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2026.2| A espada do Herói

Foto do escritor: Revista Só Letrando
Revista Só Letrando
14 de ago.
14 min de leitura

Por Lucca Jorge Sanches

Há  muito  tempo,  quando  a  bandeira  de  Zarion  ainda  tremulava  em  todas  as  grandes  nações,  o  mundo  sofreu  nas  mãos  de  Gultharax,  um  colossal  dragão  vermelho  de  Undhurak.

  Tamanha  foi  sua  ira  e  malícia que  destruiu  tudo  em  seu  caminho:  tombou  castelos,  queimou  reis,  desolou  cidades  e  reinos  inteiros  desapareceram  em  ruínas,  deixados  como  memórias  do  que  outrora  foram.  Diante  do  exército  do  dragão,  nada  prosperava,  não  havia  vitória,  não  havia  esperança. Mas,  em  um  dia  de  inverno,  nasceu  um  grande  herói,  de  origem  humilde,  que  reivindicou  a  lendária  espada  dos  Anjos,  Svadnir,  e  cruzou  toda  Erellon,  derrotando  o  mal  que  ali  jazia,  até  enfim  travar  uma batalha contra o grande Dragão.

  O  custo  da  vitória  foi  sua  própria  vida, porém,  por causa   de  sua  morte,  o  Sol  nasceu  mais  uma  vez,  e  assim  veio  uma  longa  era  de  paz,  conhecida  como “ A Era  dos  Heróis”.    Quanto  a  sua  espada,  Svadnir,  muitos  tentaram  encontrá-la,  mas  a  relíquia  desapareceu e,  junto  de  seu  desaparecimento,  surgiu  o  medo  de  que  tal  artefato  caísse  em mãos erradas.

  Muitos  anos  depois,  quando  a  localização  da  espada  foi  revelada,  a  Dama  de  Lantier  convocou  seu  mais  fiel  e  astuto  cavaleiro,  Edwin  de  Grifen— e  ele  respondeu  ao  chamado.


O  Sol  desaparecia  no  horizonte,  refletindo  um  último  rastro  na  água  do  lago,  enquanto  pintava  as  nuvens  distantes  de  laranja.  O  bote  de  Edwin  se  aproximava  da  ilha  sob  uma  leve  chuva  que  molhava  sua  capa;  aquela  nuvem  parecia  existir  apenas  ao  redor  de  Lantier,  e  por  mais  que  muitos  homens  acreditassem  tratar-se  apenas  da  última  chuva  do verão, o cavaleiro sabia que aquilo era um dos frutos da maldição de sua senhora.

  Ele  atracou  o  bote  em  um  pequeno  deque  já  com  as  roupas  úmidas  e  seguiu  em  direção  à  casa.  A  ilha  não  havia  mudado  muito  desde  a  última  vez  que  Edwin  estivera  ali;  continuava  pequena,  silenciosa  e  envolta  pela  névoa  fina  que  sempre  cobria  aquelas  águas,  mas  as  folhas  das  árvores  já  começavam  a  abandonar  o  verde  intenso  do  verão  para  assumir  tons  mais  pálidos,  anunciando  a  chegada  do  outono.  O  vento  atravessava  carregando  o  cheiro  da  chuva  e  do  lago,  e  durante  alguns  instantes,  o  cavaleiro permaneceu observando o lugar antes de se apressar à porta.

  Seus  passos  ecoaram  pelos  corredores  até  chegar  à  sala.  Quando  abriu  a  porta,  deparou-se  com  um  lugar  aconchegante:  a  lareira  estava  acesa,  havia  cobertores  em  um  sofá  e  uma  escrivaninha  ao  fundo,  atrás  de  uma  enorme  janela  com  vista  para  o  lago.  Ali  estava sua senhora, observando a paisagem chuvosa.

