2026.2|Entre o Silêncio e a Resistência: Kim Kitsuragi e a Racialização do Sujeito Asiático emDisco Elysium

Por Eliza Raquel Ziglio Santela

O presente artigo propõe uma análise interseccional do personagem Kim Kitsuragi, tenente da polícia civil em Disco Elysium (ZA/UM, 2019), a partir de referenciais teóricos dos estudos étnico-raciais, da teoria crítica da raça e da Asian Critical Theory (AsianCrit). Argumenta-se que Kim ultrapassa a função narrativa convencional de personagem secundário e se configura como uma figura de resistência silenciosa, cujo corpo racializado tensiona a hegemonia branca do protagonismo ocidental, representado por Harry DuBois. Por meio da análise de diálogos, escolhas interativas e da construção visual do personagem, o artigo examina como o jogo articula mecanismos de racialização, microagressões institucionais e o paradoxo da estrangeirização permanente. A análise mobiliza autoras e autores como Spivak (1988), Chow (1998), Shih (2013), Iftikar e Museus (2015) e Phu (2021), propondo que a ficção digital pode funcionar como espaço privilegiado de crítica social e de representação racial sofisticada.
Palavras-chave: identidade; racialização; Disco Elysium; representação asiática; videogame.
Introdução
Lançado em 2019 pela produtora estoniana ZA/UM, Disco Elysium rapidamente se destacou como uma das obras mais complexas e inovadoras na convergência entre videogames e literatura, trazendo um jogo escrito como um livro, no qual as ações do protagonista determinam o desfecho da história. Ambientado em Revachol, uma cidade fictícia marcada por cicatrizes coloniais, instabilidade política e divisões sociais intensas, o jogo é um terreno fértil para análises de raça, identidade e poder. Em meio a essa narrativa densa, Kim Kitsuragi, tenente da Polícia Civil de Jamrock Norte, emerge como uma figura de alteridade que tensiona a própria lógica do jogo e da ficção contemporânea. Este artigo propõe uma leitura interseccional do personagem Kim Kitsuragi, articulando teoria racial crítica, estudos pós-coloniais e perspectivas asiáticas, especialmente a Asian Critical Theory (AsianCrit). Mais do que apenas um personagem coadjuvante, Kim é construído como um ponto de inflexão ético e narrativo: um corpo racializado que desestabiliza o protagonismo branco, europeizado e caótico de Harry DuBois. Ao longo desta análise, busca-se mostrar como o jogo, por meio de suas escolhas discursivas, visuais e interativas, oferece uma crítica sofisticada à racialização e à exclusão simbólica de sujeitos não brancos, especialmente aqueles de ascendência asiática.
A escolha de Disco Elysium como objeto de análise literária não é arbitrária. O jogo se insere em uma tradição de obras que operam nas bordas dos gêneros, desafiando a distinção entre texto literário e texto lúdico. Com mais de um milhão de palavras em seu roteiro, diálogos filosoficamente densos e uma estrutura narrativa ramificada que privilegia a construção de personagens em detrimento da ação, Disco Elysium reclama para si um estatuto literário que ainda é raramente concedido ao videogame como forma cultural. Analisá-lo sob o prisma dos estudos étnico-raciais é, portanto, uma dupla aposta: a de que o jogo merece o olhar crítico reservado à grande literatura e a de que a representação racial nele contida oferece contribuições genuínas ao debate contemporâneo sobre alteridade, subalternidade e resistência.
Desenvolvimento
Antes de adentrar a análise do personagem, cabe situar Disco Elysium no campo mais amplo da ficção contemporânea. O jogo se distingue de outros produtos da indústria dos videogames pelo primado absoluto da narrativa e pela densidade literária de seu texto. Diferentemente de obras que utilizam a narrativa como suporte para a mecânica de jogo, Disco Elysium inverte essa hierarquia: a mecânica está a serviço da narrativa, e o jogador é essencialmente um leitor ativo.
O mundo de Revachol é construído com um grau de elaboração histórica, social e cultural que rivaliza com grandes obras da ficção científica e da fantasia especulativa. A cidade carrega as marcas de uma revolução fracassada, de uma ocupação colonial prolongada
e de uma ordem social estratificada ao extremo. Essa estrutura de mundo não é apenas cenário mas substrato sobre o qual as questões de raça, classe e poder ganham materialidade narrativa.
