. Assim, a narrativa de London não apenas dramatiza o conflito entre natureza e civilização, mas também expõe, de modo crítico, as tensões éticas que atravessam o presente antropocênico.
MECANISMOS DE SUBMISSÃO IMPOSTAS PELOS PRIMEIROS “DEUSES”
A segunda parte da análise do corpus centra-se na transição de Caninos Brancos da autonomia da Floresta Boreal para o regime de poder e submissão imposto pelos primeiros humanos, os "deuses" da Floresta.
O primeiro e mais potente mecanismo de poder é a aceitação imediata e instintiva da supremacia do homem, que Caninos Brancos percebe da seguinte forma.
Um grande temor reverente desceu sobre ele. Foi obrigado a ficar imóvel por uma sensação esmagadora de sua própria fraqueza e pequenez. Ali estava a supremacia e o poder, algo muito além do seu alcance. (LONGON, 1906, p. 84)
Esse temor não resulta de uma experiência individual de domínio, mas constitui um constructo herdado de sua espécie, formado ao longo de séculos de luta e da experiência acumulada pelas gerações de lobos que o precederam.
O homem é identificado como o animal que "conquistara pela luta a primazia sobre os outros animais da Floresta" (LONDON, 1906, p. 85). A supremacia humana é confirmada para Caninos Brancos de forma irrefutável quando sua mãe, Kiche, se "encolhe até a barriga roçar o chão, choraminga, abana o rabo, faz sinais de paz" diante dos homens (LONDON, 1906, p. 86). Este ato de submissão por parte do centro do universo do filhote valida o instinto hereditário e marca o ponto de inflexão na sua existência e a mera presença física do homem impõe a aceitação da sua autoridade.
O domínio dos homens é exercido através de uma forma de poder que Caninos Brancos inicialmente não consegue compreender: a capacidade de manipular objetos inanimados.
Porém, mais impressionante para o filhote de lobo era a sua supremacia sobre as coisas não vivas; a sua capacidade de imprimir movimento às coisas que não se moviam; a sua capacidade de mudar a própria face do mundo. (LONDON, 1906, p. 96).
O encantamento tecnológico caracteriza uma mentalidade moderna marcada pela crença no pleno domínio humano sobre o mundo natural. Essa postura leva o indivíduo contemporâneo a distanciar-se de suas bases ecológicas e a ignorar que sua sobrevivência continua condicionada aos sistemas naturais que o sustentam.
Na narrativa, essa atitude típica da modernidade — marcada pela confiança no poder humano de transformar a matéria do mundo, aparece como expressão clara da posição que o homem assume no topo da hierarquia natural. São instrumentos criados para forçar obediência, limitar o movimento e subjugar a vida que se manifesta de modo espontâneo na natureza. Dessa forma, a primazia humana se afirma não apenas como capacidade técnica, da mesma forma, como domínio coercitivo sobre o mundo natural.
EXAME DA TRANSFORMAÇÃO FINAL SOB WEEDON SCOTT
A última fase da jornada de Caninos Brancos, sob a tutela de Weedon Scott, o "Senhor do Amor" (LONDON, 1906, p. 196), representa o clímax da domesticação, que a Ecocrítica interpreta não como um triunfo sentimental, mas como a forma mais insidiosa e eficaz da violência estrutural exercida pela civilização sobre o mundo não-humano. Scott, um "deus superior" (LONDON, 1906, p. 185), não utiliza o terror explícito de Beleza Smith, mas sim a bondade como mecanismos de controle, culminando na submissão ontológica do protagonista.
A domesticação de Caninos Brancos por Scott atua precisamente como revisão cultural, reconfigurando a natureza do lobo para satisfazer as necessidades emocionais e sociais humanas, mesmo que benevolentes. O processo exige uma "revolução" interior de Caninos Brancos, forçando-o a "ignorar os ímpetos e os estímulos do instinto e da razão, desafiar a experiência, desmentir a própria vida" (LONDON, 1906, p. 190). O preço da sua aceitação é a anulação da sua herança selvagem. Scott não destrói o corpo de Caninos Brancos (como Beleza Smith tentou), mas "amolece o que tinha endurecido e remodelando-o numa forma mais bela" (LONDON, 1906, p. 191).
Essa remodelagem é o cerne da violência estrutural da civilização. O lobo, que outrora encarnava o wilderness o "desconhecido, o terrível, a ameaça perene" (LONDON, 1906, p. 148), é transformado em "Bendito Lobo" (LONDON, 1906, p. 243). O resultado é a destruição da autonomia do não-humano. Portanto, a submissão do protagonista cria-se a ideia de que controlamos a natureza e o amor de Scott é o mecanismo mais sofisticado desta ilusão de controle: Caninos Brancos troca a "Lei da Carne" autonomia biocêntrica pela "Lei da Servidão" sob domínio humano.
