2026.2| A espada do Herói

Por Lucca Jorge Sanches

Há muito tempo, quando a bandeira de Zarion ainda tremulava em todas as grandes nações, o mundo sofreu nas mãos de Gultharax, um colossal dragão vermelho de Undhurak.
Tamanha foi sua ira e malícia que destruiu tudo em seu caminho: tombou castelos, queimou reis, desolou cidades e reinos inteiros desapareceram em ruínas, deixados como memórias do que outrora foram. Diante do exército do dragão, nada prosperava, não havia vitória, não havia esperança. Mas, em um dia de inverno, nasceu um grande herói, de origem humilde, que reivindicou a lendária espada dos Anjos, Svadnir, e cruzou toda Erellon, derrotando o mal que ali jazia, até enfim travar uma batalha contra o grande Dragão.
O custo da vitória foi sua própria vida, porém, por causa de sua morte, o Sol nasceu mais uma vez, e assim veio uma longa era de paz, conhecida como “ A Era dos Heróis”. Quanto a sua espada, Svadnir, muitos tentaram encontrá-la, mas a relíquia desapareceu e, junto de seu desaparecimento, surgiu o medo de que tal artefato caísse em mãos erradas.
Muitos anos depois, quando a localização da espada foi revelada, a Dama de Lantier convocou seu mais fiel e astuto cavaleiro, Edwin de Grifen— e ele respondeu ao chamado.
O Sol desaparecia no horizonte, refletindo um último rastro na água do lago, enquanto pintava as nuvens distantes de laranja. O bote de Edwin se aproximava da ilha sob uma leve chuva que molhava sua capa; aquela nuvem parecia existir apenas ao redor de Lantier, e por mais que muitos homens acreditassem tratar-se apenas da última chuva do verão, o cavaleiro sabia que aquilo era um dos frutos da maldição de sua senhora.
Ele atracou o bote em um pequeno deque já com as roupas úmidas e seguiu em direção à casa. A ilha não havia mudado muito desde a última vez que Edwin estivera ali; continuava pequena, silenciosa e envolta pela névoa fina que sempre cobria aquelas águas, mas as folhas das árvores já começavam a abandonar o verde intenso do verão para assumir tons mais pálidos, anunciando a chegada do outono. O vento atravessava carregando o cheiro da chuva e do lago, e durante alguns instantes, o cavaleiro permaneceu observando o lugar antes de se apressar à porta.
Seus passos ecoaram pelos corredores até chegar à sala. Quando abriu a porta, deparou-se com um lugar aconchegante: a lareira estava acesa, havia cobertores em um sofá e uma escrivaninha ao fundo, atrás de uma enorme janela com vista para o lago. Ali estava sua senhora, observando a paisagem chuvosa.
Alguns afirmavam que ela era uma poderosa feiticeira, mais antiga que todos os reinos humanos, outros diziam que jamais envelhecia, porque carregava uma maldição lançada pelos Anjos durante os tempos antigos. Edwin ouviu histórias suficientes para deixar de acreditar nelas, mas ainda assim, mesmo após tantos anos servindo-a, jamais conseguiu compreender que tipo de magia a pairava. Era alta, de longos cabelos negros que desciam pelas costas como seda escura, pele pálida e olhos azuis. Naquela noite, vestia o habitual vestido branco, bordado com discretos fios prateados próximos das mangas, e observava o lago em silêncio, imóvel diante da janela. Porém, havia algo em seus olhos que Edwin jamais encontrará em nenhum humano jovem. Não era tristeza, tampouco frieza, mas um cansaço profundo, antigo e vivente — a vívida melancolia encontrada apenas nas pessoas mais sábias dessas terras.
— Sir Edwin... — disse ela, e o cavaleiro se pôs de joelhos ao notar ser percebido. — Você já sabe por que o chamei aqui?
— Muitos rumores chegaram até Eamont, minha senhora. — Ele respondeu, mantendo a cabeça baixa. — Eu imagino que sejam os boatos de que encontraram a espada do herói.