Nesse contexto, a presença de Kim Kitsuragi não é acidental. Ela é parte de um projeto textual que se propõe, conscientemente, a interrogar as bases da ordem social, incluindo sua dimensão racial. O jogo não se limita a apresentar personagens racializados como objetos de narrativa, ele os posiciona como sujeitos que confrontam ativamente os mecanismos de sua própria subalternização.
A interatividade, nesse sentido, é uma ferramenta política, pois, ao permitir que o jogador tome decisões que afetam o modo como Kim é tratado (incluindo escolhas explicitamente racistas), o jogo transforma o espaço lúdico em espaço de reflexão ética. O jogador não assiste passivamente ao racismo: ele o performa, o testa ou o recusa. Esse dispositivo cria uma responsabilidade ativa que a literatura convencional raramente é capaz de produzir com a mesma intensidade.
A apresentação do personagem
A narrativa se inicia com Harry DuBois, o protagonista do jogo, conhecendo Kim, um tenente da polícia da cidade de Jamrock Norte, onde ambos fazem parte da força policial civil de Revachol. Kim é apresentado como um homem de ascendência seolita, sendo metade pertencente ao grupo étnico fictício e de mesmo nome e metade revacholiano. O país dos seolitas é Seol, possivelmente inspirado na capital sul-coreana, Seoul, trazendo à tona a questão do preconceito contra pessoas amarelas. O tratamento dado ao personagem, tanto pela narrativa quanto pelas interações com outros personagens, levanta importantes questões sobre raça, alteridade e identidade em contextos urbanos modernos.
Muito se fala sobre personagens não brancos que existem apenas para apoiar protagonistas brancos: o chamado "Token Minority Friend"1. Kim Kitsuragi inicialmente parece cumprir esse papel: ele é o parceiro sensato que salva o protagonista de seus próprios erros. No entanto, à medida que a narrativa avança, Kim adquire profundidade. Ele tem agência, toma decisões, desafia o jogador e tem seu próprio código ético.
1 Amigo de minoria simbólico. Tradução própria
Essa trajetória de revelação progressiva é deliberada. O jogo, ao construir Kim como aparentemente funcional e previsível no início, imita o próprio mecanismo pelo qual sujeitos racializados são percebidos na vida social: como tipos antes de serem indivíduos, como funções antes de serem pessoas. Ao subverter essa expectativa ao longo da narrativa, Disco Elysium critica o próprio mecanismoque aparentemente reproduz.
Em contraste com o protagonista Harry DuBois, um homem branco europeu amnésico, emocionalmente instável e autodestrutivo, Kim representa o oposto: um pilar de ordem, racionalidade e compostura, aquele que cuida de Harry nos momentos de maior insanidade. Tal dicotomia revela como o personagem racializado muitas vezes é construído como funcional e confiável, mas à custa de sua subjetividade plena. Kim raramente fala de si mesmo, mas suas reações sutis, como pausas, silêncios e olhares, indicam uma consciência aguda de sua posição periférica.
Kim, embora visualmente construído com elementos que remetem ao "asiático discreto" — óculos escuros, roupas funcionais, expressão neutra — , aos poucos revela camadas mais complexas: senso de humor, ternura, tristeza. Essa multiplicidade desafia as leituras reducionistas e propõe uma visualidade mais justa.
Thy Phu (2021), ao discutir a justiça visual, aponta para a importância de reconfigurar a representação de sujeitos asiáticos de modo a incluir suas emoções, afetos e contradições: [...] o registro visual da revolução como recurso de elevação, embelezando ainda mais esse registro, reconfigurando-o e reimaginando-o como fontes de prazer estético intensificado, além da reunificação nacional.2(PHU, 2021,. p. 81, tradução própria).
A arte de Kim, tanto na capa oficial do jogo quanto nos retratos internos, é reveladora. Enquanto Harry DuBois aparece frequentemente em estados de desordem e excesso, Kim é retratado com uma compostura que beira o monumental. Há uma dignidade visual no personagem que funciona como contrapeso ao olhar que o racializa: Kim não é apenas representado, ele é visualizado como sujeito pleno.
