2026.2| MACHADO DE ASSIS ENTENDERIA AS REDES SOCIAIS

Por Laura Mayer

Se Machado de Assis estivesse vivo hoje, talvez não escrevesse apenas romances. Talvez observasse silenciosamente as redes sociais com o mesmo olhar irônico com que observava a sociedade do século XIX. E, sinceramente, ele não encontraria tanta diferença assim.
Mudaram as roupas, os aplicativos e a velocidade das informações. A vaidade humana, porém, continua praticamente intacta.
Machado sempre entendeu que as pessoas gostam de parecer mais felizes, mais inteligentes e mais importantes do que realmente se sentem. Em seus livros, os personagens escondem inseguranças atrás de discursos elegantes, alimentam o próprio ego e vivem preocupados com a opinião alheia. Hoje, talvez, fizessem exatamente o mesmo, talvez usando filtros e legendas cuidadosamente pensadas.
É difícil imaginar que Bentinho, do romance Dom Casmurro, sobreviveria às redes sociais sem desenvolver uma obsessão ainda maior. Provavelmente passaria horas analisando curtidas, horários de visualização e fotos antigas de Capitu, tentando encontrar provas para dúvidas que existiam muito mais dentro dele do que nela.
Aliás, Machado entenderia perfeitamente a necessidade contemporânea de transformar sentimentos em espetáculo. Há pessoas que não vivem momentos: publicam momentos. Não sentem tristeza; performam tristeza. Não demonstram felicidade; exibem felicidade. Talvez nada disso surpreendesse um escritor que passou a vida descrevendo personagens preocupados em manter aparências.
O mais curioso é perceber que a ironia machadiana continua atual justamente porque a sociedade continua presa às mesmas contradições. Criticamos superficialidade enquanto medimos valor por seguidores. Defendemos autenticidade enquanto editamos cada detalhe da própria imagem. Queremos ser vistos o tempo inteiro, mas raramente nos mostramos de verdade.
Machado de Assis compreenderia o algoritmo humano antes mesmo do algoritmo digital. Porque, muito antes de existir a internet , ele já sabia que as pessoas desejavam aprovação, atenção e reconhecimento.
Talvez por isso sua literatura permaneça tão viva.
No fundo, as redes sociais apenas modernizaram aquilo que Machado já enxergava há séculos: a eterna necessidade humana de aparecer.
Equipe e produção editorial
Professoras orientadoras Profa. Dra. Ana Lúcia Trevisan e Profa. Dra. Elaine Prado
Editores Henrique Silva Santos e João Vítor Tortosa Rodrigues Alves
Revisão Dâmarys Araújo Lima Nascimento e Camila Ribeiro Sales



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