O silêncio perdurou por alguns segundos, então ela se virou.
— Os rumores são verdadeiros. Encontraram Svadnir. Mas não sou a única que sabe a sua localização. Se a Feiticeira alcançar a relíquia antes de nós, os reinos mergulharão novamente em guerra. Entende isso?
— Sim senhora… Deseja que eu parta ao amanhecer? — perguntou o cavaleiro.
Ela assentiu com um leve movimento de cabeça.
— Traga Svadnir para mim, Sir. Edwin. E não permita que ninguém a utilize.
Ao se virar, estendeu o estendeu um mapa, o velho pergaminho que guiaria a jornada. Antes que Sir. Edwin recuasse o braço, a Dama pousou em seu ombro.
— Vá, meu cavaleiro. Mas guarde bem o seu coração na estrada — avisou ela. — Tome cuidado com a língua afiada dos feiticeiros e corvos dela. Eles marcham para a ruína e são tolos, mas possuem uma lábia afiada. Não dê ouvidos às suas palavras.
— Trarei a espada, minha senhora. — respondeu Edwin. — Nenhuma mentira me afastará do meu deve
Com essas palavras, ele partiu, montado em Alden, o seu robusto cavalo negro. Atravessaram o rio, cruzaram vilas, colinas e florestas, dormiram em tavernas e sob o luar, viajando para onde o Sol se põe, até encontrarem onde a relíquia jazia.
Naquele dia, trotavam entre as árvores, enquanto o vento balançava as copas, e algumas folhas dançavam até o chão. Deviam estar no meio do outono, mas, naquela floresta as árvores ainda estavam de cabelos verdes, e a temperatura era úmida, como se a primavera nunca deixasse aquele lugar. Os pássaros cantavam, e se via uma ou outra flor que florescia em meio a um gramado verdejante. Viajavam por um caminho carcomido pelo tempo, e logo veio ao cavaleiro a estranha sensação de que ninguém cruzava aquele lugar desde os tempos do herói, e essa sensação tomou-lhe a consciência.
— Acho que estamos chegando. — disse, passando a mão na crina de Alden. — Precisamos nos apressar.
Eles seguiram em frente, galopando o mais rápido que Alden conseguia. Quanto mais fundo iam, mas belo e vívido o lugar parecia se tornava: o gramado esverdeava, as flores brotavam, e as árvores se engrandeciam. Mas, no fundo, Edwin sentia um mal mau pressentimento. Uma brisa gélida cruzou o caminho deles, atravessando o corpo do cavalo e do cavaleiro com um intenso calafrio; as árvores empalideceram, as folhas caíram, e flores murcharam. Eles pararam, e segundos depois, Edwin viu um vulto negro voando à sua frente cortando floresta adentro, e depois mergulhando sobre suas cabeças e antes desaparecendo na retaguarda.
Era um corvo … pensou, estreitando os olhos e olhando para trás. Os homens da feiticeira estão próximos.
Olhou à frente, e viu que a sensação primaveril havia retornado.
Seguiram adiante por algumas horas, até que, enfim, Alden se cansou e o céu se preencheu pelas estrelas. Edwin montou acampamento, enrolou-se em seu saco dormir, deu uma olhada no mapa que guiava a sua missão, e enquanto a fogueira crepitava sob o belo véu cintilante, adormeceu.
Naquela manhã, Edwin se levantou, enrolou seu saco de dormir, colocou a bagagem de volta em Alden, e pegou o mapa. Mas, antes de apagar a fogueira, a sombra retornou.
Ao soar do grasnado, o calafrio voltou, e viu entre as árvores três corvos mergulhando em sua direção. A presença deles adoeceu a floresta: as folhas caíram, os pássaros se calaram e o verde das árvores perdeu o brilho.
Edwin tentou alcançar Alden, mas estava desmontado, e as aves desciam como flechas, mirando no mapa.