  Alguns  afirmavam  que  ela  era  uma  poderosa  feiticeira,  mais  antiga  que  todos  os  reinos  humanos,  outros  diziam  que  jamais  envelhecia,  porque  carregava  uma  maldição  lançada  pelos  Anjos  durante  os  tempos  antigos.  Edwin  ouviu  histórias  suficientes  para  deixar  de  acreditar  nelas,  mas  ainda  assim,  mesmo  após  tantos  anos  servindo-a,  jamais  conseguiu  compreender  que  tipo  de  magia  a  pairava.    Era  alta,  de  longos  cabelos  negros que  desciam  pelas  costas  como  seda  escura,  pele  pálida  e  olhos  azuis.  Naquela  noite,  vestia  o  habitual  vestido  branco,  bordado  com  discretos  fios  prateados  próximos  das  mangas,  e  observava  o  lago  em  silêncio,  imóvel  diante  da  janela.  Porém,  havia  algo  em  seus  olhos  que  Edwin  jamais  encontrará  em  nenhum  humano  jovem.  Não  era  tristeza,  tampouco  frieza,  mas  um  cansaço  profundo,  antigo  e  vivente  —  a  vívida  melancolia  encontrada apenas nas pessoas mais sábias dessas terras.

  —  Sir Edwin...  —  disse  ela,  e  o  cavaleiro  se  pôs  de  joelhos  ao  notar  ser  percebido.  — Você já sabe por que o chamei aqui?

  —  Muitos  rumores  chegaram  até  Eamont,  minha  senhora.  —  Ele  respondeu,  mantendo  a  cabeça  baixa.  —  Eu  imagino  que  sejam  os  boatos  de  que  encontraram  a  espada do herói.

  O silêncio perdurou por alguns segundos, então ela se virou.

  —  Os  rumores  são  verdadeiros.  Encontraram  Svadnir.  Mas  não  sou  a  única  que  sabe  a  sua  localização.  Se  a  Feiticeira  alcançar  a  relíquia  antes  de  nós,  os  reinos  mergulharão novamente em guerra. Entende isso?

  — Sim senhora… Deseja que eu parta ao amanhecer? — perguntou o cavaleiro.

  Ela assentiu com um leve movimento de cabeça.

—  Traga  Svadnir  para  mim,  Sir.  Edwin.  E  não  permita  que  ninguém  a  utilize.         

Ao  se  virar,  estendeu  o estendeu  um  mapa,  o  velho  pergaminho  que  guiaria  a  jornada.  Antes  que  Sir. Edwin  recuasse  o  braço,  a  Dama  pousou  em  seu  ombro.  

—  Vá,  meu  cavaleiro.  Mas  guarde  bem  o  seu  coração  na  estrada  —  avisou  ela.  —  Tome  cuidado  com  a  língua  afiada  dos  feiticeiros  e  corvos  dela.  Eles  marcham  para  a  ruína  e  são  tolos,  mas  possuem uma lábia afiada. Não dê ouvidos às suas palavras.

   —  Trarei  a  espada,  minha  senhora.  —  respondeu  Edwin.  —  Nenhuma  mentira  me  afastará do meu deve

  Com  essas  palavras,  ele  partiu,  montado  em  Alden,  o seu  robusto  cavalo  negro.  Atravessaram  o  rio,  cruzaram  vilas,  colinas  e  florestas,  dormiram  em  tavernas  e  sob  o  luar, viajando para onde o Sol se põe, até encontrarem onde a relíquia jazia.

  Naquele  dia,  trotavam  entre  as  árvores,  enquanto  o  vento  balançava  as  copas,  e  algumas  folhas  dançavam  até  o  chão.  Deviam  estar  no  meio  do  outono,  mas,  naquela  floresta  as  árvores  ainda  estavam  de  cabelos  verdes,  e  a  temperatura  era  úmida,  como  se  a  primavera  nunca  deixasse  aquele  lugar.  Os  pássaros  cantavam,  e  se  via  uma  ou  outra  flor  que  florescia  em  meio  a  um  gramado  verdejante.  Viajavam  por  um  caminho  carcomido  pelo  tempo,  e  logo  veio  ao  cavaleiro  a  estranha  sensação  de  que  ninguém  cruzava  aquele  lugar desde os tempos do herói, e essa sensação tomou-lhe a consciência.