A domesticação final, impulsionada pelo amor de Scott, interpretamos como violência, porque o amor é o agente que internaliza a dependência absoluta e nega o impulso da liberdade primordial. O protagonista experimenta a necessidade de Weedon Scott como um "vazio faminto, dolorido, desejoso, que clamava para ser preenchido" (LONDON, 1906, p. 187).
Essa dependência emocional garante a servidão, pois "O domínio do homem era uma necessidade da sua natureza" (LONDON, 1906, p. 191). O ato mais íntimo de Caninos Brancos é o "aconchego" (snuggling), que o texto descreve explicitamente como uma rendição total:
A única coisa de que sempre tinha sido particularmente cioso era da sua cabeça. Sempre desgostara que alguém a tocasse. [...] E agora, com o senhor do amor, aconchegar-se era o ato deliberado de se colocar numa posição de desamparo perfeito. Era a expressão da total confiança, da entrega absoluta, como se ele dissesse: – Eu me coloco nas vossas mãos. Que a vossa vontade seja cumprida em mim (LONDON, 1906, p. 199).
Nesta perspectiva ecocrítica, o “amor” funciona como o mecanismo que converte a antiga coerção física em uma forma de coerção afetiva. Weedon Scott já não precisa recorrer ao chicote: sua simples voz passa a bastar. Seus castigos, ainda que suaves, alcançam Caninos Brancos de modo mais profundo, pois traduzem a desaprovação de quem detém a autoridade afetiva sobre ele, fazendo seu espírito desfazer-se sob esse peso. A violência deixa de ser corporal e se torna moral, operando no apagamento de sua autonomia.
Essa imposição de uma estrutura de valores através do afeto é uma forma de violência estrutural, pois exige que o não-humano (o lobo) se conforme a um papel subalterno dentro da hierarquia antropocêntrica. O lobo é transformado numa propriedade que só encontra propósito no domínio do homem.
A transformação de Caninos Brancos é uma metáfora para a subjugação da natureza. A sua aceitação do domínio humano é a "violência estrutural da civilização" que Garard (2004, p. 25) e outros criticam, onde a "hiperseparação" entre o humano e o não-humano é sustentada por um modelo de domínio (PLUMWOOD, 1993, apud GARRARD, 2004, p. 25). Assim, a domesticação de Weedon Scott, através do amor, atinge o que o castigo não conseguiu: a internalização da lei da civilização, tornando-o um ser completamente moldado, confirmando o conceito ecocrítico de que a ação antropogênica organiza e transforma o Sistema Terrestre (MENDES, 2022). O amor, nesse contexto, é um poderoso agente de aculturação que permite à civilização perpetuar a "destruição colonialista" de tudo o que é selvagem, sob o pretexto da bondade e da redenção (MENDES, 2022).
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
O presente artigo propôs-se a analisar a jornada do protagonista canídeo de Caninos Brancos (LONDON, 1906) sob a lente da Ecocrítica, o estudo da relação entre a literatura e o meio ambiente físico. Os objetivos centrais foram examinar como as estruturas de poder e de valorização do mundo não-humano são representadas na obra, focando em três momentos cruciais da narrativa.
O primeiro momento analítico concentrou-se na Floresta Boreal e na Lei da Carne, interpretadas como símbolos da autonomia da natureza e da lógica biocêntrica que estrutura o wilderness. A Floresta é apresentada como um ator dotado de agência, uma força de “coração gelado” que age com a determinação de aniquilar qualquer forma de movimento ou vida que nela adentre.
A Lei da Carne (“COMER OU SER COMIDO”) foi examinada como o código ecológico da Floresta, refletindo a interconexão e a igualdade ontológica entre as espécies. O filhote de lobo, que "apenas vivia a lei sem pensar sobre ela", encarnava um sistema onde a vida vivia da vida, estando sujeita às "leis inescapáveis da natureza" que governam todos os seres, contrariando o excepcionalismo humano.
O segundo ponto de análise, a discussão do mecanismo de poder e submissão imposto pelos primeiros "deuses", revelou a estratégia pela qual a civilização humana estabelece seu domínio. A supremacia humana é fundamentada não apenas na força bruta, mas na tecnologia e na capacidade de manipulação de "coisas mortas", um poder que parece "divino" ao lobo.