Essa escolha estética não é neutra. Ela inscreve, na própria materialidade visual do jogo, uma posição política: a de que o corpo racializado merece ser representado em sua integralidade, sem ser reduzido à exoticidade ou à funcionalidade. Kim olha para fora do quadro com uma intensidade que desafia o olhar que tenta aprisioná-lo em categorias.
Essa oposição entre os dois personagens não é apenas uma escolha narrativa de contraste. Ela articula uma crítica à estrutura de representação racial dominante: o homem branco pode ser caótico, falho, autodestrutivo, e ainda assim, ocupar o centro da narrativa, gozando de uma complexidade que lhe é garantida por padrão. O personagem não-branco, por sua vez, precisa ser competente, comedido e funcional para justificar sua presença na história: e, mesmo assim, permanece em posição secundária.
Harry pode se destruir e ser redimido; Kim precisa se manter inteiro para ser útil. Essa assimetria não é incomum na ficção contemporânea, e Disco Elysium a expõe com rara lucidez, tanto ao reproduzi-la quanto ao questioná-la por meio dos diálogos e das reações de Kim diante do caos de Harry. Rey Chow (1998) observa que o silêncio pode ser uma forma de resistência passiva e, ao mesmo tempo, uma imposição do olhar hegemônico, que espera do sujeito racializado uma atitude de servidão e apagamento emocional. Como parafraseado pelo estudioso Lucas Klein: [...] oferecendo estereótipos de asiáticos como "objetos silenciosos, reticentes, passivos, mas também exóticos, misteriosos, de contemplação estética"4(KLEIN, 2018, p. 267, tradução própria).
Ele não é apenas um acessório da narrativa; é uma consciência. Uma figura de resistência silenciosa que, mesmo quando não fala, diz muito. Como símbolo literário, Kim se aproxima daquilo que Gayatri Spivak (1988) chamou de "subalterno falante": ele não se reduz à função que o sistema lhe impõe. Ele se movimenta dentro dela, mas a questiona por sua simples existência.
É importante notar que o silêncio de Kim não é ausência de conteúdo, mas forma de comunicação. No vocabulário dos estudos da comunicação intercultural, o silêncio é frequentemente mais carregado de sentido do que a palavra. Kim fala por meio do que não diz, nas suas pausas diante de insultos,no seu olhar breve quando alguém questiona sua lealdade, na contenção com que responde a provocações racistas. Trata-se de uma eloquência do gesto que a narrativa do jogo captura com precisão.
Nos moldes da crítica pós-colonial e dos estudos culturais, o tratamento da raça em Disco Elysium está longe de ser essencialista. A raça não é um atributo fixo, mas uma construção social e histórica que ganha corpo no discurso, especialmente no modo como os personagens reagem à presença de Kim. O jogo utiliza da narrativa interativa para expor microagressões e o desconforto institucional diante de corpos racializados, mesmo aqueles que "seguem as regras" e representam o Estado.
Argumentos Teóricos
A Teoria Crítica da Raça (Critical Race Theory – CRT), desenvolvida no contexto jurídico norte-americano nas décadas de 1970 e 1980, parte da premissa de que o racismo não é uma anomalia do sistema social, mas um de seus elementos constitutivos. Autoras e autores 4 offering stereotypes of Asians as "silent, reticent, passive, yet also exotic, mysterious, objects of aesthetic contemplation."
como Kimberlé Crenshaw, Derrick Bell e Mari Matsuda estabeleceram que as estruturas raciais são reproduzidas por meio de práticas discursivas, institucionais e culturais que naturalizam a hierarquia racial, mesmo na ausência de intenção explicitamente discriminatória. Nesse sentido, o racismo deve ser entendido como um fenômeno sistêmico e estrutural, e não apenas interpessoal.