  —  Acho  que  estamos  chegando.  —  disse,  passando  a  mão  na  crina  de  Alden. —  Precisamos nos apressar.

  Eles  seguiram  em  frente,  galopando  o  mais  rápido  que  Alden  conseguia.  Quanto  mais  fundo  iam,  mas  belo  e  vívido  o  lugar  parecia  se  tornava:  o  gramado  esverdeava,  as  flores  brotavam,  e  as  árvores  se  engrandeciam.  Mas,  no  fundo,  Edwin  sentia  um  mal mau pressentimento.  Uma  brisa  gélida  cruzou  o  caminho  deles,  atravessando  o  corpo  do  cavalo  e  do  cavaleiro  com  um  intenso  calafrio;  as  árvores  empalideceram,  as  folhas  caíram, e  flores  murcharam.  Eles  pararam,  e  segundos  depois,  Edwin  viu  um  vulto  negro  voando à sua frente  cortando  floresta  adentro,  e  depois  mergulhando  sobre  suas  cabeças  e antes  desaparecendo na retaguarda.

  Era  um  corvo …   pensou, estreitando  os  olhos  e  olhando  para  trás. Os  homens  da  feiticeira  estão  próximos.   

  Olhou  à  frente,  e  viu  que  a  sensação  primaveril  havia  retornado.

  Seguiram  adiante  por  algumas  horas,  até que,  enfim,  Alden  se cansou  e  o  céu  se  preencheu  pelas  estrelas.  Edwin  montou  acampamento,  enrolou-se em  seu  saco  dormir,  deu  uma  olhada  no  mapa  que  guiava  a  sua  missão,  e  enquanto  a  fogueira  crepitava  sob  o  belo véu cintilante, adormeceu.

  Naquela  manhã,  Edwin  se  levantou,  enrolou  seu  saco  de  dormir,  colocou  a  bagagem  de  volta  em  Alden,  e  pegou  o  mapa.  Mas,  antes  de  apagar  a  fogueira,  a  sombra  retornou.

  Ao  soar  do  grasnado,  o  calafrio  voltou,  e  viu  entre  as  árvores  três  corvos  mergulhando  em  sua  direção.  A  presença  deles  adoeceu  a  floresta:  as  folhas  caíram,  os  pássaros se calaram e o verde das árvores perdeu o brilho.

  Edwin  tentou  alcançar  Alden,  mas  estava  desmontado,  e  as  aves  desciam  como  flechas, mirando no mapa.

 Um rasante. Outro. Outro.

 O  cavaleiro  segurou  o  pergaminho  junto  ao  peito  enquanto  tentava  agarrar  as  rédeas  do  cavalo.  Alden  havia  se  assustado,  e  só  Edwin  e  a  Dama  sabiam  o  quão  covarde  ele  podia  ser  nestes  momentos.  Antes  do  cavaleiro  conseguir  segurá-lo,  ele  disparou  floresta  adentro.  Os  corvos  cercaram  o  homem,  grasnando  ao  redor  de  sua  cabeça  como  se fossem berros de espanto, enquanto tentavam arrancar o mapa de suas mãos.

  Edwin  sacou  a  sua  espada  e  tentou  alguns  ataques  contra  o  ar.  Então  ele  ouviu  cavalos,  cinco  homens  romperam  a  trilha  apontando  lanças  em  sua  direção e usando  mantos  negros  marcados  pelo  símbolo  do  corvo.  Atrás  deles  vinha  outro  homem,  montado em um belo cavalo cinzento.