Um rasante. Outro. Outro.
O cavaleiro segurou o pergaminho junto ao peito enquanto tentava agarrar as rédeas do cavalo. Alden havia se assustado, e só Edwin e a Dama sabiam o quão covarde ele podia ser nestes momentos. Antes do cavaleiro conseguir segurá-lo, ele disparou floresta adentro. Os corvos cercaram o homem, grasnando ao redor de sua cabeça como se fossem berros de espanto, enquanto tentavam arrancar o mapa de suas mãos.
Edwin sacou a sua espada e tentou alguns ataques contra o ar. Então ele ouviu cavalos, cinco homens romperam a trilha apontando lanças em sua direção e usando mantos negros marcados pelo símbolo do corvo. Atrás deles vinha outro homem, montado em um belo cavalo cinzento.
— Largue a espada! — disse ele.
Edwin, olhando em volta viu as lanças apontadas em seu rosto, seguradas por homens em cavalos de batalha, então largou a espada.
O mesmo homem desmontou e tirou o capuz, era pálido e careca, possuía diversas tatuagens espalhadas pelo rosto e pelo pescoço, mas apenas uma chamou a atenção de Edwin: a de um corvo com asas abertas bem no meio da testa, a marca da feiticeira.
— Me entregue o mapa. — disse o feiticeiro, numa voz baixa e ríspida.
As lanças foram pressionadas contra as costas de Edwin.
Preciso fazer algo, e rápido, pensou, esses homens vão me matar.
Não viu outra opção: puxou o mapa do bolso, e o amassou em uma esfera. O feiticeiro levantou o braço para pegar o pergaminho; quando Edwin abriu a mão, entretanto, soltou em direção a fogueira; o pergaminho se desfez em cinzas, a face do feiticeiro se encheu de raiva e ordenou:
— Matem-no!
Mas antes que pudessem agir, Edwin disse:
— Sem mim, jamais encontrarão a espada, feiticeiro! — O silêncio caiu entre eles. — Decorei cada detalhe daquele mapa. Eu sei como chegar até ela.
O feiticeiro permaneceu encarando-o durante longos segundos. Então ergueu lentamente a mão, impedindo seus homens.
— Que seja então. Eu o matarei quando colocar as mãos na espada. Agora ande, cavaleiro de estrada! Mostre-nos o caminho!
Marcharam pelo resto do dia sob a escolta das lanças apontadas para as costas do cavaleiro. Edwin tentou atrasá-los o máximo possível, caminhando lentamente pelas trilhas antigas da floresta enquanto o ambiente ao redor se tornava cada vez mais estranho e belo. Quando a noite caiu, o feiticeiro ordenou que montassem acampamento.
Naquela noite, as mãos de Edwin permaneceram amarradas uma à outra, enquanto dois homens o observavam sentados próximos da fogueira. Os outros dormiam espalhados pela mata, mas o feiticeiro permanecia acordado do outro lado do fogo, observando as chamas em silêncio. Havia algum cansaço no olhar daquele homem; não o cansaço de uma longa viagem. Era um tipo de olhar parecido com o que Edwin vira na Dama, mas bem menos vívido — um cansaço que não derivava do tempo, mas do sofrimento, como a pele do ferreiro que envelhece mais rápido por conta do trabalho no fogo.
— Você já viu um reino morrer, cavaleiro? — perguntou o feiticeiro de repente.
Edwin ergueu os olhos, mas não respondeu.
— Eu nasci em Havard. — continuou o homem. — Quando era criança, meu pai servia um senhor que prometia proteger aquelas terras. Jurava defender os homens que viviam ali.
As chamas refletiam em seus olhos enquanto falava.
— Então veio o inverno... Os celeiros permaneceram fechados; os nobres se entupiram de comida até as barrigas estufarem, enquanto as crianças morriam nas ruas. —parou e fitou Edwin. — A Feiticeira… abriu os celeiros no último inverno e deu o que comer aos pobres.