A partir desse arcabouço, Iftikar e Museus (2015) propõem a Asian Critical Theory5 (AsianCrit) como uma vertente específica voltada para a compreensão das formas particulares pelas quais asiáticos e asiático-americanos são racializados. O conceito de Asianization6 é central nesse quadro:
Asianização refere-se à realidade de que o racismo e o racismo nativista são aspectos generalizados da sociedade americana, e a sociedade racializa os ásio-americanos de maneiras distintas. Enquanto os princípios originais do CRT esclarecem que o racismo é um aspecto normal da sociedade, a asianização concentra a atenção nas maneiras pelas quais a sociedade agrupa todos os asiático-americanos em um grupo monolítico e os racializa como minorias modelo superdotadas, estrangeiros perpétuos e perigos amarelos ameaçadores.7(IFTIKAR; MUSEUS, 2015, p. 23, tradução própria)
A Asianization é especialmente produtiva para a análise de Kim Kitsuragi porque captura duas dinâmicas que o personagem encarna simultaneamente: a homogeneização de identidades culturalmente diversas sob um único rótulo racial e a narrativa do "modelo de minoria": o sujeito asiático que, por sua disciplina e competência, seria de alguma forma mais "aceitável" para o sistema dominante. Kim é eficiente, racional e comedido; mas essas qualidades, longe de livrá-lo do olhar racializante, tornam-se parte do repertório de estereótipos que o aprisionam.
O ensaio seminal de Gayatri Chakravorty Spivak, Can the Subaltern Speak?8(1988), coloca em questão as condições de possibilidade da fala dos grupos marginalizados dentro de estruturas discursivas dominantes. Para Spivak, o sujeito subalterno não tem acesso irrestrito à palavra: quando fala, o faz dentro de molduras discursivas que frequentemente distorcem, silenciam ou recodificam sua voz para que ela seja absorvida pela lógica hegemônica. O subalterno que fala já é, de certo modo, quem a hegemonia autoriza a falar.
5 Teoria Crítica Asiática, tradução própria
6 Asianização, tradução própria.
7 Asianization refers to the reality that racism and nativistic racism are pervasive aspects of American society, and society racializes Asian Americans in distinct ways. Whereas original CRT tenets clarify that racism is a normal aspect of society, Asianization focuses attention on the ways in which society lumps all Asian Americans into a monolithic group and racializes them as overachieving model minorities, perpetual foreigners, and threatening yellow perils.
8 Pode o Subalterno Falar? Tradução própria.
Essa tensão é produtiva para pensar Kim Kitsuragi. Como tenente da polícia, um representante do aparato estatal, Kim ocupa formalmente uma posição de autoridade. No entanto, sua posição é constantemente minada pelo olhar racializante dos outros personagens e, potencialmente, do próprio jogador. Kim fala, age, decide; mas sua fala é sempre enquadrada, filtrada pela raça que lhe é atribuída. Ele é o subalterno que fala dentro das estruturas que o subordinam, e essa contradição é o coração de sua construção narrativa.
Rey Chow (1998) argumenta que o sujeito asiático é frequentemente construído no imaginário ocidental como um objeto de contemplação estética, reduzido a uma superfície de projeções. O olhar ocidental produz o asiático como silencioso, reticente, passivo, e ao mesmo tempo, exótico, misterioso, decorativo. Como parafraseado pelo estudioso Lucas Klein: [...] oferecendo estereótipos de asiáticos como "objetos silenciosos, reticentes, passivos, mas também exóticos, misteriosos, de contemplação estética."9(KLEIN, 2018, p. 267, tradução própria).
Essa armadilha do olhar é operacionalizada na construção visual de Kim: óculos escuros, postura contida, expressão neutra. Kim é, inicialmente, uma superfície. O projeto do jogo, no entanto, é precisamente o de desconstruir essa superficialidade, revelando progressivamente a complexidade interna do personagem.
Thy Phu (2021), ao discutir a justiça visual em contextos pós-coloniais, argumenta que a representação justa de sujeitos asiáticos exige a reconfiguração do arquivo visual de modo a incluir emoções, contradições e agência: [...] o registro visual da revolução como recurso de elevação, embelezando ainda mais esse registro, reconfigurando-o e reimaginando-o como fontes de prazer estético intensificado, além da reunificação nacional.10 (PHU, 2021, p. 81, tradução própria).
A proposta de Phu ressoa na construção gradual de Kim ao longo do jogo: à medida que o jogador se aprofunda na narrativa, o personagem revela senso de humor, vulnerabilidade, afeto e uma ética pessoal muito particular, camadas que desafiam a expectativa de superficialidade estética.