  —  Largue  a  espada!  —  disse  ele.  

  Edwin,  olhando  em  volta  viu  as  lanças  apontadas  em seu rosto, seguradas por homens em cavalos de batalha, então largou a espada.

  O  mesmo  homem  desmontou  e  tirou  o  capuz,  era  pálido  e  careca,  possuía  diversas  tatuagens  espalhadas  pelo  rosto  e  pelo pescoço,  mas  apenas  uma  chamou  a  atenção  de Edwin: a de um corvo com asas abertas bem no meio da testa, a  marca da feiticeira.

  — Me entregue o mapa. — disse o feiticeiro, numa voz baixa e ríspida.

  As  lanças  foram  pressionadas  contra  as  costas  de  Edwin.  

  Preciso  fazer  algo,  e  rápido,  pensou,  esses  homens  vão  me  matar.  

  Não  viu  outra  opção:  puxou  o  mapa  do  bolso,  e  o  amassou  em  uma  esfera.  O  feiticeiro  levantou  o  braço  para  pegar  o  pergaminho;  quando  Edwin  abriu  a  mão,  entretanto,  soltou  em  direção  a  fogueira;  o  pergaminho se desfez em cinzas, a face do feiticeiro se encheu de raiva e ordenou:

  — Matem-no!

Mas antes que pudessem agir, Edwin disse:

  —  Sem  mim, jamais  encontrarão  a  espada,  feiticeiro!  —  O  silêncio  caiu  entre  eles.  — Decorei cada detalhe daquele mapa. Eu  sei como chegar até ela.

  O  feiticeiro  permaneceu  encarando-o durante longos  segundos. Então  ergueu  lentamente a mão, impedindo seus homens.

  —  Que  seja  então.  Eu  o  matarei  quando  colocar  as  mãos  na  espada.  Agora  ande,  cavaleiro de estrada! Mostre-nos o caminho!

  Marcharam  pelo  resto  do  dia  sob  a  escolta  das  lanças  apontadas  para  as  costas  do  cavaleiro.  Edwin  tentou  atrasá-los  o  máximo  possível,  caminhando  lentamente  pelas  trilhas  antigas  da  floresta  enquanto  o  ambiente  ao  redor  se  tornava  cada  vez  mais  estranho  e  belo.  Quando  a  noite  caiu,  o  feiticeiro  ordenou  que  montassem  acampamento.

  Naquela  noite,  as  mãos  de  Edwin  permaneceram  amarradas  uma  à  outra,  enquanto  dois  homens  o  observavam  sentados  próximos  da  fogueira.  Os  outros  dormiam  espalhados  pela  mata,  mas  o  feiticeiro  permanecia  acordado  do  outro  lado  do  fogo,  observando  as  chamas  em  silêncio.  Havia  algum  cansaço  no  olhar  daquele  homem;  não  o  cansaço  de  uma  longa  viagem. Era  um  tipo  de  olhar  parecido  com  o  que  Edwin  vira  na  Dama,  mas  bem  menos  vívido  —  um  cansaço  que  não  derivava  do  tempo,  mas  do  sofrimento,  como  a  pele  do  ferreiro  que  envelhece  mais  rápido  por  conta  do  trabalho  no  fogo.

  —  Você  já  viu  um  reino  morrer,  cavaleiro?  —  perguntou  o  feiticeiro  de  repente.  

  Edwin  ergueu  os  olhos,  mas  não  respondeu.

    —  Eu  nasci  em  Havard.  —  continuou  o  homem.  —  Quando  era  criança,  meu  pai  servia  um  senhor  que  prometia  proteger  aquelas  terras.  Jurava  defender  os  homens  que  viviam  ali. 

   As  chamas  refletiam  em  seus  olhos  enquanto  falava.  