O medo e a "herança selvagem" tornam a submissão quase instintiva para Caninos Brancos. Ele internaliza a Lei da Propriedade e do Dever de Defesa, trocando sua liberdade por comida, fogo e proteção (o cativeiro). Este domínio é um reflexo da falsa ilusão criada pela tecnologia de que "controlamos a natureza", um conceito que a Ecocrítica, através de Fromm, critica veementemente.
A etapa final, o exame da transformação sob Weedon Scott, interpretou a domesticação pelo amor como a forma mais eficaz e sutil da violência estrutural da civilização exercida sobre o não-humano. Scott, o "Senhor do Amor", aperfeiçoa o mecanismo de poder. Ele utiliza a bondade e a carícia para alcançar as regiões profundas na sua natureza que nunca tinham sido sondadas, forçando a entrega absoluta e a total confiança.
Conclui-se que o amor, nesse contexto, é um poderoso agente de submissão ontológica, pois exige a anulação da autonomia natural do lobo, substituindo a Lei da Carne pela servidão e pela dependência emocional. A sua remodelagem representa o triunfo da cultura sobre a natureza, transformando o lobo no inimigo de toda a sua espécie, uma criatura que, no final, era um cachorro que tinha muito de lobo, mas que era um cachorro, e não um lobo.
O estudo de Caninos Brancos sublinha a preocupação fundamental da Ecocrítica: a necessidade de revisar o sistema de valores culturais antropocêntrico. A tragédia de Caninos Brancos é alegórica: ele é moldado pela pressão das circunstâncias, um processo que, em termos de crítica ecológica, expõe a hiperseparação cultural do homem em relação à natureza (GARRARD, 2004).
Ao mostrar como a civilização utiliza a tecnologia e, mais insidiosamente, o afeto, para aniquilar a autonomia natural, a obra de London dialoga com o cenário do Antropoceno — o "Acontecimento histórico-civilizacional sem precedentes" que levou o Sistema Terrestre para fora dos limites da variabilidade natural. A subjugação do lobo pela civilização humana é uma metáfora literária da destruição colonialista do mundo não-humano.
A análise reforça a conclusão do teórico Scott Slovic, de que a Ecocrítica não é uma moda, mas sim uma necessidade crescente, pois, ao resgatar a dignidade e o valor independente da natureza não-humana, ela auxilia a reorganizar os nossos modos de experienciar, pensar, agir e imaginar, promovendo uma consciência ecológica que se opõe à perspectiva homocêntrica e, idealmente, fomenta a interconexão ecológico-social como alternativa à dominação.
Podemos afirmar que os objetivos propostos foram integralmente alcançados, demonstrando-se que a trajetória de Caninos Brancos serve como uma alegoria complexa e multifacetada da relação da humanidade com a natureza, operando como uma crítica fundamental ao antropocentrismo. A análise corroborou a premissa da Ecocrítica de que os estudos literários não só podem, mas devem tomar o mundo não-humano a sério, expondo o impacto dos valores que direcionam as tecnologias ocidentais.
REFERÊNCIAS
BRULLE, Robert. Agency, democracy, and nature: the US environmental movement from a critical theory perspective. Cambridge, MA: MIT Press, 2000.
COMMONER, Barry. The closing circle: nature, man, and technology. New York: Bantam Books, 1972.
CRUTZEN, P.; STOERMER, E. The “Anthropocene”. Global Change Newsletter, n. 41, p. 17–18, 2000.
GARRARD, Greg. Ecocriticism. London; New York: Routledge, 2004.
GLOTFELTY, Cheryll; FROMM, Harold (orgs.). The ecocriticism reader: landmarks in literary ecology. Athens; London: The University of Georgia Press, 1996.
MENDES, João Ribeiro. Antropoceno: um polissema a ser feito. Anthropocenica: Revista de Estudos do Antropoceno e Ecocrítica, n. 3, p. 77–??, 2022.
SCHWÄGERL, Christian. Menschenzeit: Zerstören oder gestalten? Die entscheidende Epoche unseres Planeten. München: Riemann Verlag, 2010.
WORSTER, Donald. The wealth of nature: environmental history and the ecological imagination. Oxford: Oxford University Press, 1993.
Equipe e produção editorial
Professoras orientadoras Profa. Dra. Ana Lúcia Trevisan e Profa. Dra. Elaine Prado
Editores Henrique Silva Santos e João Vítor Tortosa Rodrigues Alves
Revisão Juliana Batista Bonifácio Antão Moreira e Alessandra Porfirio Assis de Lima



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