Shu-mei Shih (2013) propõe o conceito de identidade sinofônica como uma forma de pensar o pertencimento asiático em termos relacionais, a partir dos processos de exclusão e
11 Disponível em:
https://static.wikia.nocookie.net/discoelysium_gamepedia_en/images/9/94/Portrait_kitsuragi.png/revision/latest? cb=20220221100148. Acesso em 04/05/2026
deslocamento que constituem, e não apenas afetam, essa identidade. Para Shih, a identidade asiática diaspórica não é uma essência transportada da terra natal, mas uma construção produzida no encontro com o olhar que exclui: A exclusão racial é impulsionada pela ideologia da supremacia branca e pelas noções de não assimilabilidade e alienação chinesas; a dominação extraterritorial é sustentada pelo imperativo da lealdade.12(SHIH, 2013, p. 176, tradução própria)
Essa perspectiva é diretamente aplicável à situação de Kim Kitsuragi: nascido e criado em Revachol, sem nunca ter visitado Seol e sem falar a língua dos seus antepassados, Kim é lido pelos seus conterrâneos como estrangeiro. Sua identidade não é construída a partir do que ele é ou de onde ele esteve, mas a partir do modo como é percebido: e essa percepção é invariavelmente filtrada pela raça. Kim Kitsuragi é apresentado como um homem mestiço, metade Seolita (grupo étnico fictício claramente inspirado em populações do Leste Asiático) e metade Revacholiano. Ainda assim, ele é sistematicamente percebido como um estrangeiro, inclusive por aqueles que deveriam reconhecê-lo como igual. Sua identidade é lida não a partir de seu pertencimento cultural, mas de sua aparência e supostas origens:
KIM KITSURAGI – "As pessoas me chamam de todo tipo de coisa. Mas
você sabe a única coisa que eles nunca me chamam?" / "Revacholiano." /
"Suponho que ninguém questione se você pertence a esse lugar. Não
importa o quanto você estrague tudo, não importa a bagunça que você faça,
você nunca deixa de ser Revacholiano..." [...] "Eu nasci aqui. Eu cresci
aqui. É a única casa que já conheci. E há uma boa chance de eu morrer no
cumprimento do dever aqui também." / "Mas -- para a maioria dos meus
compatriotas, eu sempre serei um macaco filho da puta."13 ZA/UM, 2019
O peso desse monólogo é difícil de subestimar. Kim articula, em poucas linhas, a experiência fundamental da estrangeirização permanente: o reconhecimento de que, independentemente de nascimento, criação, língua ou lealdade, há um pertencimento que lhe será sempre negado. O uso do insulto racial ao final do trecho, proferido pelo próprio Kim, antecipando o que seus conterrâneos pensam, é especialmente devastador: o racismo não precisa ser dito em voz alta para que Kim o conheça. Ele já internalizou o olhar que o exclui.
12 Racial exclusion is driven by the ideology of white supremacy and notions of Chinese non-assimilability and alienage; extraterritorial domination is sustained by the loyalty imperative
13 KIM KITSURAGI – "People call me all sorts of things. But you know the one thing they never call me?" / "Revacholian." / "I don't suppose anyone ever questions whether you belong here. Not matter how badly you fuck up, no matter what a mess you make, you never stop being Revacholian..." [...] "I was born here. I grew up here. It's the only home I've ever known. And there's a good chance I'll die in the line of duty here, too." / "But -- to most of my countrymen, I will always be some monkey fucker."# ZA/UM, 2019
Kim, inclusive, revela a Harry que nunca sequer pisou em Seol na vida, mostrando que mesmo que não tenha quase nenhum conhecimento próprio do local de nascimento de sua família, ele é reduzido apenas a isso: um imigrante amarelo.
KIM KITSURAGI – "Vejo que você está decepcionado." Um breve
sorriso. "Você está certo em ser - eu não falo uma palavra de Seolita.
Nunca conheci nenhum dos meus avós. Nunca estive em Seol. Sou um
Revacholiano comum, de jardim."14 ZA/UM, 2019
Kim identifica a decepção de Harry, que provavelmente esperava encontrar, no parceiro de ascendência asiática, alguma exoticidade ou diferença cultural marcante, e a confronta com uma ironia amarga: ele é um "Revacholiano comum". A ironia reside no fato de que, para todos os outros, ele jamais será visto como tal.