  —  Então  veio  o  inverno...  Os  celeiros  permaneceram  fechados;  os  nobres  se  entupiram  de  comida  até  as  barrigas  estufarem,  enquanto  as  crianças  morriam  nas  ruas. —parou  e  fitou  Edwin. —  A  Feiticeira…  abriu  os  celeiros  no  último inverno e deu o que comer aos pobres.

  Edwin manteve a expressão firme e provocou:

  —  E  por  isso  ela  quer  uma  espada?  Para  dar  às  pessoas  o  que  comer?  —  estreitou  os  olhos.  —  É  essa  a  desculpa  que  diz  para  si  mesmo?  Você  sabe  muito  bem  dos  horrores  que  ela  causou,  dos  horrores  que  causa.  Vindo  para  cá,  não  só  ouvi  histórias,  como também  vi  homens enforcados nos bosques; homens que foram contra a vontade dela.

  —  Os  bardos  transformaram  a  espada  em  símbolo  —  continuou  o  feiticeiro.  —  Uma  relíquia  para  ser  escondida  enquanto  os  reinos  apodrecem  lentamente.  Ela  acredita  que  Svadnir  foi  criada  para  mudar  o  destino  deste  mundo,  não  para  permanecer  enterrada.  Enquanto  a  sua  fé,  cavaleiro,  está  em  senhores  que  pretendem  escondê-la, para nunca mais ser encontrada.

  Edwin  passou  o  resto  da  noite  acordado,  observando  o  crepitar,  imerso  na  escuridão, encarando o carvão em brasa até o amanhecer.

 No dia seguinte, o feiticeiro soltou as amarras de Edwin, e seguiram riacho abaixo.

  Ao  primeiro  vislumbre,  o  lugar  parecia  apenas  belo,  mas  os  olhares  mais   atentos poderiam  perceber  que  aquele  ambiente  transbordava  magia.  Ao  aproximar-se  do  lago,  seguindo  trilha  adentro,  as  árvores  tornaram-se mais  formosas,  com  galhos  e  ramos  longos,  que  se  contorciam  elegantemente  em  direção  ao  Sol.  A  grama  se  tornava  mais  verde,  mais  viva,  e  os  raios  de  sol  passavam  pelas  copas  das  árvores  na  forma  de  resplandecentes  fachos  de  luz.  Flores  emergiram  do  solo  e  dos  troncos  de  diversas  cores  e  formas:  lírios,  violetas,  azaleias,  hortênsias,  e  jasmins,  agrupavam-se em  pequenos  conjuntos,  misturando-se  de  vez  em  quando,  criando  coloridas  poças  de  pétalas.

  E  lá  estava,  depois  de  todo  esse  caminho,  a  inegável  existência  de  magia  naquele  lugar.  Um  majestoso  lago,  formoso  e  vasto e cheio  de  vida com   patos,  peixes  e  ovelhas  que  pastavam  na  costa.  Mas  o  olhar  de  todos  ali  foi  para  outro  lugar,   uma  árvore  enorme  erguia-se  de  uma  pequena  ilha  no  lago  como  um  gigante, como  a  mãe  de  uma  floresta,  os  elfos  a chamavam de Ysmanir, e os humanos das terras próximas, de Flurmór, a anciã.

  Por  um  momento,  Edwin  se  esqueceu  do  toque  gélido  das  lanças  mortais tamanho  era  o  maravilhamento.  Na  verdade,  até  mesmo  os  cavaleiros  se  esqueceram  do  prisioneiro. Mas o feiticeiro fez questão de lembrá-los dizendo:

  — Matem-no agora. Já chegamos até onde ele era útil.

  —  Não  chegaram,  ainda  há  um  lago  para  cruzar,  e  duvido  que  saibam  de  seus  dois  perigos. — respondeu Edwin.

 — E quais são os perigos? — perguntou um dos homens.

  —  O  primeiro  deles  é  que  não  devem  tocar  na  água,  pois  ela  queima,  e  morrerão  se  caírem  nela,  e  o  segundo,  eu  contarei  quando  subirmos  naqueles  botes.  

