2026.2| A ALTERIDADE EM DOIS IRMÃOS, DE MILTON HATOUM

Por Carla Patrícia Felix da Silva

Milton Hatoum, autor da obra Dois irmãos, nasceu em 1952, em Manaus (Amazonas), onde passou a infância e uma parte da juventude. Hatoum tomou posse neste ano, 2026, da cadeira 6 da Academia Brasileira de Letras, selando seu legado. O autor estreou na ficção com Relato de um certo Oriente, publicado em 1989 e vencedor do prêmio Jabuti de melhor romance do ano. Em 2000 publicou o romance Dois irmãos e mereceu outro Jabuti. Em 2001, foi um dos finalistas do Prêmio Multicultural do Estadão Com Cinzas do Norte (2005) Hatoum ganhou os prêmios Jabuti, Bravo!, Grande Prêmio da Crítica/APCA-2005 e Portugal Telecom. Desde então suas obras são sempre aclamadas pela crítica e pelo público devido os temas que aborda e o impacto que causam.
Dois irmãos (2000) narra um drama familiar. Toda a trama se desenvolve em torno da rivalidade entre os irmãos gêmeos Omar (o Caçula) e Yaqub. Há ainda Zana e Halim, os pais dos gêmeos, a irmã Rânia, e Domingas, personagem fundamental da narrativa e por meio da qual se estabelece o nó da narrativa . A história é narrada por Nael, um narrador que também é personagem, mas, inicialmente, não sabemos disso. Ele é filho de Domingas, a empregada da casa, com um dos gêmeos.
Narrado em primeira pessoa, Nael num processo de rememoração, o romance de Hatoum nos apresenta a relação conturbada entre os gêmeos Omar e Yaqub. Os problemas advindos dessa relação fazem com que Yaqub seja mandado para o Líbano e ao retornar, cinco anos depois, se sinta deslocado e já não consiga se adaptar àquela família. Yaqub por diversas vezes parece ser um estrangeiro em seu próprio lar, esse fato faz com que Yaqub, num segundo momento, passe a viver em São Paulo deixando a família em Manaus.
Os gêmeos são extremamente diferentes e essas diferenças são destacadas a todo o tempo no decorrer da narrativa, pois o narrador, Nael, busca desvendar ou identificar cada traço marcante da personalidade de ambos em busca de sua própria identidade, mapeando assim r o contexto familiar do qual faz parte. A narrativa é construída a partir das observações de Nael, e dos relatos que ele ouviu de Halim, o avô e de Domingas, sua mãe.
Yaqub e Omar apresentam-se como opostos perfeitos, apesar de serem gêmeos e terem muitas questões em comum. É nessa relação que a alteridade se torna um aspecto fundamental da obra. A relação com o Outro se apresenta como um espelho quebrado entre os irmãos e, consequentemente, com Nael, personagem que ocupa esse lugar limítrofe, entre Omar, Yaqub e Domingas.
Nael é a peça-chave das relações que se estabelecem entre silêncios e segredos. O menino/rapaz, busca por meio de sinais, afetos quebrados e palavras não ditas, resquícios que o levem à sua própria origem e identidade. Logo no início da trama, Nael nos revela sob qual perspectiva vive a própria história:
Isso Domingas me contou. Mas muita coisa do que aconteceu eu mesmo vi, porque enxerguei de fora aquele pequeno mundo. Sim, de fora e às vezes distante. Mas fui observador desse jogo e presenciei muitas cartadas, até o lance final. (Hatoum, 2006, p. 23)
Em uma entrevista cedida a Haroldo Ceravolo Sereza para o jornal O Estado de São Paulo, em 27 de maio de 2000, ao ser indagado sobre o posicionamento do narrador, Hatoum afirmou:
Ele é um narrador que se mostra aos poucos. No início, o leitor não sabe quem está contando a história. De alguma forma, eu também não sabia. Acontece com ele algo que também se passa no romance, em que os problemas se mostram aos poucos, nada é revelado de forma ostensiva. Até o fim nem tudo é revelado. Como o narrador está à margem da família, ele participa desse jogo sutil entre o centro e a periferia. Ele é desfavorecido socialmente, é um filho bastardo, não sabe quem é o pai. Suas origens são difusas, como aliás são problemáticas as origens de todos os personagens. (Sereza, 2000, caderno 2)
Nael, é esse Outro diante da própria família, ele está à margem e este é o seu lugar conhecido, o espaço entre pertencer e não pertencer. Ele busca pistas nas falas da mãe, Domingas, para construir um lugar para si naquele espaço:
Ela [Domingas] me enlaçou, beijou meu rosto e abaixou a cabeça. Murmurou que gostava tanto de Yaqub... Desde o tempo em que brincavam, passeavam. Omar ficava enciumado quando via os dois juntos, no quarto, logo que o irmão voltou do Líbano. “Com o Omar eu não queria... Uma noite ele entrou no meu quarto, fazendo aquela algazarra, bêbado, abrutalhado... Ele me agarrou com força de homem. Nunca me pediu perdão.” (Hatoum, 2006, p.180)
Neste trecho é ainda mais clara a busca de Nael por uma definição sobre a sua própria identidade. As imagens dos irmãos parecem estar nebulosamente unidas como opostos perfeitos, mas e ele? Nael permanece à margem, à espera de um lugar para ocupar. Afinal, qual dos gêmeos seria o seu pai? A obra de Hatoum propõe uma dúvida insolúvel e na medida precisa, pois a busca de Nael e todos os silêncios com os quais se depara revelam esse espaço do limbo no qual ele habita. Ele é tão deslocado quanto Omar e Yaqub. Um outro.
Referências:
HATOUM, Milton. Dois irmãos. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.
SEREZA, Haroldo Ceravolo. Milton Hatoum canta Manaus para ser universal. O estado de S. Paulo. São Paulo, caderno 2. mai. 2000. Disponível em: http://www.miltonhatoum.com.br/sobre-autor/milton-hatoum-canta-manaus-para-ser-universal-por-haroldo-ceravolo-sereza-caderno-2-o-estado-de-sao-paulo-27-de-maio-de-2000. Acesso em: 25/05/2026.
Equipe e produção editorial
Professoras orientadoras Profa. Dra. Ana Lúcia Trevisan e Profa. Dra. Elaine Prado
Editores Henrique Silva Santos e João Vítor Tortosa Rodrigues Alves
Revisão Junia Campos e Juliana da Costa Cardia



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