Essa experiência de não pertencimento, mesmo quando enraizada na terra natal, ecoa o conceito de "estrangeirização permanente" abordado por Iftikar e Museus (2015), segundo o qual indivíduos asiáticos são vistos como forasteiros perpétuos no Ocidente. Kim não é exceção: ele é interpretado através de filtros raciais que o colocam à margem, mesmo dentro de instituições como a polícia.
Shu-mei Shih (2013) argumenta que a identidade sinofônica é construída na articulação relacional com a exclusão e o deslocamento. Kim, que não fala Seolita, nunca visitou a terra de seus avós e se identifica integralmente como Revacholiano, revela como a etnicidade é menos uma questão de origem do que de leitura social. A identidade asiática, nesse contexto, torna-se uma prisão simbólica: ele é constantemente reduzido ao que não é.
Além dos insultos explícitos (como aquele que Kim antecipa no monólogo citado anteriormente), o jogo articula uma série de microagressões que operam de modo mais discreto, mas igualmente eficaz. Personagens demonstram surpresa diante da competência de Kim, questionam sua lealdade ou lhe atribuem conhecimentos culturais que ele não possui; são formas de racismo cotidiano que o jogo captura com precisão quase documental.
Uma das características mais provocativas de Disco Elysium é permitir que o jogador trate Kim de maneira racista. Dependendo das escolhas realizadas, é possível insultá-lo, desconfiar de sua competência ou deslegitimar sua identidade. Não se trata apenas de uma opção narrativa, mas de um dispositivo que expõe o funcionamento do racismo em suas
14 KIM KITSURAGI – "I can see you're disappointed." A brief smile. "You're right to be -- I don't speak a word of Seolite. I've never met either one of my grandparents. I've never been to Seol. I'm a regular, garden variety Revacholiere."
dimensões institucionais e afetivas. Ao conceder ao jogador a possibilidade de agir de forma discriminatória, o jogo o convoca a uma autorreflexão crítica sobre os limites da empatia e da alteridade.
Esse mecanismo difere radicalmente daquele predominante na ficção convencional, em que o racismo costuma aparecer como atributo de personagens explicitamente vilanizados ou como tragédia que acomete vítimas claramente identificadas. Em Disco Elysium, ao contrário, o racismo é colocado nas mãos do leitor-jogador: ele pode escolhê-lo e deve lidar com as consequências dessa escolha. Entre elas, destaca-se a reação de Kim, que registra cada insulto com a contenção característica de quem já esperava tal tratamento.
Essa dinâmica produz um efeito que a teoria literária descreveria como reconhecimento. O jogador que opta por tratar Kim com desrespeito e observa sua reação contida é confrontado com o racismo a partir de um ângulo incomum: o do sujeito que o exerce. Essa perspectiva, raramente acessível na ficção literária tradicional, constitui um dos elementos mais potentes de Disco Elysium enquanto crítica social.
Paralelamente, o jogo também recompensa, em termos narrativos e emocionais, a construção de uma relação de respeito e confiança com Kim. O parceiro silencioso e contido revela-se, ao longo de horas de narrativa, como uma das figuras mais complexas e afetivamente densas do jogo. Tal recompensa não é apenas sentimental; ela sugere, de modo implícito, que a empatia e o reconhecimento da alteridade enriquecem a experiência de quem as pratica e não apenas de quem as recebe.
Kim raramente aborda sua etnia de forma direta. No entanto, suas reações sutis e cuidadosas diante de insultos ou suposições revelam um sujeito plenamente consciente de sua posição em um mundo que o lê antes mesmo que ele se apresente. É nesse ponto que Disco Elysium se aproxima das abordagens da teoria crítica da raça, ao evidenciar que a racialização se constrói por meio de mecanismos discursivos e contextuais, e não como expressão de uma diferença biológica.A figura de Kim Kitsuragi remete à tensão moderna entre pertencimento e exclusão. Ele é um agente da ordem num mundo em ruínas, um estrangeiro no seio do poder. Sua eficiência, senso ético e contenção emocional podem ser lidos como estratégias de sobrevivência em um ambiente hostil, no qual a racialização é sutil, mas constante.