 Apontou  para dois botes musgosos que estavam na margem.

—  Esperem.  —  disse  o  feiticeiro.  —  Um  de  vocês!  Coloque  o  dedo  no  lago,  veja  se  ele está dizendo a verdade.

  Os  homens  olharam  uns  aos  outros,  até  que  o  mais  corajoso  deles  tomou  a  frente, se ajoelhou ajoelhou-se e colocou o dedo na água de olhos fechados.

  Quando  sentiu  a  água  em  seu  dedo,  no  primeiro  instante,  não  aconteceu  nada,  de  repente,  uma  dor  súbita  tomou  seu  dedo,  e,  ao  soltar  um  grito  e  cair  para  trás,  percebeu  que  estava  vermelho  e  cheio  de  bolhas.  A  dor  era  tamanha,  que  enfiou  sua  mão  na  terra,  na tentativa de amenizá-la.

  Subiram  no  barco  e  remaram  até  o  lago,  o  cavaleiro  suspirou.  Edwin  ficou  em  um  barco  diferente  do  feiticeiro,  junto  com  outros  dois  homens  que  apontavam  suas  lanças  para  ele.

  —  E  qual  é  a  segunda  coisa  que  devemos  saber?  —  disse  o  feiticeiro.  —  É  melhor  dizer, ou te jogarei no lago.

  — Não olhem para o lago. — disse Edwin. — Sob nenhuma circunstância.

  Os  botes  boiaram  em  direção  a  ilhota,  no  meio  do  caminho,  sombras  passavam  pelos  barcos,  ninguém  conseguia  vê-las,  mas  as  sentiam  debaixo  d’água,  nadando  por  baixo  dos  botes.  Quando  de  repente,  elas  pararam,  e  um  pequeno  brilho  majestoso  refletiu refletiu-se no rosto de um dos homens; e ele sabia o que era; ouro.

  Foi  tomado  pela  curiosidade,  ou  ganância,  e  olhou  para  baixo.  Quando  viu,  seja  lá  o  que  realmente  estava  no  lago,  desejou jogar-se nele.  O  barco  tremeu  ao  seu  levantar,  um de seus companheiros perguntou:

  — O que está fazendo?

  Então,  com  o  chacoalhar  do  bote,  tentou  saltar.  Mas  antes  que  conseguisse,  Edwin  o  segurou  pela  gola,  agarrou  o  homem  e  o  colocou  de  volta  sentado,  tampando  a  sua visão do lago logo em seguida. Enquanto o homem se recobrava, Edwin disse: 

— Eu falei para não olharem!

  Quando  seu  olhar  cruzou  com  o  do  feiticeiro,  ele  viu  um  leve  sorriso,  uma  afirmação;  estava  ganhando  a  confiança  deles.  Até  chegarem  na à ilha,  não  houve  nenhuma ponta de lança em suas costas.

  Conforme  se  aproximavam,  notaram  a  presença  de  alguém  na  ilha.  Uma  figura  feminina  que  os  encarava  de  longe. Tinha  longos  cabelos  castanhos,  e  uma  pele  queimada  pelo  Sol.  Possuía  claros  traços  élficos  e  usava  um  belo  vestido  branco  e  verde,  bordado  com  um  leve  prateado.  Seu  rosto  era  marcado  com  marcas  brancas  de  runas  feéricas  minuciosamente  desenhadas.  Ela  se  aproximou  deles,  plena  em  estatura,  enquanto  os  botes  se aproximavam da ilha. Edwin sabia quem era: a Eremita, guardiã da espada.

  —  Quem  sois  vós?  Por  que  buscais  a  espada  do  herói?  —  disse  sua  voz  que  ecoou  por todo o lago, e chacoalhou a copa das árvores.

  Ninguém respondeu, e ela se manteve observando, de olhos cerrados.

