top of page

2026.2|Definindo mito: O fantasma da ópera enquanto releitura do mito do rapto de Perséfone

Foto do escritor: Revista Só Letrando
Revista Só Letrando
14 de ago.
5 min de leitura

Por Enzo Volpe Carreira



O vocábulo mȳthos, no grego antigo, significava “narrativa” ou “discurso”, e deu origem à palavra “mito” que, segundo o Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa Michaelis, significa “História fantástica de transmissão oral, cujos protagonistas são deuses, semideuses, seres sobrenaturais e heróis que representam simbolicamente fenômenos da natureza, fatos históricos ou aspectos da condição humana”. O substantivo é denotado como “Personagem, fato ou particularidade que, não tendo sido real, simboliza não obstante uma generalidade que se deve admitir” ou “Coisa ou pessoa que não existe, mas que se supõe real” pelo Dicionário Priberam da Língua Portuguesa. As definições pressupõem, portanto, que o termo atua no léxico com sentido similar a “fábula” ou “ficção”, aproximando-se do insólito e do fantástico. No entanto, ainda que seja impossível desassociar o caráter extraordinário dos mitos, há mais de meio século, o lexema tem sido estudado no ocidente a partir de uma perspectiva distinta da usual, atribuindo-lhe valor de realidade. 

Para compreender essa designação mais recente, é preciso, primeiro, observar o papel do mito nas organizações humanas em que ele surge. Segundo Eliade (1972, p. 8), “Todas as grandes religiões mediterrâneas e asiáticas possuem mitologias [...] elas se transformaram e enriqueceram no curso dos séculos”. Sendo inerentes às culturas, os mitos são, na verdade, formadores dos povos, em vez de meras histórias-produto . Para concluir tal pensamento, é recuperada a lembrança de que um mito nunca narra uma falácia, pelo contrário: todo mito ilustra uma realidade — diferentemente de uma diegese deliberadamente fantástica que se compromete unicamente com a invenção. Na complexa tarefa de definir “mito”, Eliade (1972, p. 9) delineia que 

O mito conta uma história sagrada; ele relata um acontecimento ocorrido no tempo primordial, o tempo fabuloso do "princípio". Em outros termos, o mito narra como, graças às façanhas dos Entes Sobrenaturais, uma realidade passou a existir, seja uma realidade total, o Cosmo, ou apenas um fragmento: uma ilha, uma espécie vegetal, um comportamento humano, uma instituição. É sempre, portanto, a narrativa de uma "criação": ele relata de que modo algo foi produzido e começou a ser. O mito fala apenas do que realmente ocorreu, do que se manifestou plenamente. Os personagens dos mitos são os Entes Sobrenaturais. [...] Em suma, os mitos descrevem as diversas, e algumas vezes dramáticas, irrupções do sagrado (ou do "sobrenatural") no Mundo. É essa irrupção do sagrado que realmente fundamenta o Mundo e o converte no que é hoje. E mais: é em razão das intervenções dos Entes Sobrenaturais que o homem é o que é hoje, um ser mortal, sexuado e cultural.


Portanto, considerando a influência decorrente de perspectivas múltiplas e complementares sobre os mitos no decurso do tempo e sua natureza formadora, observa-se que o mito se distancia da fábula, da lenda e do conto, que não aconteceram. Torna-se, então, compreensível classificar o mito como uma realidade cultural viva na qualidade de história sagrada posicionada no tempo fabuloso dos primórdios, in illo tempore. Tendo em vista o valor do mito, é fundamental pontuar como fornecem modelos para a conduta humana, ao passo que revelam como e porque distintos eventos ocorreram pela primeira vez — e reiteram seu impacto perene na existência do homem. 

Ao listar elementos que caracterizam a estrutura do mito, Eliade (1972, p. 18) conclui que “de uma maneira ou de outra, "vive-se" o mito, no sentido de que se é impregnado pelo poder sagrado e exaltante dos eventos rememorados ou reatualizados”. Ademais, à luz do pensamento de Malinowski (1926), o mito “não é uma explicação destinada a satisfazer uma curiosidade científica, mas uma narrativa que faz reviver uma realidade primeva”.