Edwin manteve a expressão firme e provocou:
— E por isso ela quer uma espada? Para dar às pessoas o que comer? — estreitou os olhos. — É essa a desculpa que diz para si mesmo? Você sabe muito bem dos horrores que ela causou, dos horrores que causa. Vindo para cá, não só ouvi histórias, como também vi homens enforcados nos bosques; homens que foram contra a vontade dela.
— Os bardos transformaram a espada em símbolo — continuou o feiticeiro. — Uma relíquia para ser escondida enquanto os reinos apodrecem lentamente. Ela acredita que Svadnir foi criada para mudar o destino deste mundo, não para permanecer enterrada. Enquanto a sua fé, cavaleiro, está em senhores que pretendem escondê-la, para nunca mais ser encontrada.
Edwin passou o resto da noite acordado, observando o crepitar, imerso na escuridão, encarando o carvão em brasa até o amanhecer.
No dia seguinte, o feiticeiro soltou as amarras de Edwin, e seguiram riacho abaixo.
Ao primeiro vislumbre, o lugar parecia apenas belo, mas os olhares mais atentos poderiam perceber que aquele ambiente transbordava magia. Ao aproximar-se do lago, seguindo trilha adentro, as árvores tornaram-se mais formosas, com galhos e ramos longos, que se contorciam elegantemente em direção ao Sol. A grama se tornava mais verde, mais viva, e os raios de sol passavam pelas copas das árvores na forma de resplandecentes fachos de luz. Flores emergiram do solo e dos troncos de diversas cores e formas: lírios, violetas, azaleias, hortênsias, e jasmins, agrupavam-se em pequenos conjuntos, misturando-se de vez em quando, criando coloridas poças de pétalas.
E lá estava, depois de todo esse caminho, a inegável existência de magia naquele lugar. Um majestoso lago, formoso e vasto e cheio de vida com patos, peixes e ovelhas que pastavam na costa. Mas o olhar de todos ali foi para outro lugar, uma árvore enorme erguia-se de uma pequena ilha no lago como um gigante, como a mãe de uma floresta, os elfos a chamavam de Ysmanir, e os humanos das terras próximas, de Flurmór, a anciã.
Por um momento, Edwin se esqueceu do toque gélido das lanças mortais tamanho era o maravilhamento. Na verdade, até mesmo os cavaleiros se esqueceram do prisioneiro. Mas o feiticeiro fez questão de lembrá-los dizendo:
— Matem-no agora. Já chegamos até onde ele era útil.
— Não chegaram, ainda há um lago para cruzar, e duvido que saibam de seus dois perigos. — respondeu Edwin.
— E quais são os perigos? — perguntou um dos homens.
— O primeiro deles é que não devem tocar na água, pois ela queima, e morrerão se caírem nela, e o segundo, eu contarei quando subirmos naqueles botes.
Apontou para dois botes musgosos que estavam na margem.
— Esperem. — disse o feiticeiro. — Um de vocês! Coloque o dedo no lago, veja se ele está dizendo a verdade.
Os homens olharam uns aos outros, até que o mais corajoso deles tomou a frente, se ajoelhou ajoelhou-se e colocou o dedo na água de olhos fechados.
Quando sentiu a água em seu dedo, no primeiro instante, não aconteceu nada, de repente, uma dor súbita tomou seu dedo, e, ao soltar um grito e cair para trás, percebeu que estava vermelho e cheio de bolhas. A dor era tamanha, que enfiou sua mão na terra, na tentativa de amenizá-la.
Subiram no barco e remaram até o lago, o cavaleiro suspirou. Edwin ficou em um barco diferente do feiticeiro, junto com outros dois homens que apontavam suas lanças para ele.
— E qual é a segunda coisa que devemos saber? — disse o feiticeiro. — É melhor dizer, ou te jogarei no lago.
— Não olhem para o lago. — disse Edwin. — Sob nenhuma circunstância.