  O  bote  parou,  e  um  dos  homens  que  estava  junto  com  o  feiticeiro  desceu  para  segurá-lo.  Quando,  de  repente,  vinhas  romperam  o  chão  e  atravessaram  sua  perna,  penetrando  pela  panturrilha,  subindo  por  dentro  do  seu  corpo,  saindo  pela  boca,  e  o  sangue  escorreu  pelas  vinhas  verdes  que  haviam  crescido.  O  homem  havia  sido  empalado.

  —  O  primeiro  teste  é  o  da  vontade.  —  disse  a  Eremita.  —  Ninguém  que  não    pretenda encontrar  a  espada  pode  pisar  na  ilha.  

    Ela olhou  para  todos,  esperando  que  alguém fizesse o movimento.

  O  feiticeiro  se  colocou  à  frente,  pisando  na  terra  com  convicção;  nada  lhe  ocorreu,  e  a  Eremita  o  fitou.  Edwin  respirou  fundo,  e  fez  o  mesmo,  enquanto  os  outros  homens permaneceram nos botes, olhando o corpo empalado.

  —  Muito  bem…  —  disse  a  Eremita,  convencida.  —  Serão  os  dois  então…  sigamos  para o segundo teste.

  Num  simples  piscar  de  olhos,  todas  as  flores  da  ilha  viraram  espadas:  grandes  e  pequenas,  prateadas  e  douradas,  simples  ou  adornadas  por  joias,  centenas  delas  fincadas na terra.

  A Eremita disse:

  —  Uma  dessas  espadas  foi  a  primeira  espada  do  herói.  Aquele  que  encontra-la,  prosseguirá  para  o  próximo  teste.  Mas  caso  escolha  a  espada  errada…  —  Ela  olhou  para  o homem empalado. — Já sabem o  com quem irrita Ysmanir em sua ilha.

 O feiticeiro olhou as espadas e disse:

  —  Mostre-me!  Mostre-me  qual  é  a  espada  correta,  cavaleiro!  Podemos  mudar  as  coisas,  podemos  trazer  uma  nova  era  se  tivermos  a  espada.  Ou  prefere  que  ela  fique  trancada em algum porão?

  Edwin respirou fundo.  Qual foi a primeira espada do  herói?  

Então, percebeu:

  —  Aquela  ali!  Aquela  é  a  primeira  espada  do  herói!  Como  foi  dito  nas  lendas!  —  Era  uma  espada  bela,  prateada  com  adornos  de  rubi  e  detalhes  em  ouro.  Havia  no  pomo  o brasão do reino Caellon, o reino que o herói nascera.

  — Uma bela espada, deveras, digna de um herói. — disse o feiticeiro.

  Aproximou-se  dela  lentamente,  como  um  homem  diante  de  um  altar,  e  com  as  duas  mãos  a  arrancou  arrancou-a do  chão.  Seus  olhos  percorreram  a  lâmina  prateada,  os  detalhes  dourados, o brasão de Caellon.

  Nada aconteceu. Por um instante, ninguém ousou se mover.

 Um sorriso lento surgiu no rosto do feiticeiro.

  — Eu disse, cavaleiro, que o mataria quando conseguisse a espada!

  Ele  avançou  para  desferir  o  golpe  contra  Edwin,  mas  as  vinhas  surgiram  do  chão  antes  que  a  espada  o  alcançasse.  Entraram  por  suas  pernas,  atravessaram  sua  carne  e  se  arrastaram  por  dentro  de  seu  corpo.  O  feiticeiro  soltou  a  espada  e  arqueou  o  corpo  num  grito  de  dor,  enquanto  vinhas  rasgavam  seus  olhos,  sua  testa  e  a  ponta  de  seus  dedos;  transformando-o em uma árvore.