Nesse sentido, Kim representa não só um corpo racializado, mas também a resistência silenciosa da alteridade. Sua presença obriga o protagonista (e, por extensão, o jogador) a confrontar seus próprios preconceitos, visões de mundo e ideologias internalizadas. Ele é, simultaneamente, espelho e ruptura: espelho do que a sociedade espera de um sujeito não branco "aceitável" e ruptura por não se curvar à caricatura nem à subalternidade.
Considerações Finais
Kim Kitsuragi é uma produção importante da literatura contemporânea, ainda que inserido em um meio não tradicional: o videogame. Sua presença em Disco Elysium revela como a ficção digital pode funcionar como crítica social sofisticada, articulando questões de raça, pertencimento e agência.
Ao integrar teorias embasadas nas questões étnico-raciais do povo amarelo, é possível reconhecer que Kim representa tanto os limites quanto as possibilidades da representação racial na cultura contemporânea. Sua contenção, sua racionalidade, seu silêncio e sua resistência compõem uma figura narrativa que exige ser escutada, não como símbolo, mas como sujeito.
Kim não apenas acompanha o protagonista; ele o confronta. Ele desafia o jogador. Ele expõe as tensões da modernidade racializada. E, com isso, amplia os horizontes do que entendemos por literatura, personagem e crítica. No contexto dos estudos étnico-raciais, Kim Kitsuragi representa um avanço significativo na representação de personagens asiáticos na ficção pois ele não é exótico, não é decorativo, não é invisível. Ele é complexo, contraditório e humano, e essa humanidade plena é, em si mesma, um ato político.
A análise proposta neste artigo não esgota as possibilidades interpretativas do personagem. Restam abertas questões relativas à dimensão de gênero e sexualidade de Kim, aspecto que o jogo aborda com igual sensibilidade, às implicações de sua posição de classe dentro da estrutura policial de Revachol e ao modo como sua trajetória se articula com as diferentes ideologias políticas que o jogo coloca em jogo. Essas são direções férteis para
pesquisas futuras, que confirmariam o estatuto de Disco Elysium como um dos objetos mais ricos da cultura contemporânea para os estudos críticos de raça, gênero e poder. Por fim, é necessário sublinhar a importância de expandir o cânone dos estudos literários para incluir obras como Disco Elysium. A ficção digital não é um campo menor ou derivativo: é um dos espaços mais dinâmicos de produção simbólica e crítica social da contemporaneidade. Ignorá-la é empobrecer o debate. Lê-la com o rigor que merece, como este artigo se propõe a fazer, é um passo necessário para que a crítica literária se renove diante das transformações da cultura e da política do século XXI.
Referências Bibliográficas
CHOW, Rey. Ethics after Idealism: Theory, Culture, Ethnicity, Reading. Bloomington: Indiana University Press, 1998.
IFTIKAR, Julie; MUSEUS, Samuel D. "Asian Critical Theory (AsianCrit) Framework." New Directions for Institutional Research, 2015.
KLEIN, Lucas. "Asian American Literature as World Literature." In: The Cambridge History of Asian American Literature. Cambridge University Press, 2018.
PHU, Thy. Warring Visions: Photography and Vietnam. Duke University Press, 2021.
SHIH, Shu-mei. Visuality and Identity: Sinophone Articulations across the Pacific. Berkeley: University of California Press, 2007.
SHIH, Shu-mei. Sinophone Studies: A Critical Reader. New York: Columbia University Press, 2013.
SPIVAK, Gayatri Chakravorty. "Can the Subaltern Speak?" In: Marxism and the Interpretation of Culture, eds. Nelson & Grossberg, University of Illinois Press, 1988.
ZA/UM. Disco Elysium. 2019.
Kim Kitsuragi. Disco Elysium Wiki. Disponível em:
<https://discoelysium.fandom.com/wiki/Kim_Kitsuragi>. Acesso em: 20/08/2025
Equipe e produção editorial
Professoras orientadoras Profa. Dra. Ana Lúcia Trevisan e Profa. Dra. Elaine Prado
Editores Henrique Silva Santos e João Vítor Tortosa Rodrigues Alves
Revisão Elisangela Alves de Oliveira e Camila Ribeiro Sales



Comentários