Os botes boiaram em direção a ilhota, no meio do caminho, sombras passavam pelos barcos, ninguém conseguia vê-las, mas as sentiam debaixo d’água, nadando por baixo dos botes. Quando de repente, elas pararam, e um pequeno brilho majestoso refletiu refletiu-se no rosto de um dos homens; e ele sabia o que era; ouro.
Foi tomado pela curiosidade, ou ganância, e olhou para baixo. Quando viu, seja lá o que realmente estava no lago, desejou jogar-se nele. O barco tremeu ao seu levantar, um de seus companheiros perguntou:
— O que está fazendo?
Então, com o chacoalhar do bote, tentou saltar. Mas antes que conseguisse, Edwin o segurou pela gola, agarrou o homem e o colocou de volta sentado, tampando a sua visão do lago logo em seguida. Enquanto o homem se recobrava, Edwin disse:
— Eu falei para não olharem!
Quando seu olhar cruzou com o do feiticeiro, ele viu um leve sorriso, uma afirmação; estava ganhando a confiança deles. Até chegarem na à ilha, não houve nenhuma ponta de lança em suas costas.
Conforme se aproximavam, notaram a presença de alguém na ilha. Uma figura feminina que os encarava de longe. Tinha longos cabelos castanhos, e uma pele queimada pelo Sol. Possuía claros traços élficos e usava um belo vestido branco e verde, bordado com um leve prateado. Seu rosto era marcado com marcas brancas de runas feéricas minuciosamente desenhadas. Ela se aproximou deles, plena em estatura, enquanto os botes se aproximavam da ilha. Edwin sabia quem era: a Eremita, guardiã da espada.
— Quem sois vós? Por que buscais a espada do herói? — disse sua voz que ecoou por todo o lago, e chacoalhou a copa das árvores.
Ninguém respondeu, e ela se manteve observando, de olhos cerrados.
O bote parou, e um dos homens que estava junto com o feiticeiro desceu para segurá-lo. Quando, de repente, vinhas romperam o chão e atravessaram sua perna, penetrando pela panturrilha, subindo por dentro do seu corpo, saindo pela boca, e o sangue escorreu pelas vinhas verdes que haviam crescido. O homem havia sido empalado.
— O primeiro teste é o da vontade. — disse a Eremita. — Ninguém que não pretenda encontrar a espada pode pisar na ilha.
Ela olhou para todos, esperando que alguém fizesse o movimento.
O feiticeiro se colocou à frente, pisando na terra com convicção; nada lhe ocorreu, e a Eremita o fitou. Edwin respirou fundo, e fez o mesmo, enquanto os outros homens permaneceram nos botes, olhando o corpo empalado.
— Muito bem… — disse a Eremita, convencida. — Serão os dois então… sigamos para o segundo teste.
Num simples piscar de olhos, todas as flores da ilha viraram espadas: grandes e pequenas, prateadas e douradas, simples ou adornadas por joias, centenas delas fincadas na terra.
A Eremita disse:
— Uma dessas espadas foi a primeira espada do herói. Aquele que encontra-la, prosseguirá para o próximo teste. Mas caso escolha a espada errada… — Ela olhou para o homem empalado. — Já sabem o com quem irrita Ysmanir em sua ilha.
O feiticeiro olhou as espadas e disse:
— Mostre-me! Mostre-me qual é a espada correta, cavaleiro! Podemos mudar as coisas, podemos trazer uma nova era se tivermos a espada. Ou prefere que ela fique trancada em algum porão?
Edwin respirou fundo. Qual foi a primeira espada do herói?
Então, percebeu:
— Aquela ali! Aquela é a primeira espada do herói! Como foi dito nas lendas! — Era uma espada bela, prateada com adornos de rubi e detalhes em ouro. Havia no pomo o brasão do reino Caellon, o reino que o herói nascera.
— Uma bela espada, deveras, digna de um herói. — disse o feiticeiro.