A partir do que foi apresentado, é depreensível a natureza eternamente reencenável do mito na existência humana. Ao pensar em sua transmutação no decorrer dos anos, põe-se que os mitos são ilustrados de outras maneiras em plataformas contemporâneas, como na literatura, na música, no cinema e em outras artes. Há casos em que tais mídias buscam unicamente recontar uma história mitológica valendo-se das possibilidades de seu suporte. No entanto, quando entendida a configuração do mito, torna-se, também, reconhecível que, em outros casos, há histórias ficcionais novas (com personagens originais passando por eventos que ocorrem num espaço-tempo localizável) que são, na realidade, uma releitura reencenada de um mito. Essa associação é dada a partir da identificação de simbologias paralelas entre as histórias, como será feita, no presente trabalho, entre o mito do rapto de Perséfone (também chamada de Core ou Prosérpina), da mitologia Clássica, e O Fantasma da Ópera, adaptação cinematográfica de 2004 do musical da Broadway. 

Brandão (2021, posição 5838) narra: “Core crescia tranquila e feliz entre as ninfas e em companhia de Ártemis e Atená, quando um dia seu tio Hades, que a desejava, a raptou com o auxílio de Zeus”. A interpretação é que a jovem deusa corresponde à personagem Christine Daaé. A bailarina órfã da ópera é retratada como alegre, inocente e brincalhona num grupo de jovens meninas, como as ninfas.

Mas Christine era secretamente uma talentosa soprano, fato conhecido pelo Fantasma, figura de concretude questionável, que se interessou pela menina. No mito, a deusa é atraída ao mundo dos mortos pela intervenção de Zeus, que fez surgir um narciso (ou lírio) para perto de um abismo, dando início à sua catábase, a descida ao mundo dos mortos. Da mesma forma, o Fantasma deixava rosas para Christine e, após sua ovacionada performance, enche seu camarim de buquês da flor antes de fazê-la descer ao seu mundo. 

Enquanto Hades é o deus regente do Tártaro, Reino dos Mortos situado abaixo da terra, o Fantasma habita os calabouços do teatro. Para chegar aos domínios do deus, era necessário atravessar o Rio Estige (ou o Rio Aqueronte, em certas versões) numa gôndola, a mesma forma de acesso ao covil do Fantasma ao cruzar os canais da ópera. Brandão (2021, posição 5844) descreve que “No momento em que estava sendo arrastada para o abismo, Core deu um grito agudo” e, no filme, a cena da descida é musicada pela canção em que Christine atinge a nota mais alta do repertório do musical. 

A descida de Perséfone representa a ligação com a morte, que ficaria atribuída à deusa após o mito, e, simbolicamente, morre uma jovem donzela para dar lugar à nova esposa de Hades, uma deusa madura no controle da vida e da morte — encarnadas na troca das estações. No momento da descida, o filme mostra, sutilmente, os cabelos de Christine com cachos mais soltos e menos penteados, os olhos com maquiagem mais escurecida e sensual, e o vestido passa a revelar suas pernas. 

Dessa forma, a compreensão mais ampla do que configura um mito permite que uma obra contemporânea contextualizada de maneira distinta seja enxergada enquanto reencenação de um mito da cultura clássica a partir da observação atenta aos elementos simbólicos. Aqui, analisa-se a perda da inocência de uma jovem por meio de uma descida ritualística que a liga definitivamente à morte e ao despertar dos desejos, guiada por uma figura masculina carregando a ideia de escuridão. 

Referências 

BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia grega = Mitologia grega Vol. I. 1. ed. Petrópolis: Vozes, 2021. E-book Kindle. Acesso em: 4 nov. 2025. ELIADE, Mircea. Mito e realidade. São Paulo: Perspectiva, 1972. (Coleção

Debates). 


O FANTASMA DA ÓPERA. Direção de Joel Schumacher. Estados Unidos: Warner Bros. Pictures, 2004. 1 filme (143 min.), son., color.


Equipe e produção editorial

Professoras orientadoras Profa. Dra. Ana Lúcia Trevisan e Profa. Dra. Elaine Prado

Editores Henrique Silva Santos e João Vítor Tortosa Rodrigues Alves

Revisão Juliana da Costa Cardia e Dâmarys de Araújo Lima Nascimento 

 
 
 

Comentários


Post: Blog2 Post

©2020 por Só-Letrando. Orgulhosamente criado com Wix.com

bottom of page