  Seus  homens  se  desesperam,  um  deles  caiu  no  lago,  sendo  queimado  vivo.  Os  outros  correram  para  tentar  sair,  mas  ao  tentarem  salvar  o  que  havia  caído,  olharam  para o lago, e caíram em seu feitiço, se jogando em direção a ele.

  A  Eremita  observou  as  vinhas  consumindo  o  corpo  do  feiticeiro  sem  qualquer  reação,  olhou  para  o  grito  abafado  dos  homens  que  caíram  no  lago,  e  voltou  os  olhos  para Edwin.

 — E então? — prosseguiu ela. — Qual foi a primeira espada do herói?

  O  cavaleiro,  agora  sozinho,  caminhou  em  meio  àquelas  espadas  magníficas:  ouro,  prata,  rubis  e  joias  reluziam  entre  as  flores  mortas  da  ilha.  Mas  nenhuma  delas  parecia  pertencer  ao  homem  descrito  nas  antigas  lendas.  —  Parou  diante  de  uma  pequena  espada de madeira, feita por dois galhos e uma corda.

  —  O  herói  nasceu  em  uma  pequena  vila  de  Caellon,  e  brincava  de  ser  cavaleiro  quando  era  pequeno.  Não  teve  uma  origem  nobre.  —  disse.  —  Estamos  tão  acostumados  a  ver  afrescos  e  telas  de  seus  momentos  de  glória,  com  armaduras  de  prata  e  ouro,  que  nos esquecemos disso…

  Puxou  a  pequena  espada  da  terra  e  aguardou  de  olhos  fechados  pela  dor  das  vinhas.  Mas  nada  aconteceu.  Ele  havia  passado  no  teste,  e  pela  primeira  e  última  vez  viu  a Eremita sorrir.

  —  O  último  teste  é  uma  pergunta,  jovem  cavaleiro.  Qual  a  razão  da  sua  busca  pela  Svadnir?

  —  Pois  é  meu  dever  entregá-la  à  minha  Senhora,  a  Dama  de  Lantier,  para  que  ela  possa guardá-la até a chegada do próximo herói.

  A  Eremita  o  observou  em  silêncio  por  alguns  instantes  antes  de  voltar  os  olhos  para Ysmanir.

  — Que seja então. Apenas aquele que não deseja a espada para si pode tomá-la.

  O  tronco  de  Ysmanir  abriu-se,  se  envergando  como  barras  de  chumbo,  e  revelando  o  que  restara  da  lenda.  Os  olhos  de  Edwin,  porém,  não  encontraram  a  gloriosa  espada  angelical,  mas  a  verdade  sobre  o  que  havia  acontecido:  Svadnir  estava  partida.  Seus  fragmentos  prateados  repousavam  sobre  o  âmago  da  árvore,  reluzindo  com belas runas. Ele tomou os estilhaços com reverência.

  —  Você  jamais  poderá  usá-la,  cavaleiro.  —  disse  a  Eremita.  —  Pois  esta  lâmina  não  pertence  ao  seu  tempo,  seja  isso  uma  dádiva  ou  uma  maldição,  sua  ausência  é  o  fardo  que  devemos  carregar  até  que  o  novo  herói  possa  encontrá-la,  e  sob  o  fogo  dos  dragões,  ela seja reforjada.

  Ao  deixar  a  ilha,  encontrou  Alden  esperando  por  ele  na  margem  do  lago,  como  se  jamais  tivesse  partido,  e  juntos  galoparam  ao  nascer  do  Sol.  Svadnir  foi  entregue  à  Dama  de  Lantier,  e  as  lendas  dizem  que  ela  ainda  aguarda  em  silêncio  a  chegada  do  próximo  herói.

Equipe e produção editorial

Professoras orientadoras Profa. Dra. Ana Lúcia Trevisan e Profa. Dra. Elaine Prado

Editores Henrique Silva Santos e João Vítor Tortosa Rodrigues Alves

Revisão Julia Fernandes Pimentel e Laura de Hollanda Archanjo


 
 
 

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