Aproximou-se dela lentamente, como um homem diante de um altar, e com as duas mãos a arrancou arrancou-a do chão. Seus olhos percorreram a lâmina prateada, os detalhes dourados, o brasão de Caellon.
Nada aconteceu. Por um instante, ninguém ousou se mover.
Um sorriso lento surgiu no rosto do feiticeiro.
— Eu disse, cavaleiro, que o mataria quando conseguisse a espada!
Ele avançou para desferir o golpe contra Edwin, mas as vinhas surgiram do chão antes que a espada o alcançasse. Entraram por suas pernas, atravessaram sua carne e se arrastaram por dentro de seu corpo. O feiticeiro soltou a espada e arqueou o corpo num grito de dor, enquanto vinhas rasgavam seus olhos, sua testa e a ponta de seus dedos; transformando-o em uma árvore.
Seus homens se desesperam, um deles caiu no lago, sendo queimado vivo. Os outros correram para tentar sair, mas ao tentarem salvar o que havia caído, olharam para o lago, e caíram em seu feitiço, se jogando em direção a ele.
A Eremita observou as vinhas consumindo o corpo do feiticeiro sem qualquer reação, olhou para o grito abafado dos homens que caíram no lago, e voltou os olhos para Edwin.
— E então? — prosseguiu ela. — Qual foi a primeira espada do herói?
O cavaleiro, agora sozinho, caminhou em meio àquelas espadas magníficas: ouro, prata, rubis e joias reluziam entre as flores mortas da ilha. Mas nenhuma delas parecia pertencer ao homem descrito nas antigas lendas. — Parou diante de uma pequena espada de madeira, feita por dois galhos e uma corda.
— O herói nasceu em uma pequena vila de Caellon, e brincava de ser cavaleiro quando era pequeno. Não teve uma origem nobre. — disse. — Estamos tão acostumados a ver afrescos e telas de seus momentos de glória, com armaduras de prata e ouro, que nos esquecemos disso…
Puxou a pequena espada da terra e aguardou de olhos fechados pela dor das vinhas. Mas nada aconteceu. Ele havia passado no teste, e pela primeira e última vez viu a Eremita sorrir.
— O último teste é uma pergunta, jovem cavaleiro. Qual a razão da sua busca pela Svadnir?
— Pois é meu dever entregá-la à minha Senhora, a Dama de Lantier, para que ela possa guardá-la até a chegada do próximo herói.
A Eremita o observou em silêncio por alguns instantes antes de voltar os olhos para Ysmanir.
— Que seja então. Apenas aquele que não deseja a espada para si pode tomá-la.
O tronco de Ysmanir abriu-se, se envergando como barras de chumbo, e revelando o que restara da lenda. Os olhos de Edwin, porém, não encontraram a gloriosa espada angelical, mas a verdade sobre o que havia acontecido: Svadnir estava partida. Seus fragmentos prateados repousavam sobre o âmago da árvore, reluzindo com belas runas. Ele tomou os estilhaços com reverência.
— Você jamais poderá usá-la, cavaleiro. — disse a Eremita. — Pois esta lâmina não pertence ao seu tempo, seja isso uma dádiva ou uma maldição, sua ausência é o fardo que devemos carregar até que o novo herói possa encontrá-la, e sob o fogo dos dragões, ela seja reforjada.
Ao deixar a ilha, encontrou Alden esperando por ele na margem do lago, como se jamais tivesse partido, e juntos galoparam ao nascer do Sol. Svadnir foi entregue à Dama de Lantier, e as lendas dizem que ela ainda aguarda em silêncio a chegada do próximo herói.
Equipe e produção editorial
Professoras orientadoras Profa. Dra. Ana Lúcia Trevisan e Profa. Dra. Elaine Prado
Editores Henrique Silva Santos e João Vítor Tortosa Rodrigues Alves
Revisão Julia Fernandes Pimentel e Laura de Hollanda Archanjo



Comentários